Penaldo, ‘Neuer’ e o hábito pós Arena auf Champions

Já lá vão 14 anos (e uns meses). E desde essa retumbante conquista para o FC Porto, e para o futebol português, ficou patente porque essa foi uma vitória em que os astros se alinharam para a tornarem (quase) impossível de repetir. Não mais um clube português chegou (sequer) às meias-finais da competição milionária, porque não mais um clube português escondeu (ou dissipou) totalmente as suas fraquezas, tirando em cada jogo o melhor partido de um grupo fantástico de jogadores que tinha um líder que espremia todo o seu potencial.

De Gelsenkirchen em maio de 2004 para Gelsenkirchen de setembro de 2018 podem distar os tais 14 anos, mas em termos de personalidade, identidade, mentalidade e de controlo emocional a distância terá que ser medida em anos-luz. E quando todas essas coisas se alinham, marcos significantes como o dramático golo de Costinha em Old Trafford, o penálti de Derlei na Corunha, ou já na Final na Arena auf Schalke, aquela magistral assistência de Deco, que pelo canto do olho descobriu Alenichev, todas essas coisas, diziamos, vêm ao físico. E olhando para este empate que o FC Porto averbou num estádio que – aparte daquela eliminatória em que Neuer se deu a conhecer ao Mundo do futebol – ficará para sempre intimamente ligado à sua história, sobram erros e mais erros que ao invés de mostrar equilíbrio no placard, registaria sim, sem esses mesmos erros, uma vitória confortável para os dragões.

Por o FC Porto (poder) ser bastante superior e pelo facto de o vice-campeão da Bundesliga não ser mais que um conjunto banal que mais não fez do que tirar algum proveito das habituais tremideiras portistas – que desde 2004 são um irritante hábito que reduz para 2.º plano as estratégias, as tácticas ou os modelos. Mas pode o FC Porto ser bastante superior ao Schalke, jogando fora, pode ter mais posse, e conseguir mais oportunidades, que tudo isso não lhe garantiria uma vitória anunciada pela tal superioridade que ficou evidente. Isto porque a habitual tremideira na saída-de-bola, ou as incompreensíveis desorganizações defensivas que não forçosamente iam dando oferendas que o Schalke fez por não merecer, nunca deixariam o FC Porto sair vitorioso da Alemanha (ou de qualquer lado onde se jogue esta Champions League).

E este não é um erro (só) de Sérgio Conceição. Viu-se com Adriaanse, viu-se com Jesualdo, e aparte da estelar campanha de Villas-Boas na Europa League, tornou a ver-se com Vítor Pereira. Há algo na identidade, há algo na mentalidade e corpo emocional do FC Porto que não o deixa trazer ao físico aquilo que realmente vale. Não quer isto dizer que se ganhasse a Champions ano sim, ano não mas, esse algo, cheio de redundantes duelos perdidos, constantes tentativas falhadas de entrega de bola ou então (algo que não se passou nesta terça-feira) os já habituais frangos, equilibram, ou desequilibram, a favor de rivais mais fracos ou mais fortes inúmeras contendas dos dragões na Champions League.

E este era um Schalke que nada teve a ver com, por exemplo, o RB Leipzig que os dragões de Sérgio defrontaram na época passada. Essa, aparte da enorme deficiência nas bolas paradas defensivas, era uma equipa com um ritmo impressionante, excelente na dividida e com bastante star quality em alguns dos seus intérpretes. Já este Schalke, não fosse um Färhman(neuer) e as já por demais referidas quebras de concentração que toldarão este texto do princípio ao fim, seria até um adversário bastante apetecível. Algo que fica provado pelo facto de mesmo com tanto habitual brinde pôde o FC Porto beneficiar também de alguém que a partir de hoje poderá ostentar realmente a alcunha de Penaldo. Outrora (mal) usada nas discussões que batalham a dualidade Ronaldo/Messi, essa [alcunha] caírá agora bem melhor nas costas de um Naldo que deu ao FC Porto duas oportunidades exclusivas de corrigir erros próprios. Uma espécie de ‘toma lá, dá cá’ que pautou um jogo onde só no início da 2.ª metade os azuis-e-brancos realmente demonstraram a sua mais-e-maior-valia. Um forcing que trouxe ao relvado uma superioridade que foi, aqui e ali, ficando evidente na 1.ª metade, mas que com o intervalo, e com as palavras de Sérgio, veio realmente a confirmar-se.

Contudo, o que se confirmou também foi que Färhmann estava em dia de ser Färhmannuel, e que o FC Porto não haveria neste jogo de transcender a maleita que carrega na sua mente. Foi ver Casillas, foi ver Herrera, foi ver Felipe, foi ver Otávio, Corona e Danilo, entregarem por vezes bolas cheias de veneno aos colegas, outras vezes entregarem bolas redondas aos adversários, misturando tudo isso com duelos perdidos e falhas de posicionamento que foram deixando um adversário banal acreditar e, até mesmo, ganhar vantagem no marcador (Embolo 64′). E não fosse o 2.º penálti oferecido por Naldo (o agora Penaldo), que desta vez, ao contrário de Alex Telles (13´), Otávio converteu em algo bem mais pontual, justo e real que levar para Invicta uma mão-cheia de nada, e talvez a derrota fosse o corolário de toda a atrapalhação. Mas esse ponto, arrancado por Otávio, e a mais que evidente constatação que os medos e complexos de inferioridade pós 2004 ainda não foram ultrapassados, serão mesmo as únicas ‘vitórias’ portistas num jogo onde erros próprios, como sofrer um golo a partir de um pontapé-de-canto ofensivo, deixaram um adversário banal e inferior roubar dois pontos que seriam/serão bem importantes nas contas deste Grupo D da Liga dos Campeões. Um conjunto de adversários com nível de Liga Europa mas onde o brilho das estrelas da Champions continua a ofuscar, de quando em vez, os olhos portistas.

Schalke 04-FC Porto 1-1 (Embolo 64; Otávio g.p. 75′)

5 Comentários

    • Certíssimo. Não sei de onde me veio o Sandro, ou se calhar até sei 🙂 ainda assim merece a correcção e o agradecimento pela lembrança. Abraço

  1. Desde ano passado, com a entrada de sergio conceição que o porto se torna uma equipa de topo mundial em bolas paradas. Aliás (tirando as goleadas, que depois do primeiro golo e/ou segundo) o porto ano passado e esta epoca tem sido uma percentagem muito grande de golos de bolas paradas (ou o imediato pós bola parada).

    O Porto tem sido superior em muitos jogos, mas não consegue concretizar em bola corrida a sua supremacia. Ainda ontem qualquer que fosse a bola parada criava perigo.

    Voltou a moda de nas bolas paradas defender em marcação individual? Mourinho voltou e grande parte dos treinadores imitaram?

  2. Interessante como alguém que claramente conhece tão pouco do FC Porto se deu ao trabalho de escrever um texto tão extenso, construindo uma tese tão elaborada como errada.
    Que o FCP cometeu muitos erros que o impediram de ganhar o jogo é totalmente factual… agora é absurdo achar que isso se deve a um qualquer trauma europeu do FCP pós-2004, que pura e simplesmente não existe.
    Em primeiro lugar, os jogadores e treinadores do FCP nao foram constantemente os mesmos ao longo dos últimos 14 anos, logo achar que o que Sérgio Conceição e a sua equipa fazem está relacionado com o que Paulo Fonseca e a sua equipa fizeram é o mesmo que dizer que eu tenho medo de cobras porque o Vasco da Gama também tinha.
    Segundo, as diversas chegadas aos 4os de final e eliminações nos oitavos contra equipas que chegaram a finalistas, atestam as excelentes prestações que o FCP tem tido na liga dos campeões (melhores que as de todos os outros clubes portugueses somadas) onde qualquer Lyon, clube turco ou Leicester city têm orçamentos muito superiores aos do FCP.
    Podia ainda abordar a patetice que é usada para descrever o caminho do FCP até à conquista em 2004, dando a entender que se deveu puramente a sorte em todos os segundos de todos os jogos, mas a minha parte preferida é quando se refere à conquista da liga europa como um acidente, uma interrupção temporária neste tal trauma psicológico do FCP na europa. É delirante achar que os traumas que duram 14 anos podem assim ser interrompidos um anito e depois reaparecer do nada.
    Talvez o autor possa encontrar no que escrevi pistas para os reais motivos pelos quais o FCP nunca mais chegou a meias finais… chamam-se dinheiro e planeamento, que combinados bem, resultam em qualidade que, somada a alguma sorte, se traduz em sucesso. Meu amigo nem o FCP nem nenhum clube português têm dinheiro para competir pelas meias finais ou conquista da champions. É certo que com bom planeamenfo se pode chegar um pouquinho mais longe e é isso precisamente que explica oscilações entre eliminações nas fases de grupos e chegadas aos 4os de final. A partir daí é muito complicado.
    Por ultimo, o Deco não fez assistência nenhuma para o Alenitchev na final da champions… o Deco é que marcou a passe do russo, que por sua vez marcou na sequência de um passe do Derlei (ou talvez o autor esteja a confundir com a final da taça uefa, mas como para ele as conquistas de taças uefa/liga europa são pequenos “à partes”, talvez nem tenha conhecimento desse jogo épico)

    • Que maravilha de comentário, Jorge! Escreveu o que pensei…Excelente.
      Tanta elaboração mas sem rigor e desacertada.
      Traumas? Generalização no vazio, quando quem “manda” são realmente os jogadores e treinadores. Há uns que estragam o bom que têm, outros que do mediano fazem bom. Às vezes, até com entorno desfavorável.

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