Notas do Bonfim até ao Dragão

  • No Bonfim, pouco ou nada fazia prever o final de jogo que aconteceu. Um Sporting fiel às suas ideias, com as mesmas virtudes e os mesmos defeitos de outrora, menos confortável sem espaço para poder jogar e criar dentro da organização defensiva do Vitória, mais capaz quando se encontra em vantagem porque encontra o espaço que precisa para sair de forma rápida após recuperação e quando não consegue tirar partido desse desequilíbrio momentâneo do adversário, trava e entra em organização ofensiva. Foi ainda assim, numa transição com uma definição muito capaz de todos intervenientes, que o Sporting chegou ao golo. Depois disso, e com mais espaço, o Sporting é uma equipa diferente, mais confortável. Teve ocasiões para poder sentenciar o jogo, todavia, com 1-0, quando não se mata, pode-se sofrer…
  • Durante praticamente todo o encontro, a equipa de Jorge Jesus manteve uma percentagem interessante de posse de bola, mas ainda assim, com claras dificuldades em criar situações reais de finalização. Com um corredor central na zona intermédia tão criativo (William, Bruno Fernandes e Rúben Ribeiro) creio ainda assim, haver jogadores cujo perfil cognitivo e decisional, deixa muito a desejar. E creio que esta incongruência no perfil de alguns jogadores do Sporting para o jogo que se quer jogar, leva a uma inconsistência da equipa no seu momento de organização ofensiva. Ainda assim, aos momentos de perda, a transição defensiva da equipa leonina era forte e pressionante, quase sempre bloqueando as saídas de pressão da equipa de José Couceiro, com uma presença numérica forte na zona da bola e uma equipa bastante curta na largura e profundidade;
  • Costuma-se usar a expressão “é futebol” quando os imponderáveis acontecem. Quem viu o jogo, dificilmente esperaria um final do mesmo da forma como aconteceu. Olhando ao que foi o lance em si, não “é futebol”. Há demérito total do Sporting como consente este lance, desde o lançamento, até à pouca agressividade na zona da bola que permite a Gonçalo lançar Edinho no espaço, passando pelo comportamento da linha defensiva, alta e a não controlar a profundidade e ao posicionamento de Rui Patrício, demasiado baixo, quase dentro dos postes, com a linha defensiva subida e também ele a não estar preparado para controlar a profundidade;

 

 

  • No Dragão, foi um Porto menos constante e menos capaz tendo em conta os últimos jogos no Dragão, sem com isso se retirar justiça à vitória da equipa de Sérgio Conceição. Não seria justo não referenciar também o mérito do Tondela na forma como defensivamente foi criando problemas aos dragões no condicionar do corredor central, embora ofensivamente a equipa de Pepa, apesar de aqui e ali ter tido bons apontamentos, não tenha criado problemas de maior;
  • Essa pouca consistência que referi acima do Porto notou-se por várias fases. Ora acumulava momentos de autêntico ataque à baliza de um super competente Cláudio Ramos, com criação de situações de finalização em massa, ora acumulava momentos de dificuldade em ligar as suas fases ofensivas, da construção até à finalização. Foi sobretudo através da junção recuperação/transição que o Porto mais criou problemas à equipa beirã, para além da sua enorme capacidade e qualidade nas bolas paradas ofensivas;
  • O Porto é uma equipa diferente quando tem Brahimi e quando não tem. O argelino é, quanto a mim, peça essencial em todo o jogar ofensivo da equipa portista. Seja baixando em construção, para posteriormente solicitar os movimentos de ruptura de Marega, seja já em zonas de criação, são enormes os desequilíbrios que cria no último terço. Há Porto para além de Brahimi? Correcto. Mas haverá Porto com a mesma qualidade sem Brahimi do que com Brahimi? Duvido;
  • Recuperação e transição. Seja em zonas mais baixas, seja em zonas mais intermédias ou altas, quem quer abrir a equipa e jogar frente a este FC Porto, terá que o fazer de forma muito competente. A equipa de Sérgio Conceição é fortíssima nos duelos individuais, é uma equipa física, intensa e agressiva e a qualquer recuperação e saída, está praticamente uma situação de golo criada. À complementaridade de dois autênticos “carros de assalto” na frente de ataque (Aboubakhar e Marega), junta-se a elasticidade e disponibilidade dos dois médios centro Danilo e Herrera na chegada à área (sempre um a ir e outro a ficar), e a criatividade quer de Corona quer de Brahimi. Se a estes se juntarem os laterais, Alex Telles e Ricardo, vindos detrás a toda a velocidade, e com uma presença tão vincada em zonas de finalização, é normal que o Porto tenha facilidade em criar situações de finalização. Estou particularmente curioso para perceber como irá Jorge Jesus preparar o Sporting para defrontar o FC Porto no encontro de quarta feira.

 

José Carlos Monteiro
Sobre José Carlos Monteiro 47 artigos
Treinador de Futebol, Uefa B, com percurso e experiência em campeonatos nacionais nos escalões de formação. Colaborador como observador e analista em equipas técnicas na Primeira Liga. Alia a paixão pelo treino e pelo jogo à analise de jogo.

11 Comentários

  1. “Há Porto para além de Brahimi? Correcto. Mas haverá Porto com a mesma qualidade sem Brahimi do que com Brahimi? Duvido;”

    Mas não é assim com quase todas as equipas? O Benfica apresenta a mesma qualidade com e sem Jonas? O Barça apresenta a mesma qualidade com e sem Messi? É uma coisa normal, dado ser o melhor jogador da equipa

    • Correcto. Mas no caso do Porto, parece-me haver uma grande dependência individual sobre Brahimi, porque é um jogador de perfil distinto aqueles que o Porto normalmente apresenta no seu onze e é um jogador que resolve inúmeros problemas que o Porto por vezes colectivamente tem dificuldades em ultrapassar.

  2. Off-topic:
    Há uns anos comentavam que Lopetegui meteu Corona acabado de chegar ao clube porque não tinha nada para lhe ensinar. Agora, Jesus mete RR ao fim de 3 dias no Sporting – não tem nada para ensinar, decresceu de qualidade ou não justifica o reparo por ser um treinador-fetiche deste blog?

    • Não concordo que JJ seja o treinador fetiche deste espaço. Tem as suas virtudes como tem os seus defeitos, já foi elogiado e foi criticado e assim continuará a ser conforme as situações. Quanto à utilização do Ruben Ribeiro no onze, para mim é um jogador que tem mais que qualidade para ser titular no Sporting. Jesus se achou que ao fim de três dias o devia colocar a titular, acabou por sair beneficiado dessa decisão, dado a forma como o jogo correu…

  3. Da saga “Jesus: o Mestre da Táctica e Génio do Treino”:
    O mestre de uma táctica só (e sofrível, na minha opinião), o tal que mete sempre os canhotos à esquerda e os destros à direita, mais uma vez não soube controlar um jogo. Dir-me-iam que são os jogadores que jogam, e é verdade, se os deixarem, mas então o homem não é também o génio do treino? Um aparte: farto-me de rir com esta. Então os treinos não têm a devida correspondencia nos jogos? Parece que talvez só às vezes.
    Ora, o triste do Vitória, quando mete o Samaris (essa verdadeira abébia, sem ironia), normalmente tranca os jogos e é raro sofrer golos. Talvez seja porque tem muitos homens lá atrás, com ironia. Este início de ano é excepção pelos motivos que se compreendem. Quando o Jesus mete o Bataglia, é erro do posicionamento da ultima linha; erros das individualidades portanto. Quando perde são as individualidades, quando ganha é o excelente trabalho dele.
    O Vitoria é ao contrário: Quando perde é responsabilidade dele, quando ganha são as individualidades. Nunca ouvi dizer que o Guardiola ganha graças às individualidades, e que craques tem ele tido… não será necessário nomear, acho eu. Também nunca li isso de outros treinadores. É um exclusivo do triste do Vitória.
    Ainda podia continuar com isto da falta de entendimento de como se monta uma equipa e de como um treinador se adapta aos jogadores que tem (coisa que o rígido Jesus nunca saberá fazer) mas fico-me por aqui para não dar ideias.
    PS. isto não é uma resposta a ninguem. Não sou assim tão burro que não entenda minimamente o que escrevem. É um contra-argumento ao que anda por aí a circular na boca de muita gente.
    PS 2: Neste blog escrevem vários autores, que têm interpretaçoes e ideias diferentes em alguns aspectos e coincidirão noutros.

    • Mais uma coisa, se me permitem:
      O futebol é o jogo: Duas equipas, um campo com balizas e uma bola. Quem marcar mais ganha. Tudo o resto é acessório. Leio por aí muitas vezes que há uma sobre-valorização do treino que me faz aguma confusão. Os miúdos aprendem a jogar sozinhos, e é certo que os grandes jogadores fazem-se sempre sozinhos nas ruas e nos campos lavrados( ninguém vive sozinho, mas passo a imprecisão). Treinam-se uns aos outros, muitas vezes à base de discussoes e insultos. Não precisam de árbitros, treinadores, e para público têm-se uns aos outros. Muito menos precisam de treinos. Se tiverem um cão ou dois ajuda. eu também adorava jogar contra cães (os donos é que nem por isso), que não respeitam as regras e correm mais que nós, aliás, fazem (quase) tudo melhor que nós.

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