Porque não vencem sempre os melhores, e a escola de treinadores de Braga

Ao contrário de tantas outras modalidades em que em noventa e nove por cento das vezes os melhores vencem, no caso concreto do futebol, a aleatoriedade do resultado está mais presente.

Porque é um jogo em que poucas vezes funciona o marcador, é possível ser-se bem sucedido, ainda que pontualmente, sem se ser dotado de qualquer talento especial. Num jogo de Andebol ou Basquetebol, se não tens qualidade para atacar, perderás sempre. Porque há muitos golos / pontos, e não basta ser apenas competente sem bola. No futebol, é possível construir um resultado positivo praticamente ignorando o lado ofensivo do jogo. Mesmo que tal aconteça amiúde, pode e já vimos acontecer.

No futebol, o jogo é sempre bastante mais difícil para os melhores do que para os seus adversários. Quando refiro o jogo, não me refiro ao “conseguir o resultado”, mas ao conjunto de situações que se enfrentam ao longo de uma partida, e que carecem de resolução para então se conseguir o resultado. Ou seja, um clube ou uma equipa melhor, acaba forçosamente a assumir as despesas do ataque, enfrentando sucessivamente situações contra mais opositores e em menor espaço. Já a equipa menos capaz, tem regra geral um jogo mais fácil para resolver. Mais espaço, menos oposição. Campo aberto! Naturalmente que os melhores, porque são bastante melhores, acabam por vencer muito mais vezes, mesmo tendo um jogo mais difícil. Mas é precisamente por ser o jogo composto por situações de maior complexidade de resolução para os melhores, que no futebol tantas vezes os menos aptos triunfam nos seus jogos.

Na realidade portuguesa, e pensando na importância do cumprimento de objectivos, para um treinador, talvez seja o Sporting de Braga a equipa mais confortável para se trabalhar. A qualidade individual da equipa está uns bons furos acima da concorrência, e com maior ou menor competência, muito dificilmente não se chega ao quarto lugar. Em suma, cumprir o objectivo final não parece um problema.

Porém, é quem treina o Braga quem enfrenta as maiores dificuldades, e a quem é requerido maior competência e pensamento estratégico, naquilo que é a criação de um modelo de jogo, e abordagem a cada partida. Pensando unicamente no jogo, treinar a equipa bracarense é hoje um autêntico catalizador de aprendizagens, que bem aproveitadas elevarão treinadores para níveis diferentes.

Hoje, a equipa bracarense enfrentas as mesmíssimas dificuldades no jogo que qualquer um dos três grandes enfrenta. Em Portugal, as equipas preparam-se e jogam contra o Braga com a mesma estratégia com que o fazem contra as outras três equipas de orçamentos estratosféricos. E se tantas vezes trazem dificuldades para os jogos contra Sporting, Porto e Benfica, imagine o quão mais difícil será para a realidade do Braga enfrentar o mesmo tipo de jogo e de problemas.

Por isso, para um treinador ambicioso, que não se limite a pretender ficar em quarto, mas que queira percorrer um caminho que o mantenha aproximado dos três da frente, como é o caso da presente temporada, treinar o Braga traz problemas de muito maior dificuldade na sua resolução que treinar Porto, Benfica ou Sporting.

A qualidade individual é superior aos demais, sim, mas não tão superior que não seja necessária uma forte componente de estratégia e um modelo de jogo extremamente bem pensado para cada situação, pelo facto de se enfrentarem jogos com problemas de mais difícil resolução.

Enquanto observamos no FC Porto e Benfica, sobretudo, comportamentos que até se podem adequar aquela realidade (qualidade individual), e conseguem resultados naquela realidade, a certeza de que para um Braga ter resultados aproximados, exige muito mais do que é colectivo, do que o que é exigido a Benfica, Porto e Sporting, que têm argumentos individuais tão diferentes que lhes permite não ter de exacerbar ideias colectivas. Treinar o Braga é pois, hoje, uma autêntica lição. Querer fazer mais, num tipo de jogo idêntico ao que enfrentam os grandes, mas tendo menos.

Tal como Paulo Fonseca, Abel está a percorrer o caminho que desde cedo lhe augurámos. Numa era em que fica tantas vezes a sensação de que parecer é melhor que ser, Abel não diz aquelas coisas muito bonitas que fazem a crítica valorizar o treinador, mesmo que sejam incapazes de perceber se há de facto matéria para o valorizar, mas não só está a ter impacto muito grande junto dos seus – nos resultados, no modelo e na liderança! … como cresce de dia para dia com as dificuldades, mencionadas acima, que uma equipa do cariz do Sporting de Braga enfrenta.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3047 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

2 Comentários

  1. Não é por acaso que Braga tem sido encarado como uma espécie de antecâmara dos treinadores para um grande. Ainda haverá alguma diferença mas a verdade é que grande parte dos jogos da liga os adversários colocam ao Braga dificuldades idênticas, do ponto de vista estratégico, às que colocam a um dos grandes. Braga tornou-se, para os grandes, numa espécie de prova dos nove para os treinadores.

    Este aspeto tem tornado a vida difícil para quem gere desportivamente o clube, no sentido de garantir alguma estabilidade do comando técnico à frente da equipa. Mesmo descontando alguns erros na gestão desportiva, a verdade é que o que acontece época após época é que o treinador ou tem sucesso e acaba por sair (para um grande ou para o estrangeiro); ou é mal sucedido… e acaba igualmente por sair!

    Curiosamente, julgo que pela primeira vez em alguns anos talvez isso não aconteça já com Abel. Pode ser apenas uma sensação, mas não me parece que os grandes se sintam particularmente tentados por Abel, pelo menos para já. A menos que o Braga faça um brilharete na Liga Europa e algum clube estrangeiro o queira tentar. E é fácil deixar-se tentar porque, como é dito, a um treinador não é fácil brilhar consistentemente em Braga, o trabalho é difícil e a exigência, ponderados os meios, é grande. [E não falo do resto que não é para este forum… mas que é também razão para treinadores e jogadores demandarem outras paragens]

    • cuidado… poderás estar enganado quanto ao tempo de permanência do Abel em Braga… de resto, de acordo com tudo… até com o facto de não haver pelo Braga o “respeitinho” que há com os outros 3 e que tanto os ajuda, mesmo que muito se chore…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*