Benfica fora da Europa

Depois da derrota do Benfica na Rússia e vitória do Mónaco, fica a eliminação de uma das boas equipas da Europa das provas europeias. Num grupo forte e equilibrado, onde qualquer equipa poderia passar, e qualquer uma poderia ficar de fora, calhou a fava aos portugueses. Estimei, na altura em que saiu o sorteio, que nenhuma equipa iria acabar com menos de sete pontos. Caso o Benfica ganhe ao Leverkusen, confirmar-se-à essa estimativa que representa o equilíbrio entre as equipas do grupo, umas pela qualidade individual, outras pela qualidade colectiva e dedo do treinador. Diga-se também que, em conversa com o Maldini offline na altura do sorteio enviei-lhe um sms a dizer: “o Leverkusen joga muito. Pressão, e com bola muito bons. Qualidade técnica e física soberba”, e resposta dele foi: “O Benfica este ano nem à Liga Europa vai”. Um Zenit fora do alcance de qualquer uma das equipas do grupo, ao nível da qualidade individual. Um Leverkusen que junta qualidade individual e colectiva. E um Mónaco ao nível do Benfica, mas que pelo modelo de jogo conservador de Jardim, parece bem encaminhado para seguir em frente na prova. Modelo esse que serve muito bem para jogos a eliminar, provas curtas, mas que não deixa ganhar com regularidade na liga. Porque o modelo da liga é o mesmo que o da Champions.
O Benfica não tem nível para esta prova. É equipa de Liga Europa, assim como o é o Sporting. Não teve foi a sorte de ter no grupo duas equipas do mesmo nível (Bate, Bilbao, Maribor, Schalke). Mas os adeptos nunca vão achar normal ir-se para provas onde o adversário é superior fazer o papel que o Benfica faz outras equipas passar no campeonato.

Sobre o jogo, só vi a primeira parte. E o Maldini só viu a segunda. Mas do que vi, do resumo da segunda parte e tendo eu visto a primeira: quantas ocasiões de golo teve o Zenit? Quantas ocasiões de golo teve o Benfica? Tendo em conta a qualidade individual do outro lado, onde só entravam Enzo, e talvez J.César e Gaitan, o Benfica fez ou não mais do que a obrigação, que era tentar competir com uma equipa bastante superior? Do que eu vi, teve, pelo menos, as melhores ocasiões para marcar e em mais quantidade.

A questão que ficou – Numa altura em que dominava o jogo, Jesus abdicou de um elemento do meio campo e colocou um avançado – mas se o domínio do jogo se deveu a essa presença de mais um jogador no meio campo, por que é que esse mesmo domínio não existiu na primeira parte?! E quem é que disse que Talisca não estava a jogar com o mesmo posicionamento que Lima adoptou, depois da entrada de Derley?! E de onde é que veio a ideia de que o golo surge por falta de homens no meio, ou falta de mais uma unidade defensiva no controlo do meio campo do Zenit?

Para desmontar o golo, chamei André Almeida para explicar o que aconteceu nesse lance:

PS: E um pequeno bombom para os adeptos do Benfica, que muito adoram a história, e estatística.

– Antes da chegada de Jesus. 15 anos e 5 entradas na fase de grupos da Champions.

– Depois da chegada do mau treinador ao nível da Europa, 5 anos e 5 entradas na fase de grupos da Champions.

– Antes de Jesus, 15 anos e 1 campeonato. 10 classificações abaixo do segundo lugar. E se quisermos igualar o registo de Jesus, vamos ao décimo sexto campeonato. Mas seguindo até ao décimo oitavo os números continuam iguais, ao décimo nono é superado.

– Depois de Jesus 5 anos 2 campeonatos. Sendo que Nunca ficou abaixo do segundo lugar.

Fala-se do Benfica como um clube de grande tradição europeia, mas não o é. Com a televisão a cores pelo menos não. Fala-se de um clube grande em Portugal, mas as classificações, até então, eram de um clube de segunda linha mesmo no nosso pequeno país. Eu não me lembro de um Benfica grande, sem ser com a televisão a preto e branco. Jesus compete onde deve competir, nas competições internas. Outros preferem quem compete na Europa, por preparar um modelo para essa prova, e depois no ano seguinte têm sérias dificuldades em entrar na prova para o qual tanto se prepararam. Espero com ansiedade o momento da saída de Jesus da Luz, por saber que será muito difícil para o próximo que vier. A história e a competência de Jesus assim o dizem.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3256 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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