Tomada de decisão. Ganhar / perder pontos.

Mesmo que pouco visível e tantas vezes pouco perceptível qual a melhor decisão a cada instante, a tomada de decisão é o factor diferenciador no jogo moderno. Ser rápido, forte e / ou ter qualidade técnica aprazível, de nada servirá quando o mais importante não se verifica. O perceber o melhor caminho para se chegar ao objectivo colectivo. O golo.

Em situações de vantagem numérica, é sempre decisiva a progressão na direcção da meta (baliza adversária), o atrair em si a atenção dos defensores e só depois decidir (soltar…). Tantas vezes é o soltar cedo, ou soltar para o lado errado, o que impede a sua própria equipa de chegar ao golo.

Tantas vezes jogadores menos rápidos, menos fortes e até menos aptos tecnicamente, são bastante melhores que outros com traços individuais mais acentuados e mais perceptíveis ao grande olho do público. Tudo porque há quem solte sempre a bola com ideias, quem idealize toda a jogada na sua mente e não apenas o seu toque na bola. Porque há quem veja tudo e há quem faça por fazer.

Em Arouca, a pouco mais de dez minutos do fim, o Braga desperdiça sem finalização sequer, um lance de incrível superioridade. Uma má decisão (não atrair e colocar bola no corredor lateral) a reduzir drasticamente as probabilidades de terminar em golo um lance cuja eficácia deverá sempre ser muito grande.

4x2

 

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3042 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

9 Comentários

  1. Há algo muito importante que deve ser tido em conta . A tomada de decisão, só é qualificada como boa ou má mediante o resultado que tem. O que quero dizer com isto é que se um maluco se enfia no meio de três defesas, apesar de ter colegas em apoio, sai de lá e marca golo depois de ter rebentado com os três, quem somos nós para avaliarmos tal situação como má decisão. Grande blog! Continuem!

    • Nao posso concordar Tiago,

      Caso contrario… vale tudo desde que seja golo. Tomar boas decisoes tem a ver com aumentar as probabilidades de chegar ao golo, mesmo que nem sempre se marque. Tomar boas decisoes aumenta as probabilidades de o fazer.

      Milhares de vezes demos este exemplo. Se no 2v1 mais GR o portador da bola fixar e passar para as costas do defesa, vai deixar o colega em 1×0, aumentando a probabilidade de golo.

      Se o portador da bola fintar, ate pode conseguir marcar golo, mas tera sempre menos possibilidades do que da maneira que explicamos antes.

      o resultado nao tem nada a ver com uma boa decisao.

      Isto de uma forma simplificada, porque a competencia dos intrevenientes mexe com o ser uma boa ou ma decisao, tal como o reconhecimento dessa competencia tambem mexe.

      Se formos ao micro entao.. os apoios do defesa tambem influenciam a avaliacao de ser uma boa ou ma decisao, bem como o posicionamento do GR.

  2. Aquilo que eu fico a pensar, sempre que vejo contra-ataques mal resolvidos (e na nossa Liga isto acontece dezenas, centenas de vezes), é como é que se passa uma semana inteira sem trabalhar este tipo de situações?

  3. Parece-me que não têm existido uma abordagem cientifica ao processo de tomada de decisão em contexto desportivo. Treina-se e explica-se, mas o processo de interiorização está pouco estudado. Aqui, o Psicólogo Desportivo têm que entrar e desenvolver com o treinador situações que melhorem a tomada de decisão.
    A meu ver, primeiramente o que se deve fazer é analisar as competências envolvidas:
    -Controlo de Bola sem necessidade de observação continua
    -Avaliação espacial, leitura do espaço, distâncias e ângulos.
    -Avaliação e desenvolvimento da percepção dos movimentos dos jogadores (geralmente é o que se treina).

    Depois é estruturar exercícios que desenvolvam estas competências de forma integrada.
    Continua-se a ver o Psicólogo Desportivo como um apoio terciário e não como um participante.
    Futebol sem estruturação mental, dificilmente será de alta competição.

  4. Juntando os comentarios do Luis e do Avancado,

    Tem, na nossa opiniao (e aqui acho que posso falar por todos os “escribas” aqui do sitio), a ver com com o treino.

    Todas as situacoes sao diferentes, mas teem semelhancas entre si. Na psicologia ecologica chamam-lhe “affordances”. Traduzindo por miudos, sao detalhes que fazem identificar estimulos e isso faz com que seja possivel ligar situacoes novas, a coisas que conhecemos.

    Essas affordances so conseguem ser treinadas, se o treino for o mais semelhante possivel aquilo que vivemos no jogo.

    Imagina que (e nao sabemos o que o Braga faz nos treinos, mas por vermos isto vezes sem conta, assumimos que sera assim) treinam estas situacoes sem oposicao. Ou com varas ou bonecos a fazer de opositores.

    Todas as situacoes vao ser iguais no treino, as distancias entre os defesas nao se alteram, as decisoes deles tambem nao. Mesmo que os colegas corram a velocidades diferentes e adoptem diferentes angulos.. as coisas mudam muito pouco, e no treino.. em cada 10 jogadas, fazem 9 golos… porque ainda assim, o pino conseguiu cortar umas bolas sem sequer se mexer.

    Estao a treinar.. coisas mecanicas, sem relacao com o jogo.

    Ao treinar isto, com 4v2 com 1 defesa a perseguir, mais o guarda redes.. e com a equipa que defende a ter de meter a bola em certos espacos se ganhar a posse, vai fazer com que tudo o que se passa nesse momento seja mais proximo da realidade. Os posicionamentos dos defesas vao ser semelhantes, mas ainda assim sempre diferentes, dando possibilidades de accao diferentes tambem. Umas vezes o melhor vai ser fixar e dar a direita, outras vezes a esquerda, outras vezes fingir que passa e assumir a jogada porque os defesas em vez de se preocuparem com a bola foram pressionar os adversarios a contar com um passe que … nao precisa de existir.

    Sem se treinar, tendo em conta tudo isto… a ligacao entre o que se faz no treino e o que acontece no jogo… sera sempre muito fragil.

    Por isso Avancado, acho que tens muita razao no que dizes, mas em 2016, na primeira liga, nao deveria ser preciso estar a espera do psicologo desportivo para perceber isto. Basta pensar 10 segundos sobre o que se esta a fazer, para perceber que os cones nao chegam para aproximar o treino da realidade. Nem nos benjamins, quanto mais em seniores.

    O que nao quer dizer que nao se deva treinar sem oposicao. Eu posso fazer bacalhau assado no forno a meter o bacalhau no pirex e siga la para dentro, ou… posso fazer uma cama de cebola, regar com azeite, meter umas ervas e tal. Mil maneiras de se fazer as coisas, umas dao mais trabalho do que outras.. mas depois o almoco sai bem diferente.

    • Mas aqui ocorre-me uma outra reflexão. Ok, eles treinam situações semelhantes, sem oposição e, dessa forma, os ganhos não são os mesmos.

      Agora, não será preocupante que jogadores atinjam o nível profissional sem saber fazer isto? Ou seja, eu posso aceitar que uma situação mal treinada, ou pouco treinada, não tenha transferência para o momento do jogo. Mas não sei se aceito que um jogador, em todo o seu processo de formação, não tenha estado exposto a isto uma série de vezes, não tenha visto a situação ser analisada após o jogo, não tenha apreendido como se resolve um contra-ataque (de uma forma rudimentar, básica…), numa “quantidade” suficiente para, quando se depara com ela num jogo, tomar uma decisão melhor.

      É polémico, isto?

      • Luis,

        A resposta “facil” a isso eh que se nao vives uma situacao regularmente… desaprendes. Ou “desafinas”, isto eh, deixas de estar ligado as affordances que falava no outro comentario.

        A Psicofisiologia, fala (desculpem la quem percebe realmente disto, e estejam a vontade para corrigir), de forma muito simplificada, que se criares uma sinapse e lhe deres muito reforco, e reforco positivo.. ela vai ficar teoricamente para sempre. Se nao lhe ligares muito.. se nao a utilizares com frequencia, ela vai enfraquecer e desaparecer para dar espaco a outras.

        Teoricamente, um jogador que chega a profissional, so conseguiu la chegar porque tem as capacidades para isso, que se transformam em competencias pela maneira como vivencia as experiencias proporionadas. Tanto pelo jogo, como pelo treino.

        Mas, e mesmo que tenha tido bom treino e bom jogo durante a sua formacao, se nao replicar em treino e em jogo os mesmos estimulos… muita coisa vai ficar para tras.

        Eh impossivel revisitar o que estes jogadores fizeram na formacao, tal como eh quase impossivel saber o que treinam e o que lhes pedem.

        Mas, conhecendo o fenomeno como conhecemos… nao seria surpresa se muita coisa tivesse ficado para segundo plano, que agora eh decisiva.

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