Obsessão pelo controlo

Ontem no Facebook relançada a discussão sobre a padronização inspirada num post antigo do Posse de Bola, aqui. O que penso sobre a padronização está bem descrito no post, mas gostaria de acrescentar algumas linhas.
Na minha opinião, a padronização surge pela necessidade dos treinadores (classe à qual pertenço) em ter o máximo controlo possível sobre os acontecimentos do jogo. Os treinadores são tão obcecados por controlar tudo que tentam inclusivamente retirar ao jogo à sua essência – o caos. O futebol é um jogo caótico. Caótico no sentido de ser impossível controlar os seus acontecimentos, por nunca se saber que reacção ocorre de cada acção que decorre. E por isso, todas as situações de jogo são diferentes. Entender isto, perceber isto, causa no treinador um sentimento de impotência enorme. O treinador julga-se sempre maior e mais importante do que aquilo que verdadeiramente é. E quando lhe surge alguma teoria que tem como conclusão que ele depende muito mais dos jogadores do que os jogadores dele, que os jogadores são os únicos a ter controlo do que ele não controla, sentem-se insignificantes, ofendidos, e recusam essa possibilidade por se acharem capazes de tudo. Mas não o são. Na verdade, treinadores, somos capazes de muito pouco por não sermos nós a jogar. A obsessão pelo controlo leva a que se tente fazer tudo para retirar a imprevisibilidade ao jogo. E leva a que se esqueça que, por mais previsíveis que se possam pintar, os quadros serão sempre diferentes. Esse esquecimento tem como consequência a entrada sem dificuldade no facilitismo do padrão, bem como a exoneração da dificuldade que é ensinar quem controla a perceber como pode ter sucesso em condições caóticas.

Utilizando uma frase do Bergkamp, simplificar é radicalmente diferente de descontextualizar. E padronizar é descontextualização absoluta, por se retirar o factor que mais influencia as relações que se criam no jogo – a aleatoriedade.

PS: Na foto José Mourinho, talvez por ser hoje no alto rendimento o treinador mais obcecado pelo controlo do jogo.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3047 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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