A Falácia dos Números – A Posse de Bola

“Odeio o tiki-taka. A posse de bola é apenas um método para ordenar a equipa e desmontar a equipa adversária.”

Pep Guardiola, 2014

Nos anos mais recentes, gerou-se um debate tremendo sobre o valor da posse de bola. Há quem acredite que, quem tem a bola está mais próximo de marcar e que é sempre o melhor caminho para se estar mais próximo de vencer, mas também há quem defenda que ter posse não significa controlar o jogo e/ou estar mais próximo de ganhar. No jogo, há mil e um caminhos diferentes para vencer. A aceitação de um e a rejeição dos outros mil é, para nós, um erro porque diferentes ideias podem ser na mesma válidas, desde que, sejam coerentes. Mais importante do que o caminho em si, é que este entronque na simbiose treinador – jogador, é acreditar e fazer acreditar quem nos rodeia de que essa ideia nos aproxima de vencer.

Numa das últimas semanas, um jornal desportivo publicou uma crónica sobre os valores da posse de bola de um clube português para justificar o insucesso dessa mesma equipa. A ideia do texto nasceu aí, mas a crescente desvalorização de outros caminhos (válidos) foi a principal razão para a criação deste texto.

“Juntem as analises qualitativas e as analises quantitativas. Se apenas nos focarmos na analise quantitativa, podemos induzir-nos em erro. Por exemplo, os números da posse de bola. Podemos ter muita posse de bola e não conseguirmos ganhar.”

Tite, 2019

Frequentemente, quando analisamos um jogo, fundamentamos as nossas opiniões com a percentagem de posse de bola, números de remates à baliza e até com pontapés de canto, ou seja, agarramos – nos aos números para justificar o que está acontecer em campo. Em algumas situações, os números podem induzir em erro porque pode não ter traduzido o que realmente aconteceu em jogo. Será que a quantidade de posse de bola nos tornou superiores ao nosso adversário? Será que ter mais posse de bola significa ter o controlo da partida? Será que ter a bola significa que merecemos ganhar…?

Ter mais tempo a bola não significa necessariamente ter o controlo do jogo. Pode-se ter mais bola e não ter o controlo da partida. Há diferentes formas de controlar o mesmo e isso varia consoante aquilo que cada um acredita, e sobretudo consegue fazer! Há quem opte por controlar sem bola, isto é, entregam a bola ao adversário e sentem-se confortáveis sem ela com o intuito de explorar os segundos seguintes à recuperação, momento do jogo onde existem mais golos nos dias de hoje. E se sem bola ninguém marca um golo, também se pode afirmar que é depois de a ter sem competências para tal que se dá a perda e a maioria dos golos surgem.

Com a evolução do Futebol, a melhoria das organizações defensivas trouxe mais problemas para quem ataca. Hoje, as equipas que circulam o jogo todo, por trás e à largura, sem romper e linhas e como tal sem conseguir qualquer oportunidade de golo, deixam o adversário confortável e portanto, o domínio não significa necessariamente que se está a causar problemas ao adversário.

“Há números em excesso à volta do futebol. Há um detalhe exagerado e acho que é negativo se os treinadores confundirem o fundamental com o acessório, reportando-se muito mais aos números e às estatísticas do que propriamente ao jogo, pois isso é que é o fundamental.”

Carlos Carvalhal, 2019


Os números elevados de posse de bola não aproximam necessariamente, então, a nossa equipa da vitória. O que nos pode aproximar da vitória é a qualidade da posse de bola, aquilo que fazemos com ela. Pensar sobre o momento ofensivo, sobre cada posse de bola, é cada vez mais difícil pelo aumento constante da complexidade do jogo. A cada posse de bola, é impossível, para nós, não interligar a transição defensiva. As equipas mais competentes do Mundo em Ataque Posicional são aquelas que atacam juntas, com um grande equilíbrio ofensivo e no momento da perda, abafam o adversário para recuperar e voltar atacar a baliza adversária.

Desengane-se, portanto, quem ainda pensa que nos jogos entre valores bastante equilibrados, quem tem a bola durante mais tempo está mais próximo de marcar e vencer.

Olhar para os números da posse sem olhar para o jogo é demasiado redutor para o avaliar porque este é demasiado complexo. Um passe certo poderá não ser um passe certo. Lillo pegou no Vissel Kobe de Iniesta, Sergi Samper e Podolski na longínqua J League do Japão, e monopolizou a bola. Sem rupturas, porém. Terminou a aventura umas semanas depois com a talentosa equipa próxima da despromoção.

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Apaixonado pelo jogo e pela análise. É o pormenor que me move na procura do conhecimento. Da análise ao jogo, passando pelo treino, o Futebol é a minha grande paixão.

2 Comentários

  1. Gosto bastante do Klopp enquanto treinador, da lufada de ar fresco que ele representa, tanto no futebol das equipas dele como na sua postura e comunicação.

    Não obstante gostar bastante do Klopp como treinador e pegando no título do post, pergunto:

    Alguém tem a coragem de afirmar que a falácia dos números também se pode aplicar de alguma forma ao resultado do jogo de ontem?

    Uma recuperação de 3-0 contra o Barça é qualquer coisa de histórico e fenomenal. Para mais, sem duas das estrelas do Liverpool e com uma substituição aparentemente forçada ao intervalo. É lindo ver desde a conferência de antevisão do Klopp, ao jogo, ao momento dos adeptos pós jogo e à conferência final do Klopp em que partilha o que terá dito aos jogadores ” eu acho impossível, mas, como são vocês, podemos ter uma chance”.

    Por outro lado, em vários momentos da primeira parte e mais uma ou outra vez na segunda parte, o Barcelona podia ter marcado um, dois ou até mais golos.
    Na primeira parte o Barcelona jogou bem e criou lances em que, em especial o Messi, podia ter marcado dois com toda a naturalidade e aí não me parece que o Liverpool conseguisse reagir.

    Objetivamente dois golos do Liverpool são fora do comum contra um adversário como o Barcelona. O terceiro, em que os centrais do Barça falham escandalosamente e o quarto que ilustra uma total desconcentração também do Barça que se perde após os dois golos seguidos que igualam a eliminatória, que aliás é o momento do jogo; logo após o segundo golo que surge de um ressalto após cruzamento, os centrais do Barça oferecem o terceiro.

    Em suma, na primeira parte o Barça podia ter resolvido a eliminatória mas falhou, na segunda parte o Liverpool aproveitou ao máximo o que o jogo lhe deu, acabando por ser um justo vencedor da eliminatória.

    Sobre o post, os números podem ser só números. Seja a posse de bola, seja os kms percorridos, etc.
    Muitas vezes até o resultado esconde outras coisas. Só que esse é o número que mais importa em cada jogo.

  2. Excelente texto. É também interessante ver que a literatura, no que à análise e observação de jogo diz respeito, vai ao encontro do que procuras transmitir.

    E a frase de Mourinho é deliciosa…e verdadeira. Os números interessam aos comuns adeptos, que procuram assim explicar o jogo, sem o entender…

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