Tiago Fernandes na linha da sucessão – Sim, ele é diferente

É atrevido, tem pinta, não é modesto, vem de uma família altamente bem sucedida e percebe da coisa.

Tiago Fernandes reúne uma série de características que tornam fácil não gostar dele. É assim com uma grande parte dos competentes. Somos um país mais afecto aos coitadinhos, os que têm limitações de qualquer ordem e dificuldades óbvias, e acolhemo-los de braços abertos, mesmo que acrescentem tanto como uma gabardine no Verão. Nada de errado em relação a isso. Muito pelo contrário, a caridade é algo de uma nobreza muito profunda.

O que está verdadeiramente errado, é a pobreza de espírito que nos leva a renegar aqueles que se evidenciam, que ousam fazer diferente, que fazem melhor.

Tiago teve uma semana de trabalho. Poderia ter mantido tudo igual, preparar uma passagem simples entre uma equipa técnica e outra. Não o fez. Não importa se por vaidade, ou vontade de deixar marca. Na verdade, os diferentes são os que têm essa vaidade própria e a pretensão de se considerarem diferentes das manadas.

A semana de Tiago Fernandes, fez recuar um pouco ao tempo em que Abel assumiu durante uma semana o Sporting de Braga, e foi vencer a Alvalade. Logo naquele momento, pela estratégia preparada, pelo discurso, se percebeu que o treinador que agora bate sucessivamente todos os recordes dos arsenalistas, era diferente. Enquanto por Portugal os pobrezinhos choravam porque Abel ousou fazer e comunicar de forma diferente, por cá percebeu-se imediatamente o impacto que teria.

Com pouquíssimo tempo de trabalho, e ainda para mais, com viagens e treinos de recuperação pelo meio, é difícil de adivinhar quantas sessões de treino aquisitivas planeou. Provavelmente os novos comportamentos tiveram que chegar por vídeo, ou em forma de trabalho analítico.

E quando assim o é, muito mais possível é “afinar” acima de tudo o mais, os comportamentos sem bola, porque tudo o que envolve processo ofensivo, é de uma complexidade muito maior.

Aquilo que seria muito complicado, mas ainda assim possível de tocar, com tão pouco tempo, está à vista: Sporting a fechar espaços, a impedir entradas em zona de criação através de uma coordenação colectiva que não se conseguiu ainda ver noutras realidades, cujo tempo de trabalho é incrivelmente superior.

 

Como depois da semana de Abel no Braga, em que foi logo possível perceber que os arsenalistas já tinham encontrado um sucessor para o seu futuro treinador, 0 Sporting já encontrou o sucessor de Marcel Keizer.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3407 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

7 Comentários

  1. Não é por acaso que o Benfica está em cima da situação… desde há algum tempo que no Seixal não perdoam… Não para uma equipa principal, já, obviamente…

  2. Para concluir… Texto fabuloso, e corajoso, uma vez mais! Não é por acaso que o futebol, é a actividade onde Portugal tem maior sucesso… os coitadinhos podem chorar e espernear… mas tomara terem 1/1000 do sucesso na suas suas actividades chatas e que ninguém quer saber, do sucesso que tem o Tiago, e outros Tiagos. As redes sociais trouxeram maior proximidade, mas ao mesmo tempo, o coitadinho esforça-se arduamente, para ao querer parecendo alguém, afugentar os que são realmente alguém…

  3. Pedro, quem como nós seguiu tanto, e conhece tão bem.. mas há um problema que o Tiago terá sempre de ultrapassar que diz respeito ao ter sido dada a oportunidade apenas porque… tu sabes! Mas sobre isso, tanto falámos. Agarrou-a! Oh se agarrou! (Obviamente que nao falo destes 2 j, como sei q n é apenas a isso que te referes. Aliás so alguem profundamente estúpido ou burro pode pensar que é possivel juízos com base em 1 ou 2 jogos)

    Outros quando a têm (a oportunidade) é zero…

  4. Pedro, li um geek no twitter a dizer que ainda n chegou o dia em q Sporting contrata alguém por um jogo em OD… se calhar convinha explicares à malta sem noção, o número de jogos q o TF fez, o n de j que viste o TF fazer e q a estrutura SCP viu… porque sabes que o povo pensa que só existe aquilo que os seus olhos vêem… ou seja o TF só nasceu esta semana 😂😂😂

  5. Não sendo o plantel do Sporting a “crème de la crème” da qualidade individual, é composto por executantes bastante competentes em vários aspectos. Se Keizer significar uma melhoria na organização ofensiva não poderá ser um upgrade importante? Ou estarei a forçar a visão do copo meio cheio? Agora, claro, atrás ter-se-iam que manter uns lampejos da organização defensiva de JJ. O papel dos laterais sem bola e a reacção à perda – onde julgo que o duplo pivot defensivo até pode fazer sentido desde que com Sturaro, apesar de Petrovic não ser a nódoa que muitos pintam – teriam que ser melhorados. Não querendo parecer demasiado básico na análise, o Sporting dificilmente será pior que até aqui e o contexto da liga poderá favorecer os imprevistos (um pouco à semelhança do ano de Trappatoni no Benfica). Isto porque o Benfica vive um momento sobre brasas cujas consequências a longo prazo poderão ser determinantes, o Porto carece, a meu ver, de um “Plano B” (as declarações de S. Conceição sobre terem sido imprevisíveis na 2a.Parte do jogo da Madeira parecem-me desprovidas de conteúdo, ao melhor nível de um Freitas Lobo) e o Braga… não sei explicar, mas algo me diz que ainda não está “lá”. No fundo, julgo que se Keizer for minimamente competente – não inventar, investir mais na organização que na inovação, procurar dar aos bons jogadores do Sporting um contexto favorável – a sorte (porque há factores que não dependem do treinador) até pode sorrir… É demasiado optimismo da minha parte?

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