Muito mais do que um mero gesto técnico de suprema qualidade – Marcelo!

A beleza do gesto técnico e o grau de dificuldade de execução deste são o sal desta modalidade, são os perfeitos potenciadores de sabores que a têm, ao longo dos últimos 150 anos, tornado tão popular e tão apreciada à escala planetária. É de facto o gesto técnico que move multidões a um estádio. Qualquer ser humano que abdique de uma parte significativa do seu rendimento mensal para assistir a um espectáculo desportivo, procura, para além da emoção de ver o seu clube ganhar, retirar algum prazer dos gestos técnicos dos intervenientes, independentemente de quem os executa. Permitam-me abrir aqui um “parêntesis recto” no discurso para vos narrar um episódio que vivenciei e realizei há uns anos no Estádio da Luz aquando de um derby entre o Benfica e o Sporting: na altura, estando o Sporting a uma distância curta do Benfica na tabela, se não estou em erro de 5 pontos, fui à Luz torcer, obviamente, pela vitória do meu clube. Estávamos na ressaca da pior temporada do clube. Apesar de não jogar o futebol mais bonito do país (de facto, estava a léguas daquele canhão de assalto do Benfica de Jorge Jesus, formação que merecia de facto um desfecho mais positivo na campanha europeia realizada nessa temporada), a formação orientada por Leonardo Jardim era uma formação muito eficiente que nos devolvia de certa maneira o orgulho e a esperança (só os sportinguistas é que de facto conhecem a palavra esperança) perdida nas últimas temporadas. Contudo, aquele lance do 2º golo dos encarnados, jogada toda ela construída ao primeiro toque entre Lima e Nico Gaitán (digna dos anais do melhor “futebol de praia” construído em plena relva) derrubou-nos por completo, de bruços, as ilusões que tínhamos construído nos meses anteriores. E eu, um puro amante do futebol, no meio do sector afecto às claques leoninas, quase fui apedrejado pelos meus visto que fui o único que no meio daquele verdadeiro “cheirete” oferecido aos leões me levantei para aplaudir Lima e Gaitán: “bravo” – gritei enquanto aplaudia os artistas do clube rival. Aquele conjunto de gestos, sincronizados, fizeram o meu dia. Voltemos ao assunto que pauta a intervenção que quero realizar aqui no Lateral Esquerdo.

Este gesto técnico de Marcelo é muito mais que um gesto técnico de suprema qualidade. É um hino aos cânones de jogar bem, de oferecer qualidade a um jogo em geral e em particular de oferecer, em primeiro lugar segurança (factor vital) e qualidade à saída em construção de uma equipa frente a um adversário que, jogando com o seu bloco subido para pressionar a saída em construção adversária, não faz da agressividade o principal trunfo da pressão que realiza nestes momentos mas sim a organização, definindo muito bem do ponto de vista individual as zonas de pressão e as “linhas de passe” a fechar para anular os intentos adversários e naturalmente recuperar a posse numa zona adiantada do terreno para, aproveitando o balanceamento natural de alguns adversários, em superioridade numérica (no momento em que Marcelo recebe a bola, se a perdesse, o Bayern ficaria numa situação de superioridade numérica próximo da baliza adversária) atacar prontamente a baliza adversária. A pressão ou a ausência da mesma ficou, como pudemos verificar nos lances de dois dos três golos, marcada firmemente na expressão do resultado. No lance em que os homens da frente de ataque dos merengues se marimbaram para uma saída em construção do Bayern pelo seu lateral, resultou o único tento apontado dos bávaros, erro que foi emendado à posteriori na 2ª parte, naquele lance em que Lucas Vásquez e Marco Asensio, capitalizaram, com uma jogada clássica dos compêndios da “Arte de bem contra-atacar” uma falha de Rafinha.

Mais que um domínio de bola de suprema qualidade, importa aqui ressalvar este momento chave de definição, de pura tomada de decisão realizado pelo jogador. Numa fracção diminuta de segundo, enquanto domina o esférico, o lateral brasileiro, de cabeça levantada, procura ler e compreender, face à organização adversária, como é que pode dar um seguimento seguro e criterioso à jogada, ou seja, cumprir os mais básicos desígnios do jogo para esta fase de organização ofensiva: fazer com que a equipa não perca a posse e poder com a sua acção levar a equipa a “driblar” por completo a adversidade colocada pela equipa adversária, repelindo-a e criando uma situação favorável à criação de um jogada de perigo. Convenhamos que face à situação que veio a surgir no seu horizonte (o apoio frontal oferecido por Cristiano Ronaldo, apoio que teria o condão, se bem realizado, ao primeiro toque de colocar a bola em segurança nos pés de Toni Kroos, pés que certamente haveriam de construir uma situação de progressão no terreno) a opção\decisão tomada pelo brasileiro não foi a melhor, até porque a equipa haveria de perder o esférico no decurso da acção do brasileiro, mas o princípio que se quer ver em qualquer jogador nesta situação (em menos de um segundo Muller estaria a cair em cima do brasileiro para lhe roubar o esférico) está lá intacto no sítio: dominar de cabeça levantada, pausando para ler, para compreender e para que essa ligeira pausa (de milésimos de segundos) lhe dê todas as indicações para bem decidir e para melhor executar.

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