O Caminho faz-se caminhando…

FUTEBOL - Luis Castro no Benfica B vs FC Porto B, realizado na Caixa Fuyebol Campus no Seixal. Sabado 19 de Dezembro de 2015. (ASF/Alexandre Pona)

Luís Castro, quando o discurso está em sintonia com o percurso

As palavras podem ser muita coisa… por vezes leva-as o vento dada a sua leviandade, outras vezes procuram esconder a verdade, mas também podem ser uma manifestação sincera das nossas intenções, ainda que não se manifeste essa intenção na acção no imediato.

O tempo, para Luís Castro, tem-se traduzido num grande crescimento como treinador e é um daqueles casos em que o discurso (intenção-ideia de jogo) está em completa sintonia com o percurso (acção-jogar das suas equipas).

Para nós é claro que aquilo que pretende se vê como intenção desde os primeiros jogos da sua equipa, mas há algo fundamental e que por muitos é confundido com incoerência das ideias. Muita gente se manifestou contra escolhas (“já se está a vender em função do resultado”), porque mais uma vez a pressa cega-nos e não se percebe que criar algo leva tempo, dar um sentido comum a 25 cabeças leva tempo. Já para não falar na perda da espontaneidade que origina a pressa de forçar o aparecer de um padrão, o jogar tem que ser inCORPOrado e não memorizado, tem que ser sentido e não padronizado (mecanicamente entenda-se). Leva tempo, ainda mais em contextos onde não se admite o erro e muito menos o errar sobre algumas ideias pré-concebidas, por se jogar em zonas onde se gera ansiedade em quem não tem controlo sobre a bola – claramente quem está fora pouco controla, ainda que o assobio e o “não jogues aí” sejam uma tentativa de controlar algo que se está a tentar criar em treino, quase como que um tentar destruir aquilo para o qual se anda a trabalhar e isto é algo com o qual se deve contar e por isso se deve preparar com treinos no limite onde o risco se sinta como tal e se trabalhe para alcançar a segurança em qualquer zona do campo. É precisamente para isso que cada exercício existe, para criar uma estabilidade naquilo que é o jogar que o treinador pretende que a equipa alcance.

Luís Castro, nunca abdicando das suas ideias, soube equilibrar a sua interferência na equipa. Ou seja, não procurou mudar tudo à pressa nem à pressão, mas ao mesmo tempo notou-se que desde o início do processo o caminho se fez no sentido do jogar que pretende para este (também) seu Vitória SC.

A escolha do 11 sempre respeitou aquilo que a equipa necessitava em função do que já tinha alcançado em termos de jogo (notou-se essa intenção clara). Ou seja o jogo vai-se construindo com jogadores e sendo pessoas são fruto de experiências e é na repetição que a cultura se vai instalando, alguns treinos criam alguma coisa, mas não são suficientes para criar nada tão complexo, portanto é preciso ir vendo como está o jogo e que estabilidade ele tem e que jogadores precisa para colmatar a falta de fluidez em determinados momentos e ir vendo se alguns jogadores funcionam bem com outros, tendo em conta o jogar actual (que efectivamente a equipa joga).

Pareceu-nos que as suas primeiras prioridades para controlo do jogo foram na tentativa de dar equilíbrio à sua equipa por forma a impedir o adversário de ser vertical no momento de perda. Indicadores claros de que o caminho se faz caminhando, mas como qualquer construção requer tempo e mesmo depois de se alcançar a dita estabilidade muito tem que se continuar a aprender para nos mantermos estáveis, algo que ao longo da época se percebeu que não é coisa fácil. Ganhar dá-te tempo e dá crença naquilo que se faz, é óbvio que o resultado como que dá ritmo ao processo, por isso mesmo é necessário que o jogar se construa a ganhar. A forma como entendemos isto, é que nunca o jogar pode ser comprometido pelo ganhar, nem o ganhar pode ser comprometido pelo jogar, porque um contribui para o alcançar do outro… vida de treinador é viver com a sua ideia de como ganhar, num jogo onde tem que convencer “25” jogadores das suas ideias. O treino é a melhor forma de se convencer o grupo, porque os prepara (consciente ou inconscientemente) para que se sintam capazes de ir cumprindo com aquilo que é a proposta de jogo do treinador.

Fica então um vídeo onde o discurso demonstra aquilo que foram as intenções do Mister Luís Castro e da sua equipa técnica ao longo da época 2018/2019. Ficamos a perceber um pouco daquilo que foi o caminho, com altos e baixo, mas em crescendo, até ao jogo contra o Moreirense que permitiu subir ao 5º lugar. Fica bem patente que para alguns treinadores/jogadores o resultado faz mais sentido quando alicerçado num jogo que une toda a gente em torno de um jogo de qualidade



João Baptista
Sobre João Baptista 19 artigos
A paixão por Futebol conduziu-o até à FCDEF (Universidade do Porto), onde o Professor Vítor Frade viria a ser uma grande influência na busca constante da essência do jogo e do treino. Com passagens por FC Porto B, FC Porto (Dragon Force), Valadares Gaia FC (feminino), AD Sanjoanense e EF Hernâni Gonçalves, desde 2016 que se encontra na China, de momento num projecto de formação ao serviço do Zhichun FC. A página/o blog "Bola na Árvore" são reflexões de quem vai à procura da essência do jogo, da formação, do treino e da vida que se manifesta no futebol... na busca incessante vai-se aprendendo.

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