Mourinhismo

A minha história com José Mourinho começa em 2001. Numa altura em que deixava o comando técnico do Benfica para assinar pelo Leiria, trazia o perfume refrescante que Portugal precisava para que uma revolução qualitativa fosse operada no futebol. Por tudo o que dizia, por tudo o que fazia, Mourinho sempre foi um treinador diferente para melhor. Em Portugal, o seu Leiria passeava qualidade de jogo ainda que não fosse a equipa com melhores individualidades. Mourinho treinava de forma diferente, era rigoroso como nenhum outro que o antecedeu, era diferente na forma de abordar o treino – desde o aquecimento até ao retorno à calma -, treinava um pequeno que jogava como um grande. Aqui começa a minha paixão por Mourinho, o verdadeiro. Aquele que começa a mostrar que é possível fazer diferente e ganhar. Que há um caminho que garante uma percentagem de vitórias esmagadora em relação à derrotas e empates. O caminho é o da organização de jogo, o da criação de competências em todos os momentos do jogo, tudo suportado por duas bases fundamentais: o golo, e a posse de bola.

Mourinho foi o treinador que me ensinou que o conceito de equipa era superior às relações que os jogadores tinham fora do campo, era superior ao esforço físico que todos faziam para conseguir compensar o colega, era superior ao esforço físico que se fazia para recuperar a bola. Ele mostrou-me que mais equipa era aquela em que os jogadores em cada momento pensavam e agiam de forma semelhante, ligados por uma forma colectiva de resolver os problemas do jogo. Veio o Porto e concretizou para o mundo, de forma estrondosa, o que vinha prometendo desde que se tornou treinador principal. O futebol era bem superior relativamente ao que se praticava pela Europa. Percebia-se, ainda que não tivesse as melhores individualidades, que era o melhor futebol do mundo. O Porto era superior colectivamente em todos os momentos do jogo. O Porto, a jogar com menos um jogador em campo continuava a ser mandão, continuava a ter a bola, continuava a dominar os adversário não se adaptando nunca ao que este pudesse dar. Obrigava por isso que fossem os outros a pensar como parar o Porto. Subjugava as maiores e mais poderosas equipas da Europa com um futebol de linhas de passe constantes, de combinações ofensivas de grande qualidade, de superioridade no corredor central em posse, de uma reacção agressiva à perda, de zonas de pressão que não davam espaço aos adversários, que sufocavam e deliravam dizendo que parecia sempre que Mourinho jogava com mais um. E jogava de facto por ter uma equipa preparada para jogar o jogo como ele devia ser jogado – com qualidade colectiva em todos os momentos do jogo.

Em Inglaterra tornou-se especial para o mundo que ainda não o conhecia, já o era para mim. Era-o porque foi sempre diferente. Fiel ao caminho que traçou de domínio do adversário, do qual não abdicou nunca por perceber que também essa era a melhor forma de defender, de descansar, de gerir o jogo, de jogar com as expectativas do adversário, fosse em que estádio fosse. Foi tão arrebatador como eu já esperava que fosse porque era o melhor de muito longe. Tinha a melhor proposta de futebol ofensivo, gostava de jogadores inteligentes acima de qualquer outro aspecto, defendia como poucos utilizando referências zonais. O que conseguiu ganhar foi sempre de forma distinta, teve sempre qualidade. Ganhou como poucos ganham, com um estilo de jogo apaixonante, que mostrava o caminho para o evoluir do jogo. Ganhou mais do que títulos, ganhou mais do que jogos, ganhou a eternidade. O Leiria de Mourinho; o Porto de Mourinho; o Chelsea de Mourinho, o verdadeiro; serão sempre lembrados como grandes marcos da história do jogo. Serão lembrados pelos motivos certos, pelo futebol que praticavam. Eram tempos em que Mourinho mostrava que não era preciso defender com muitos para defender bem, que era preciso jogar no meio campo do adversário mais tempo do que no próprio meio campo, que era preciso encontrar com inteligência os melhores caminhos para o golo.

Seguiu-se Itália. País onde se dizia que iria ser enxovalhado pelo saber táctico que os transalpinos diziam ter. Saber esse que estava mais que ultrapassado, que assentava na ideia de terem tido um grande treinador a revolucionar a forma de pensar o jogo, e terem vivido anos na sombra do sucesso que um treinador teve com um jogo de qualidade. Saber esse que na altura não era assim tanto comparado com o que Mourinho já tinha mostrado ao mundo. Saber esse que não tinha tanta relevância tendo em conta o atraso para o melhor ao nível do treino. Aqui, em Itália, Mourinho começou a mostrar a diferença. Começou a mostrar que a inteligência de jogo, que a superioridade no corredor central, que o futebol ofensivo continuava a ser o melhor caminho. Quando chegou ao Inter teve duas afirmações que romperam à toda linha com aquilo que a maioria dos italianos parecia pensar, dizendo que o jogador à frente da linha defensiva não tinha de ter características defensivas. Disse que esse jogador tinha de ser um jogador com boa capacidade para jogar com bola, com boa visão, para ser o homem que inicia a construção nessa zona. Disse que era a posição de Cambiasso, mas também de Stankovic caso fosse necessário. Disse também, nessa altura, que lhe agradava um jogador de futebol e não alguém que andasse a destruir o jogo do adversário. De seguida, perguntavam-lhe sobre Ibrahimovic, que não marcava golos. E com a clareza habitual, ele responde que para um avançado da sua equipa, por ele querer jogar um futebol de controlo e de posse, seria sempre mais importante ser um super-jogador do ponto de vista técnico do que um jogador que marque golos. Isto porque, dizia ele, se uma equipa estivesse dependente dos golos de um jogador no caso do jogador não estar bem, ou não estar, a equipa iria passar dificuldades. Aqui, quando chegou, Mourinho ainda jogava com os factores mais importantes, os factores que ele controlava. Aqui, ele percebia perfeitamente que não podia controlar os jogadores, mas que podia controlar alguns comportamentos que lhe permitiam ficar menos exposto ao maior imponderável do jogo: o jogador.

Pensava-se que Mourinho iria continuar a somar pontos e a mudar paradigmas por onde quer que fosse. Mas a eliminação nos oitavos de final da Liga dos Campeões, frente ao Manchester, mudou-o. Mudou os seus objectivos e ganhou. E como ganhou muito, passou a acreditar que aquela forma de trabalhar era o que lhe poderia  garantir no futuro maior regularidade ao nível dos troféus em todas as provas. Diga-se que era difícil de gerir o sucesso estrondoso que teve nesse ano, mas reflectindo um pouco sobre ele e sobre os anos que seguiram não era necessário ser brilhante para perceber que não passou de uma especificidade do futebol, que teima em premiar ocasionalmente equipas que pouco têm para oferecer ao jogo. Hoje, Mourinho vive sobre a aura do sucesso de 2010. E tudo o que faz, a metodologia de treino, o modelo de jogo, as escolhas dos jogadores, os onzes iniciais, são atrocidades que reflectem um passado que ele ignora, com sustentação no sucesso de uma e uma só época desportiva. A partir daqui, Mourinho passou a ser o treinador que preparava a equipa para competições a eliminar, para momentos específicos da época. Treinava todo um ano para um único momento, para um jogo, para parar uma determinada equipa. Passou a jogar com os imponderáveis, a defender como podia, a atacar sem risco, e a esperar pela inspiração dos seus avançados ou pela sorte para marcar. Passou a ser um treinador como o outros, a tentar parar adversário à pancada e sem futebol. E por isso, como os outros, passou a ganhar menos títulos ao final de cada época. Passou a ganhar como muitos ganham, por um acaso, por individualidades fortes, por obra divina. Por ter deixado de preparar a sua equipa para a maior parte dos jogos, por treinar constantemente para provas onde a sorte é um factor muito importante, por achar que cada jogo é uma batalha onde a sua equipa tem de encaixar no adversário, por ter começado a jogar mais perto da sua baliza do que da baliza do adversário, por não permitir a jogadores de grande qualidade – desde o Real Madrid ao novo Chelsea – que possam expressar a sua mais valia individual, por fazer com que os seus jogadores pareçam piores do que realmente são, Mourinho regrediu e é hoje igual a muitos. Ganha como muitos, perde como muitos. Quando ganha não é marcante, não é eterno. Não é, hoje, mais treinador que Di Matteo, Rehhagel, ou Benitez. Porque o que ele faz, qualquer um consegue. O que fazia, só estava ao alcance dos melhores. É verdade que nesse ano venceu o Triplete, coisa que muito poucos poderão repetir. Mas as exigências do jogo ditam que, uma equipa que é trabalhada com tais ideias nunca mais poderá ser regular em títulos e em finais como o foi naquele momento especifico.

Para Mourinho, hoje, o importante é marcar golos e parar o adversário. Esqueceu-se da bola. Onde preferia jogadores capazes de construir agora prefere defesas centrais, para que, nas palavras dele, seja um jogo de 10 contra 10 por anular um adversário. Anular um adversário! Hoje, mais do que nunca, Mourinho pensa que o futebol é um jogo de duelos individuais onde quem vencer mais duelos ganha o jogo. Hoje, Mourinho acredita mais do que nunca nos factores externos, naqueles que ele não controla, para ganhar o jogo. Hoje, Mourinho acredita que ganha a maioria dos jogos com estratégia, com palestras inspiradoras, com garra, com esforço físico sobre-humano. Hoje, Mourinho acredita que a melhor equipa é aquela onde os jogadores correm mais do que o adversário.  Hoje, mais do que nunca, Mourinho está atrasado no tempo por depender essencialmente da inspiração individual dos seus jogadores e da sorte para ganhar. Hoje, seja contra quem for, baixa as linhas e defende em cima da área, e entrega completamente a iniciativa ao adversário mesmo contra dez. Em vantagem, mesmo que jogue contra o último, defende nos últimos trinta metros. O quanto mudou Mourinho! E por essa mudança, nos últimos cinco anos, Mourinho jogou 12 provas a eliminar e chegou a três finais! Trabalhou, preparou, montou a equipa para estes momentos – os de decisão – por achar que os controla melhor assim, e o falhanço é absolutamente demonstrativo de como nunca esteve tão longe do sucesso, e tão igual aos iguais. O Mourinhismo é hoje nada mais que uma religião sustentada pela fé absoluta no divino para conseguir o resultado.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2348 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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