Ver – Executar – Quando Bas Dost não encontrou as chaves do clássico

Para lá da qualidade da execução, que se traduz não apenas no gesto, mas também na própria habilidade motora, a capacidade para ver tudo o que se passa ao redor é absolutamente determinante, e diferenciador no que concerne à qualidade do jogador.

O clássico terrível de Bas Dost não pode ser surpresa para ninguém. O ponta de lança holandês é tão extraordinário na grande área, quanto muito banal fora dela. E num jogo em que o Sporting teve pouca chegada, seria sempre um jogo de dificuldade elevada para o seu avançado. Ainda para mais, naquilo que é mais forte fora do espaço de finalização, isto é, nos duelos aéreos pelas primeiras bolas num jogo mais directo, teve de enfrentar alguns dos mais aptos defesas nacionais no mesmo tipo de jogo.

O holandês acerta alguns passes, e aqui e ali alguns até podem surgir de boas decisões, como qualquer outro avançado será capaz de fazer, mas isso não o torna especialmente apto para contribuir. Para acrescentar fora das zonas de finalização. Serão sempre mais vezes actos isolados do que a demonstração de capacidade para definir. De forma contínua quanto muito ajudará a não estragar.

Ter a capacidade para perceber o envolvimento, jogando de cabeça bem levantada, vendo todas as opções, e com esta capacidade para visualizar tudo, tomar as melhores decisões, bem como demonstrar qualidade a executar, efectivando a decisão tomada é o que torna qualquer jogador mais especial.

Não é porque nos jogos em que o Sporting tem menos chegada ao último terço que Bas Dost se apaga, que o holandês deixa de ser uma boa opção no ataque leonino para a grande generalidade dos jogos. A eficácia do ponta na zona de finalização, compensa largamente a inépcia fora desta.

O facto de estar muito longe daquele que é o protótipo de um jogador bem valoroso, porque tecnicamente, do ponto de vista motor, e da capacidade e velocidade de raciocínio está bastantes níveis abaixo da média, não deixa de o fazer um jogador que porque especial na finalização, é muito útil em contextos específicos.

E um pouco à semelhança do outrora ponta de lança que resolvia campeonatos em Portugal, Mário Jardel, Bas Dost tem o condão de mesmo em jogos em que a sua equipa cria menos, resolver as partidas com a sua eficácia.

Não seria nunca a minha primeira aposta para ponta de lança, se pudesse escolher o meu plantel. Mas, estando lá, também não se deve nem pode desaproveitar o goleador!

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3448 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

1 Comentário

  1. Maldini, eu nem de Slimani gostava quando esse ao menos tinha características que de tempo a tempo lembravam o Derlei. Bas Dost faz golos, é verdade, e é um bocadinho parvo que adeptos (como eu) desconsiderem a sua produção, poucos, felizmente, porque a esmagadora maioria de sportinguistas adora o Bas Dost e ainda bem que assim é para efeitos de paz e de bem-estar deste bom e honesto Holandês, mas é igualmente verdade que 80% dos golos que faz não se tratam de finalizações minimamente complicadas ou que indiciem o mínimo de classe. Posto isto, como dizes, ele não precisa de muitas oportunidades para fazer golos e esse é um atributo valioso para qualquer equipa, e se está em posição para os fazer é porque fará qualquer coisa bem feita que lhe permite estar / chegar lá (à posição de tentar fazer golo).
    Maldini, quanto aos duelos e ao seu contributo sempre que o Sporting joga directo, jamais irei contra alguma coisa que digas mas a impressão que Bas Dost me deixa é por acaso a contrária. Trate-se dos defesas do FC Porto ou de qualquer outra equipa menos capacitada, a ideia que tenho é que Bas Dost não é especialmente forte nesse tipo de jogo, embora possa estar a escrever uma barbaridade já que não tenho obviamente a tua capacidade de leitura nem faço ideia se existe alguma espécie de estatística que mostre quantos duelos ele ganha, aéreos ou outros (encostos, disputas mais ou menos caóticas, procura de faltas bacocas, etc.)
    Seja como for, não me custa reconhecer que muito disto é preconceito. Embora antiquada, manter-me-ei apologista da ideia de que um jogador que actue numa equipa como o Sporting tem de necessariamente cumprir mínimos ao nível da classe individual que exibe (isto é, tem de saber jogar à bola). Ora numa equipa grande esses mínimos são elevados … Já que o mencionaste, Jardel por exemplo metia a bola onde queria, mas fazia-o com a cabeça. Foi tecnicamente um jogador de futebol perfeito, nada menos do que perfeito, e tinha também uma intuição ímpar que lhe permitia aparecer sempre no local certo no nanosegundo certo. Foi único, assim para categorias para lá do especial (na história do futebol mundial, provavelmente).

    Ontem por acaso (vou mudar radicalmente de assunto mas lembrei-me disto) pensei no Valdés, porque o Chileno também jogou num clássico com o FC Porto que acabou empatado a zero, em Alvalade. Esse também tinha classe. Um Sporting horrível, claro, miserável, mas tinha lá foras-de-série como esse Valdés ou o Liedson e mais um ou outro. Jogadores à Sporting, isto é.

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