Cada posição no campo exige funções diferentes.

A afirmação do título é obviamente totalmente errada, e encerra em si uma visão sobre o jogo que foi caindo algures na década de 90, ainda que muitas equipas teimem infelizmente em manter tal visão.

A propósito disto, o longo mas bastante interessante texto do Entre Dez.

E o recordar de um texto com mais de quatro anos, aqui.

“É comum afirmar-se que uma equipa deve ser construída através de diferentes características de jogador para jogador.

Ainda hoje, há quem pense que uma equipa deve ser formada por dois ou três “carregadores de piano”, dois ou três artistas e um avançado alto e forte. Crê-se que o trinco deve correr kms e que à sua frente deve jogar alguém capaz de transportar a bola pelo campo fora. Que o extremo tem de ser um driblador.

Nada mais falso. Para se formar uma boa equipa, bastam 10 inteligentes jogadores



Na actualidade, o jogo de futebol, não mais, é um conjunto de 10 duelos de 1×1. As (boas) equipas movimentam-se forma harmoniosa e equilibrada por todo o campo de jogo. Em todos os momentos, há algo a cumprir, não só pelo portador da bola, e pelos jogadores que o rodeiam, mas também por todos os outros.

Em todas as ocasiões, há um posicionamento colectivo a ser cumprido, pelo que um extremo pode ter tanta relevância no processo defensivo quanto um defesa central.

Quando observar um jogador, a correr demasiado, tentando ser ele, a pressionar, em todos os momentos, o portador da bola. Quando perceber que determinada equipa sai para o ataque através da condução de bola de determinado jogador. Ou quando, perceber que determinado extremo recorre incessantemente ao drible, desconfie. Provavelmente não são os jogadores que são bons. É a equipa que é má. Tais situações, só são passíveis de acontecer, em equipas cujo colectivo seja débil.

Esqueça a disparatada ideia, de que um Pirlo necessita de um Gattuso. Numa verdadeira equipa, todos experimentam as diferentes funções. Isso é, claramente, algo que as melhores equipas europeias da actualidade nos podem ensinar.

PS – Alan e César Peixoto, dois “puros” extremos, cumpriram, na época 2008/2009, aquela que foi, provavelmente, a melhor época das suas vidas. Ambos jogaram, pela primeira vez, nas suas já longas carreiras, como centro-campistas. Relembre. Basta técnica, inteligência, e um treinador que indique o caminho.”

Não há funções diferentes para posições diferentes. Nada disso faz sequer sentido no futebol. Todos têm princípios para cumprir, sejam os gerais (inferioridade, igualdade, superioridade numérica), sejam os específicos (contenção, coberturas, equilíbrios e concentração / progressão, coberturas, mobilidade e espaço). O jogo é um conjunto muito variado de situações (X contra Y em determinado espaço. Por exemplo. 7×10 na construção com bola no circulo central na posse do “trinco”) e é melhor jogador e melhor equipa quem melhor conhece e percebe as melhores respostas para cada situação diferente. Por exemplo, David Silva seria sempre melhor trinco que noventa porcento dos jogadores do futebol mundial que fazem de facto a posição. O espanhol nunca tendo jogado em tal posição, sabe como ninguém as respostas que deve oferecer a cada situação nova, seja com mais ou menos oposição, para além de que tecnicamente é mais do que capaz de colocar nos pés o que a mente idealiza. Ao contrário do que muitos ainda pensam, apesar da cruzada já ir longa, não são precisas características especiais diferentes de posição para posição. Mais do que a posição, importa a análise de cada situação de jogo. Não é por não ser robusto fisicamente que Silva deixaria de ser uma óptima solução para trinco. Ofensivamente jogar num espaço menos habitado até lhe tornaria o jogo mais fácil. Defensivamente a análise que tem de fazer das situações que encontra não difere da que já faz. Não é como se quem ocupa a posição de “10” possa abdicar de sair para a contenção ou voltar para equilibrar quando é ultrapassado e fica à frente da linha da bola.  

Espaços diferentes podem proporcionar sucessos diferentes, pois é mais fácil ser comandado que comandar, quando se fala na última linha, ou jogar com bola onde há mais espaço do que menos.  Todavia, não se pode pensar que as posições exigem características diferentes umas das outras. Todas exigem muito qualidade na decisão e na capacidade técnica para que se seja capaz de dar seguimento à boa decisão. 

Quando na última caixa de comentários surgiu a interrogação. Critério para X ser melhor que Y? A resposta foi, a que será sempre. O critério é a melhor resposta para cada situação que se enfrenta. Quando ambas as respostas são igualmente boas, diferencia os jogadores a velocidade a que as dão. E velocidade aqui não tem nada a ver com característica física, ainda que também possa ter, quando depois o corpo executa o que a mente antecipou, mas mais relacionado com o que em tempos Quique Flores referiu sobre Aimar “Muitos decidem bem, muitos decidem rápido. Aimar é dos poucos no futebol mundial que decide bem e rápido”.

Melhores respostas associada à qualidade técnica, mas sobretudo à de decisão. Também em 2009 abordada aqui

“Num momento em que o jogo é do ponto de vista técnico e físico, cada vez mais equilibrado (longe vão os tempos em que só os grandes clubes treinavam), as tomadas de decisão surgem como um dos traços mais decisivos no jogo moderno.

Por tomadas de decisão, deve entender-se, as opções que cada jogador toma a cada momento (com ou sem bola). Para onde deslocar? A que velocidade o fazer? Que espaço ocupar? Para onde desmarcar? Quando soltar a bola? e para onde? Quando progredir com a bola?

Cada situação de jogo tem uma forma mais eficiente de ser resolvida. Tal não significa que optando pelo pior caminho, se estará sempre condenado ao insucesso. Tão pouco que, optando bem, se será sempre bem sucedido. Significa somente que, optando bem, está-se sempre mais próximo de ser bem sucedido.

Exemplo simples. Numa situação de 2×1, o portador da bola deve progredir com a bola no pé, no sentido da baliza, soltando a bola, no timing correcto (bem próximo do defesa), para que a bola saia para as costas do defesa. O passe deve ser efectuado para o espaço (e não para o pé do colega, por forma a que este não trave a corrida). Ou seja, de uma situação de 2×1, pretende-se passar para uma de 1×0.

Se em dez situações de 2×1, o portador da bola (no momento inicial, antes do passe), for capaz de as resolver dessa forma, provavelmente a sua equipa fará 8,9 golos, ainda que nenhum marcado por si (uma vez que acabará por fazer o passe para o colega de equipa).

Se na mesma situação, o portador da bola optar por driblar o defesa, e mesmo partindo do princípio que os seus traços individuais são bastante bons, provavelmente, em dez lances, marca 4,5 golos.

Os jogos em que, optando mal, se chega ao golo, são óptimos. Porém, em termos globais, a equipa sai prejudicada. Os 5 golos marcados dão notoriedade aos olhos do comum adepto. Mas, não são o que de melhor poderia ter dado à equipa.

Quem toma as melhores decisões a cada momento, tem a sua equipa, sempre mais próxima do objectivo (marcar, não sofrer, ganhar). Mesmo que não obtenha tanta notoriedade.

A situação descrita é uma situação de finalização, por ser de mais fácil compreensão. Porém, é importante perceber-se que as decisões se aplicam em todas as situações do jogo. Por mais banais que lhe pareçam. É que, para se chegar a uma situação de finalização, há todo um trabalho prévio, tão importante quanto o último momento (que nunca surge, quando a fase que antecede a finalização não é eficiente).”
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3333 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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