Conversas informais e respostas a patronos. Parte I

Lancei no “patreon” do Lateral Esquerdo uma iniciativa semelhante a outra que fizemos no passado, que havia dado um resultado giro. Cada patrono colocou algumas questões, ou na plataforma ou por email, e daí surge o presente post, com respostas a questões onde se aborda praticamente tudo. Tentei agrupar por questões mais particulares e sobre o blog, e posteriormente mais sobre o jogo.

 

Acompanho com muito cuidado este projecto desde os tempos do blogspot. De lá para cá, tornaram-se numa marca nacional. O que mais te orgulhas neste caminho?

– Olha, há imensas coisas que poderia referir, que são um orgulho imenso, mas nenhuma como o facto do Lateral Esquerdo ser hoje reconhecido no mundo do futebol como uma marca de excelência. Tu falas com qualquer treinador português, qualquer mesmo… desde os de miúdos até aqueles com títulos Europeus, e eles dizem-te que conhecem, e que recomendam o Lateral Esquerdo. Aliás, vários até se tornaram patronos… o maior orgulho é mesmo o facto do site ter crescido no mundo do futebol pelo passa a palavra entre os melhores jogadores e melhores treinadores portugueses, é ser várias vezes, tema de balneário. E recentemente chegou também a vários intervenientes do Brasileirão… Atingiu uma dimensão tal, que nem posso contar um décimo sobre os episódios e as pessoas que o Lateral Esquerdo meu deu a vivenciar e a conhecer…

 

Depois de tantos anos a ensinar o jogo, com conhecimento acessível para todos, chateia-te os disparates que ainda se dizem sobre o futebol?

Se ouves o Mourinho a falar em génios do google, e o Jesus em atrasados mensais, estou certo que eu sou o que menos se chateia com isso… Não, na verdade, não chateia, porque não leio nem vejo. Quando chegas a determinado nível e tens menos tempo para procurar aprender e evoluir, tens de ser criterioso no que lês e no que fazes. E portanto, as coisas sem qualidade passam-me ao lado, porque não me chegam. Menos quando são humorísticas… ai, chegam-me coisas em alguns grupos que estou no Whatsaap com outros treinadores. Por exemplo, ainda há pouco tempo partilharam por lá que alguém tinha dito que a equipa do Mourinho era banal colectivamente porque tinha marcações HxH por todo o campo, e tinha ausência de coordenação entre linhas defensivas. Opa, a malta partilha para se rir. Como é que tu marcas HxH e ainda defendes com linhas?! Como é que pode haver gente assim a querer falar de futebol…? Ou seja descobrimos que o Mourinho voltou a inovar, e é o primeiro treinador do mundo que marcando ao homem ainda defende por linhas. Isto é o mesmo que dizer que gosto muito daquela camisola azul porque é vermelha. Mas tirando alguns excertos que são partilhados por malta desses grupos para escárnio, não perco mesmo tempo com maus produtos. Hoje em dia fazes uma página do facebook e falas do que queres, mesmo que para dizer as maiores anormalidades e não tenhas qualquer conhecimento sobre o que falas… e se pegares nas guerras Cristiano – Messi, ou Mourinho – Guardiola, arranjas sempre público. No fim do dia, tu tens de decidir o caminho que queres seguir… o da aprendizagem e o da evolução, ou o do gastar tempo em redes sociais improdutivas… Quanto mais depressa conseguires definir-te, mais depressa chegarás onde queres…

 

O que recomendarias a quem para além do Lateral Esquerdo, pretende continuar a aprender noutros lados?

– Olha, há um projecto giro, que se chama “O meu caderno desportivo”, tenho a sensação que vai crescer porque tem qualidade. E depois, claro, o Saber Sobre o Saber Treinar, que é uma das minhas maiores referências, porque o Ricardo está ao nível das pessoas que me proporcionaram maiores aprendizagens.

 

Considerarias uma entrada na TV para explicar futebol…? Seria serviço público…

Sim, claro. Aliás, posso revelar-te que essa ideia chegou a estar muito avançada, com um director de conteúdos de um canal português. Não é algo que me faça perder o meu tempo a pensar, mas confesso-te que quando o projecto me foi apresentado, fiquei entusiasmado. Mas, também é importante que se algo surgir no futuro, que consiga fugir ao normal, e que consiga ser um conteúdo de qualidade. Só assim fará sentido…

 

Desde que passaram a site parece-me que mudaram um bocadinho o tipo de posts (mas mantiveram a qualidade). Parece-me que as análises ao desempenho das equipas, nomeadamente aos 3 grandes, são um bocadinho menos incisivas do que eram há uns anos atrás. Já há muito que não se vê um post a “rasgar” como antigamente e mesmo os elogios são hoje mais contidos. A caixa de comentários e a troca de ideias que por lá tínhamos, e que penso ter sido uma parte muito importante do sucesso do blog, também está agora bem menos dinâmica. As minhas perguntas são: 1. Concordam com estas minhas observações ou sou eu que estou a imaginar coisas? 2. (se concordam ) É propositado, porque com maior visibilidade é preciso ter mais cuidado para ser mais politicamente correcto, ou é uma mudança mais natural, porque o vosso interesse naquele tipo de posts é agora menor, ou ainda, é porque algo que mudou na vossa forma de olhar para o jogo (e se sim, o quê)? 

Os posts a rasgar ou com elogios desmedidos, dependem sempre do que as equipas ou jogadores fazem… Se te lembrares do que trazíamos para análise nos primórdios do blog, recordares-te-às da organização, ou falta de organização das equipas em Portugal… e portanto nesse período foi muito fácil bater em muita gente. Tu hoje olhas para a Liga e vês quase todas as equipas a comportarem-se da forma como nós defendiamos há quase dez anos atrás… Estou certo que se o blog passasse a analisar a realidade de alguns campeonatos da periferia Europeia, como o holandês, grego, e etc, que ainda havia muito rasganso épico. Mas, a evolução dos treinadores portugueses é notória, e falar mal sem critério para o show off, é somente estúpido. Se o projecto tem a credibilidade que tem junto dos principais intervenientes, tal deve-se precisamente ao critério com que se analisa… A caixa de comentários caiu por uma grande razão… depois de atingires determinado nível, deixas de responder a patetas, e deixa-os a falarem sozinhos… não querendo parecer muito pretensioso, mas imaginas um treinador a responder ou a explicar o jogo aos adeptos? É um pouco por ai, eu até explico, mas quem entende, entende, quem não entende, paciência. Já não há aquela vontade de “evangelização”. De resto, ainda agora saiu um texto muito crítico sobre a forma como o Benfica defendeu no jogo com o Estoril. O que não há é criticas sem critério, e o Benfica (porque foste tu que mencionaste o clube), não defendeu sempre assim na presente época… Em suma, houve uma evolução táctica clara do jogo em Portugal, e há mais critério da nossa parte. Obviamente, que porque agora conheço e falo com tanta gente sobre a qual escrevo, houve um momento em que tive de parar e pensar… como vai isto continuar, agora? E pensei… se esta gente toda chegou a mim porque seguimos este rumo, e falámos sem problemas de quem quer que fosse, o caminho é continuar… embora confesse, que por vezes após alguma critica mais incisiva num texto, fique a olhar para o telemóvel à espera de receber uma mensagem de sobre quem falei a rasgar-me a mim e a explicar-me que não estou no processo e por isso não entendo opções que se tomam… mas não aconteceu, ainda…

 

Não sei se a questão já foi colocada mas cá vai: Rui Vitória, apesar das qualidades humanas, e dos resultados alcançados, não apresenta falhas básicas como treinador de futebol em alguns aspectos?

Eu não sei o que pretendes dizer como falhas básicas. Não acredito que tenha falhas básicas. Ninguém anda ao nível a que o Rui Vitória e todos os outros que estão na primeira liga andam, com falhas básicas. A menos que eu olhe para o “básico” de forma diferente da que pretendes referir. O Rui Vitória aproveitou muito bem o trabalho do Jorge Jesus, e no ano passado pareceu-me um vencedor inteiramente justo do campeonato. Creio que com estas mudanças que está a introduzir agora é que se está a atirar um pouco para fora de pé… são coisas que levam mais tempo para ser afinadas e que talvez devessem ter sido pensadas antes do período competitivo…

 

Estratégias para defender espaço entre-linhas? – Para além das zonas de finalização, consideras necessário existir mais algum principio para a fase I? – Em termos de observação do adversário, o que consideras essencial para analisar na defesa adversária? Faz sentido falar em espaços intra-linha ou pode partir muito pela caracterização individual dos jogadores?

Olha, o Mourinho resolveu os hábitos muito enraizados de algumas equipas em explorar no seu momento ofensivo, esses espaços, cortando com as linhas. Coloca os cães de caça nas costas, e tu nunca entras naquele espaço, porque ele não existe. Não há linha. Quem mantém as linhas, é importante não deixar enquadrar, pelo que é decisivo a agressividade a sair ao portador, mas ainda antes de tudo, a minha maior preocupação tem a ver com a forma como a linha defende, de forma articulada, para que a bola não entre lá. Se entrar, já estou a perder… mas basicamente é primeiro não deixar enquadrar, e depois baixar metros para voltar a colocar a linha batida atrás da linha da bola, e a defensiva, a controlar a profundidade. É importante analisares como defendem… se vais com uma estratégia a querer chegar ao espaço entre linhas e eles depois não defendem com linhas, já estás a perder… Sabendo como defendem, que método recorrem consegues preparar melhor o jogo. Isso é mais importante que a caracterização individual. Embora, essa também seja importante de conhecer, para poderes explorar…

 

Na tua opinião, quais os conceitos, e não me refiro aos princípios de jogo, ofensivos e defensivos, independentemente da forma de jogar, que uma equipa deve dominar/possuir?

Perceber com clareza os momentos do jogo. Tendo esse conhecimento, consegues saber onde e quando podes perder a bola, onde e quando é o momento de investir. Creio que é o mais importante para se dominar no jogo…

 

Como lidar contra uma equipa que pressiona alto quando temos defesas com menos capacidade técnica? Até que ponto se devem abrir os extremos ou os defesas laterais, sair a 3, ou aumentar as distâncias entre jogadores na saída de bola, tendo em conta que se tem uma defesa com dificuldades nesses aspectos? E quando é que passa ser opção a bola mais longa ou estratégia alternativa nestes casos? Mais à frente, assumindo que há uma contra estratégia para todas as formas de sair em ataque posicional, quais as 2 ou 3 melhores soluções para ir rodando tentando e como fazer isso durante um jogo? 

Tudo é contextual… recordo que já vi muita gente a querer avaliar o treinador como bom ou mau tacticamente, porque projecta os laterais, baixa o médio para construir a três… isso não tem sentido algum… Sais a três se eles te vêm defender com dois… Se estão a sair só com um avançado, vais baixar mais um para vir para cima do avançado deles? Se sabes que vais ser pressionado, e se sabes que os teus centrais irão perder a posse se quiserem sair de pé para pé, porque têm muito erro técnico, tens de pensar numa forma alternativa para sair. Perceber como pressionam… Se vêm apertar com todos HxH, trazes médios todos para baixo também, e aumentas-lhes o espaço entre médios e defesas, para então colocares lá a bola. Já dizia o Pep, “é uma bola que se a ganhas, é muito boa”. Ou seja, nessa situação, sem dúvida que não só te estás a proteger, como até estás já a preparar ferir o oponente, quando colocas a bola por cima da pressão.

 

Olá a todos e desde já os meus parabéns pelo projeto! Poderiam ser imensas as perguntas a fazer, mas tendo já lido as dos outros “patronos”, queria perguntar qual o método que utilizam para rever os jogos e aproveitar o vídeo para análises táticas como as que o Pedro coloca no canal de youtube dele. A pergunta pode parecer simples mas é algo que sempre tive curiosidade em fazer mas nunca soube muito bem como iniciar. 

Utilizo o Windows Movie Maker e / ou o Camstasia

 

O que considera um “Médio C”?

Médio Centro

 

Se bem me recordo, já foi discutido no blog a grande competência táctica das equipas portuguesas nas competições europeias, que de certo modo esbate o grande diferencial a nível de talentos individuais; a pergunta é a seguinte: têm notado que essa vantagem comparativa tem diminuído nas últimas épocas? E se assim for, teremos que nos habituar a uma menor saliência das equipas portuguesas na Europa? Parabéns pelo trabalho fantástico.

A qualidade táctica está presente nas melhores Ligas Europeias. Em todas, creio. Mas, o factor estratégico, poucos o têm tão acentuado como os portugueses.
Cito o Professor Silveira Ramos: “Portugal foi pioneiro nessa capacidade de aliar a vertente estratégica às metodologias de treino mais avançadas. Isso produziu alguns dos melhores treinadores do mundo. Não percamos isso, não nos agarremos a preconceitos. Identidade não é jogar sempre com os nossos argumentos expostos. Nenhum grande general faria isso… Estratégia é utilizar o que temos de melhor…”. Concordo inteiramente com isto. Eu sei que quando as equipas portuguesas perdem na Europa, as Televisões e os adeptos viram-se sempre para o mesmo, mas na verdade isso é a maior prova do quanto desconhecem o jogo e as diferentes realidades. Se há algo onde as forças se equivalem, ou até mais, os portugueses consigam usar para contrariar o muito maior poderia adversário, é nos treinadores… mas, estas coisas são culturais… é por isso que vemos na TV após cada derrota irem bater sempre no treinador…

 

Viva LE, antes demais aproveito para vos felicitar pelo excelente trabalho que fizeram e que têm vindo a fazer. Tendo em conta a vossa experiência e opinião, existirá espaço para jovens treinadores (adjuntos/analistas/preparadores físicos) no futebol profissional? Abraço, continuação de um trabalho top.

Creio que sim. Não é um espaço onde seja fácil entrar, mas os treinadores portugueses estão sempre atentos à qualidade que os rodeia. Confesso-vos o desejo especial de ver o Bruno Fidalgo lá chegar. Já esteve mais longe… e eu sei o quanto merece, e a qualidade incrível que tem. Se algum dia tiver como ajudar a chegar… é uma das pessoas que, embora já tenha dado passos importantes nesta época para isso acontecer, vai ter de lá chegar. É demasiado bom para que isso não aconteça… E depois quem ganha, é quem o aproveita. Como é o caso da presente temporada…

 

Obrigado por esta oportunidade e por tanto que têm contribuído para um melhor entendimento do jogo. Questões: 1. Em que vertentes é o Porto de SC parecido ao Sporting de JJ? E quais as diferenças mais óbvias? 2. Favorito para o campeonato português? 3. O futebol evoluiu muito nos últimos 10 anos ao nível táctico. Onde estaremos daqui por mais 10 anos? Que novas inovações poderemos esperar?

1. Partem regra geral do mesmo sistema táctico, o 4x4x2, o comportamento defensivo é semelhante nas diferentes fases, embora o FC Porto me pareça uma equipa mais descuidada com o rigor posicional, talvez porque tem um sem número de jogadores que resolvem os problemas defensivos de forma mais fácil. Ou seja, vejo o Sporting mais rigoroso tacticamente sem bola. Com bola, a transição ofensiva do Porto está uns furos acima… sobretudo porque tem outros jogadores, que lhe permite sair mais rápido e explorar a profundidade… tem sempre avançados com grande mobilidade e capazes de caírem nos corredores laterais para iniciar ataques rápidos. Vejo-os bastante mais perigosos que o Sporting nesse momento. 2. O ano passado foi fácil apontar o Benfica como favorito. Colectivamente e individualmente estava bem acima de todos os outros. Esta temporada é muito mais difícil chegar lá, e é preciso ver como as equipas vão mexer no mercado de Janeiro. Identifico-me mais com o rigor de comportamentos do Sporting… 3. Difícil dizer. Importante seria que o nível técnico subisse de forma abrupta para que jogadores como Iniesta e afins não sejam excepções… isso já seria uma grande evolução. Termos mais jogadores com esse perfil…

 

Compreendendo a necessidade/facilidade de foco nos “grandes” vinha pedir para se chamar à liça também duelos entre “não grandes”. O Rio Ave-Sp Braga foi um jogão, mas tacticamente pareceu-se-me um banho do Rio Ave tendo valido a superior qualidade individual dos Bracarenses para atenuar o resultado. Muito se ouve falar do “bom trabalho” do treinador do Marítimo, ou do Nuno Manta, mas é raro vermos uma análise de como o bom trabalho se manifesta quando não se tem um Jonas, um Bas Dost ou um Brahimi, tipos que decidem bem mais vezes do que os equivalentes de Chaves, Feirense e Louletano. Seria possível prendarem-nos, uma vez por mês ou assim, com uma análise de um duelo entre clubes não grandes? O Luis Castro tem um registo de qualidade impressionante, mas o Chaves está afundado na tabela. Azar do caraças ou algo que não está a engatar este ano?

O Chaves já está a chegar ao seu lugar. Teve um início complicado pelo calendário e um ou outro azar, mas já está a chegar… Vamos tentar. Ultimamente tenho estado mais atento quer ao Braga quer ao Rio Ave. Por vezes não é fácil sair destes cinco, por duas grandes razões. É o que o grande público quer, e neste momento já não posso só dizer que este projecto é para puro gozo pessoal, porque tem um patrocionador e patronos por trás, e porque as restantes equipas não praticam o futebol que me prende à TV. Atenção, não atribuo isto aos treinadores, mas a um conjunto de variáveis que o torna assim. Mas, tendo o pedido partido de um patrono, prometo espreitar, ver e analisar mais!

 

Qual a vossa opinião sobre as ideias e trabalho de Simeone? Em relação aos trabalhos que são feitos numa deleção nacional, é possível em 1 ou 2 semanas (por exemplo, qualificações) pôr a equipa a jogar com as ideias específicas de um determinado treinador? Na vossa opinião, quais são os aspetos onde o futebol moderno mais pode evoluir?

O trabalho é fantástico, os resultados são óptimos. Com as ideias já não me identifico tanto, mas isso é uma questão de gosto pessoal, que não me impede de perceber o quão especial tem sido o que tem conseguido. Recordo algumas palavras do Pep Guardiola e do Quique Setién, que referiam o quão impressionante é como Simeone consegue manter todo um grupo focado e pronto “a matar por ele”. E acrescento eu, fá-lo da forma mais difícil, que é dar-lhes um jogo onde têm de se divertir menos… Sobre a segunda questão… quando a qualidade é muito elevada, até por video consegues passar as tuas ideias, embora depois os timings perfeitos só surjam com o trabalho de campo. Quanto maior a qualidade, menos tempo precisas…
Eu gostaria muito que evoluísse no sentido de termos mais jogadores do perfil do Iniesta, do De Bruyne e do Silva… mas também sei que com a chegada de tanta tecnologia e “modernidade” ao jogo, vão sempre haver realidades que pretendem antes de mais tornar os jogadores em máquinas…

 

Como podemos ter um dia um nível de cultura futebolística como a que existe na Inglaterra ou na Alemanha? Não me refiro tanto a intérpretes, se bem que gostaríamos todos de ver ainda mais talentos surgirem, mas sim com futebol positivo, bancadas mais cheias e um maior conhecimento do jogo. Sei que economicamente somos um país com muitas limitações mas parece-me que dentro do nosso potencial há muito por explorar. A comunicação social não contribui também para um empobrecimento do futebol nacional? A cobertura aos 3 grandes é constante e, na minha opinião, 95% dela inconsequente. O que vejo nos sites e jornais é de um nível muito semelhante ao que via há 10 anos (tirando a tua crónica Pedro ;)). O que se vê na televisão ainda pior. Discute-se árbitros, agressividade, lugares comuns, atitude competitiva, quem deve ou não jogar e os temas acabam por ser irrelevantes ou abordados de forma superficial. Conheci o LE no tempo da faculdade e o meu conhecimento futebolístico (que não é assombroso) aumentou exponencialmente. Porque pela primeira vez me disseram que o jogador X fez um óptimo jogo por este e aquele motivo, e raramente era porque fazia o golo da vitória. Passei largos anos a verem ser eleitos homens do jogo sem perceber quem realmente fazia jogar. Há excepção dos programas de televisão com o Carlos Daniel e aqueles em que tu vais, Pedro, o discurso é paupérrimo. É incrível ver o conteúdo do que dizem ex-jogadores/treinadores como comentadores, o quão vazio é. Será por falta de conhecimento ou porque apenas se deixam influenciar pelo nível do discurso actual? A verdade é que 1 hora de programa com o Vitor Pereira a comentar por semana faz mais por avançar o futebol português do que 1 título de campeão europeu ganho com o mister FS. É só um desabafo de quem gosta muito de ouvir falar de futebol mas que acha absurdamente bizarro que num país tão requisitado a nível de treinadores e jogadores para campeonatos e equipas de nível mundial o panorama nacional esteja cheio de Serrões e Guerras. Quando o que devia ser a excepção é a regra algo de errado se passa. Vejo grandes passos dados nos últimos anos mas ainda sonho com o dia em que aconteça com o LE e a comunicação social o mesmo que aconteceu ao JJ e ao resto dos treinadores/equipas da nossa liga.

Eu concordo com tudo o que tu dizes, mas não somos todos a concordar, porque se esses programas não tivessem audiências, não estariam no ar…
Creio também que se queres sobreviver nas TVs a falar de futebol, é mais fácil debitares banalidades e não colocares nada nem ninguém em causa, do que passar conteúdo. Tens um Rui Santos que não se importa de comprar guerras, mas que depois sabe zero de futebol, e que portanto não tem qualquer credibilidade… pelo que de facto, é tudo por vezes mais superficial. Mas, é preciso entender que as TVs também dão ao consumidor o que o consumidor quer… O meu pai não deve ter lido mais que um texto no Lateral Esquerdo… e como ele, será a maioria dos consumidores de futebol do nosso país…

 

Quais os centrais do Benfica que controlam melhor a profundidade?
E da liga portuguesa?

Falar do Luisão é óbvio. Todos percebem o quão rápido é no entendimento do jogo, mas falar dele já é habitual. Eu destacava o Mathieu, porque chegou a Portugal com ideias diferentes das que o Jesus pretendia, e cresceu enormidades e de forma supersónica, para acompanhar o que o Jesus idealiza. Eu até sei que o Jesus foi tão chato, mas tão chato com ele no início que o Mathieu chegou a pedir para sair porque não estava parar aturar aquilo… mas agora vê no que deu…

 

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Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3166 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

4 Comentários

  1. Excelente iniciativa!
    Obrigado pelas respostas.
    Em relação às minhas perguntas, era exactamente mais artigos como o mencionado (“Uma equipa à deriva na Luz”) que eu “pedia”.

    PS: Ainda aceitam perguntas novas para a Parte II ?

  2. Gostei muito.
    Não sou patrono e não sei se a minha pergunta (de leigo) será respondida. Mas cá vai: quando o Rui Vitória diz que mais importante que o sistema táctico é o modelo de jogo (desvalorizando completamente se a equipa joga em 442 ou 433) isto significa o quê?
    Obrigado.

  3. Particularmente, ja sigo o Lateral Esquerdo antes do enfoque dado ao Brasileirão.(Pra ser sincero , quase não vejo as analises do Brasileirão porque sinto uma certa vergonha dos aspectos taticos apresentados no meu país). Dito isto, é muito seguro afirmar sem exageros que o lateral esquerdo presta um serviço muito grande ao futebol.

    A unica “critica ” é que comentarios de textos antigos terem sumido com a mudança de plataforma do site. Me refiro principalmente ao melhor, disparadamente ja apresentado aqui, datado de 2014, chamado “CRIATIVIDADE POSICIONAL”, que se referia a seleção de Portugal de Paulo Bento. Aquilo tinha comentários que valiam muito.

    Saudações

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