O lado cruel do jogo – O ver para lá do olhar

Se há algo que torna o futebol um jogo tão apaixonante, é o facto de com a estratégia devida e com a sorte tantas vezes necessária, os mais pequenos conseguirem amiúde derrubar os grandes.

Ser melhor é bastante mais que ter melhor organização. Ser-se mais equipa. Numa era em que praticamente todos se organizam, as diferenças e o impacto táctico no jogo, não é tão acentuado, quando toca a definir vencedores como quando se deu a grande mudança de paradigma, com a entrada do modelo de jogo.

Guardiola nunca venceria Messi, se o defrontasse defendendo as cores do Nacional da Madeira. Ser-se melhor é um combinar entre o que é individual, com a forma como se potencia o individual para servir um grupo. E mesmo assim, no futebol, nada garante que tal é o necessário para assegurar a vitória. Porque há sempre caos e aleatoriedade, por mais que se retire ao máximo tais variáveis, com um modelo que procure controlar e definir de forma rigorosa cada momento do jogo.

No dia de ontem, alguém se lembrou de vir perguntar pelo “melhor processo do mundo” do Paulo Fonseca. O presente texto não sai para responder a tal questão. Mas, poderia perfeitamente ter acontecido. Sai porque ainda antes de questionado, tive oportunidade de ver alguns momentos da partida da Liga dos Campeões, e uma vez mais, mesmo que na derrota, saiu reforçado o trabalho de um treinador que cada vez mais se mostra, naquilo que é possível observar, como um dos melhores de todo o mundo do futebol.

 

O seu nome, talvez não tenha ainda o “peso atractivo” suficiente para as melhores equipas mundiais. Mas, é apenas o seu “nome” que não o tem. Porque a qualidade do jogo da equipa de Paulo Fonseca faz sonhar com o impacto que poderia ter em dois clubes, que parecem ter hoje a filosofia adequada para receber tamanha ideia de jogo. Estivesse eu a tomar decisões na Catalunha ou em Munique.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3379 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

6 Comentários

  1. Catalunha? Munique? De todo o mundo? Para mim, exageros.

    Obviamente reconheço o excelente trabalho do Paulo Fonseca, e confesso até que me surpreendeu bastante a evolução.
    Mas a cru, porque, agora, não tenho muito tempo:

    “Como és, como transmites, como treinas, como jogas. E claro, com os que tens”. Paulo Fonseca, Shakhtar. Perfeccionista. Visão, amplitude. Muita, muita paciência com bola. Controlo, diversas soluções, variabilidade. Mas “demasiado” método e preparação. Inteligência, mas “impulsos” demorados. Auto-determinação retardada, fragilidades quando bem pressionados. Rotina de Ucrânia não ajuda. Tem que sair para continuar a crescer.

    Mas (acho) claramente que ainda longe para esses pedestais. Já para não falar do “outro lado”…Personalidade e carácter, estilo de liderança, contra o entorno e balneário desses colossos.
    Subir de nível, claro que sim.

  2. Concordo com o bluevertigo.

    Esse é um grande salto, estamos a falar de duas das 3 melhores equipas do mundo.

    Além disso, vi o jogo quase todo da 2ª mão e a Roma montou uma excelente estratégia para anular o jogo do Shakhtar. O golo do Dzeko não sai por acaso… e o que foi o jogo também não…

    Penso que Paulo Fonseca tem tudo para subir um patamar, mas para um Arsenal, um Chelsea, um Dortmund… um passo de cada vez, que até foi algo que já o tramou no passado…

    • Nem mais. Assino por baixo os 3 pontos referidos.

      Roma “instável” mas neste 2º jogo com estratégia também. Aprendeu da 1ªmão. Não ir a pressionar alto e estender demasiado, desalinhando e prejudicando ao reagrupar. Preferiu e conseguiu mais junção activa, mais baixos, para aproveitar espaços. Não por acaso o golo.
      Shakhtar muito bem a pausar, chamar para furar e acelerar. Talvez algo conservadores demais. E, no global, ainda a sofrerem, na preocupação “perfeccionista” dos posicionamentos e alinhamentos e no timing de reacção.
      Paulo Fonseca para liga maior claramente.

  3. Em tudo aquilo que pode controlar, processo e treino Paulo dá 15-0 a Ancelotis, Luis Enriques e por aí fora… e se esses por lá andaram…

    A “liderança” é conquistada sempre que os jogadores percebem que o treinador tem qualidade…ou acham que no Shakthar funciona só porque os brasileiros e Ucranianos o acham um tipo porreiro?

    • Controla com os que tem. No Shakhtar. Noutro balneário, numa dimensão superior, com mais qualidade, mais egos, será diferente. Terá menos espaço para se impor. Calha a todos.

      Tipo porreiro para funcionar? Não só, mas também…

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