Chegar juntos para atacar mais e melhor – Um exemplo

Para aqueles que pretendem ser dominadores e controladores do espaço e do tempo, do ritmo e do caminho que o jogo leva, a pausa é uma arma fundamental. Na procura de um jogo que não nos escape das mãos, pelos trilhos mais sinuosos da velocidade, o passe terá de surgir, necessariamente, como uma ação que conecta e encaminha os onze intervenientes.

“a transição ofensiva agressiva vai um bocado de encontro ao pânico e à velocidade do Futebol actual, há pressão em torno dos treinadores de vencer, há pouca capacidade de pensar, como falávamos há bocado dos jogadores, há o sentido de urgência que o jogo actual tem…é tudo pânico, é tudo velocidade… e transmite um bocado a ideia do que é a sociedade actual…”André Villas Boas

Existe uma enorme tendência para que no momento seguinte à recuperação de bola, as equipas procurem, de forma imediata a baliza contrária. A menor oposição que encontrarão, à partida, aliada à possível desorganização existente na estrutura adversária, serão argumentos mais que válidos para quem tenta explorar o contra-ataque.

Do lado contrário, para quem pretende atacar de forma quase constante, é necessário refletir sobre a escolhas que se fazem com o objetivo de recuperar a bola. Como atacar ao mesmo tempo que nos preparamos para evitar transições que nos possam ferir de imediato ou retirar a bola durante algum tempo?

Há já algum tempo, abordámos o assunto aqui. 

“Se pudermos ganhar a bola no terço ofensivo é muito melhor, porque estamos mais perto da baliza contrária e faltam poucos metros para fazer o golo, que é para isso que nós estamos ali a jogar. Quanto mais nós defendermos atrás, mais temos que nos organizar para pudermos lá chegar com sucesso. Portanto, se conseguirmos recuperar a bola o mais cedo possível, melhor. Agora, às vezes, a equipa não está organizada e, por essa razão, tem que recuar um bocado, pois se eu vou tentar ganhar a bola com a equipa desorganizada posso estragar tudo.” Tiago 

Esta capacidade para recuperar alto de forma rápida, logo a seguir à perda, exige, para lá de um hábito de reação imediata, um equilíbrio posicional que deve existir durante o momento de organização ofensiva. A forma como a equipa chega a zonas de criação e finalização, terá implicações óbvias, no sucesso da sua transição defensiva.

“Para la recuperación post pérdida, lo único que queda es viajar juntos.”Jorge Sampaoli

Sampaoli falou-nos da necessidade de viajar juntos. Chegar em conjunto. Instalar jogo e manter uma rede de ligações que nos permita circular para agredir o adversário, ao mesmo tempo que nos deixa preparados para reagir em caso de perda. Este viajar implica pausa. E pausa não é fazer devagar, é fazer com velocidade mas sem pressa. É necessário fazer do passe uma ação coletiva para que este nos deixe avançar sem partir. Quase como se jogássemos de mãos dadas. Muitas vezes trata-se de retardar a chegada para que possamos fazê-lo mais vezes e com melhor qualidade.

Bruno Fidalgo
Sobre Bruno Fidalgo 62 artigos
Licenciado em Ciências do Desporto. Criador e autor do blog Código Futebolístico. À função de treinador tem aliado alguns trabalhos como observador.

2 Comentários

  1. Grande, grande texto….e esse Gafanha, pena estar longe da minha residência…grande texto Bruno, adorei o trecho do Vilas Boas “….é tudo pânico, é tudo velocidade… e transmite um bocado a ideia do que é a sociedade actual…”, futebol e vida de braços dados, indissociáveis, por isso, acredito que cada vez mais, para lá do talento, o factor humano e as suas relações, serão factor preponderante para a Vitória….depois Tiago e Sampaoli, “…viajar juntos” princeless!!!….
    “Para aqueles que pretendem ser dominadores e controladores do espaço e do tempo, do ritmo e do caminho que o jogo leva, a pausa é uma arma fundamental.”…isto é lindo, e eu acredito piamente nessa “pausa”…Obrigado Bruno, pena que não escrevas tanto aqui no LE, mas olhando para o Gafanha, tenho a certeza que é por muito boas razões…muito obrigado!!!!

    “Urgentemente

    É urgente o amor
    É urgente um barco no mar

    É urgente destruir certas palavras,
    ódio, solidão e crueldade,
    alguns lamentos, muitas espadas.

    É urgente inventar alegria,
    multiplicar os beijos, as searas,
    é urgente descobrir rosas e rios
    e manhãs claras.

    Cai o silêncio nos ombros e a luz
    impura, até doer.
    É urgente o amor, é urgente
    permanecer.

    Eugénio de Andrade, in “Até Amanhã””

  2. Então porque as equipas do AVB – até à China, pelo menos – são a formatação total em cima de transições constantes? Será que o tal contexto (a frase é muito boa, realmente) não lhe permite apresentar outro tipo de jogo?

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