Futebol para o mundo – A promoção do jogo, a filosofia e o Lateral Esquerdo. Em entrevista

A página de Instagram @futebolparaomundo partilha hoje uma entrevista que realizou com o criador do Lateral Esquerdo, Pedro Bouças. Fica aqui, a mesma. Não se esqueçam de passar por lá!

 

Um dos principais objetivos do Lateral Esquerdo é promover o jogo e os treinadores. Como se consegue promover um jogo num país tão inculto futebolísticamente falando?

É continuar a partir pedra, como até aqui… Creio que todos concordam que o Lateral Esquerdo fez crescer um país inteiro, ao nível do conhecimento do jogo…. de forma gratuita, durante dez anos. No fundo, é continuar a não procurar aquilo que até é o que mais vende, que é o extra campo de jogo. Falar de todos, e não apenas do que está na moda, mesmo tendo o site contribuído para a moda. Nem sempre é fácil, porque em Portugal as pessoas não querem perceber ou saber do jogo, querem apenas ter razão nas suas conversas de café, e portanto não há muita abertura para qualquer conteúdo que seja sobre o futebol jogado. Dou-te um exemplo claro, que foi a repercussão que o post da preparação do jogo com o Braga por parte do Benfica teve. Uma partilha brutal, nunca feita antes, ter um clube grande e o seu treinador a revelar conteúdos daquela maneira, e uma parte das pessoas ficaram ofendidas e não quiseram sequer discutir o conteúdo. E porquê? Porque acharam que se estava a dar uma ideia de brilhantismo de um treinador que as pessoas não gostam. O problema é que o post foi todo descritivo… e não havia ali nada de verdadeiramente extraordinário… há 20 planos de jogo a funcionarem todos os fins de semana nos campeonatos profissionais, e não é por isso que esses treinadores são todos geniais… as pessoas é que pensavam que sabiam mais do que um treinador de um clube profissional, e muitas nem sabiam o que são planos de jogo, e viram-se confrontadas com a sua própria ignorância… e lá está… ninguém quer saber mais ou conhecer melhor o jogo… apenas ter razão nas suas conversas de café. Daqui a dois anos será normal falar-se dos planos de jogo e estratégias, … tal como é normal hoje falar-se de coisas que quando o lateral esquerdo falou em primeira instância… não eram normais!

Mas, ainda assim, há um nicho de pessoas que ousam pensar pelas suas cabeças, e que ainda são apaixonadas pelo jogo… Embora talvez a tendência seja que este número diminua ainda mais… estamos na era do futebol indústria, negócio… já não há paixão pelo jogo… quem consome quer tudo muito rápido… só retira prazer e validade dos seus argumentos com o resultado final.


Depois de ter conquistado tudo a nível nacional em futebol feminino pensa regressar nos próximos tempos ao futebol como treinador? 
É uma possibilidade que estará sempre em aberto. Mas, é muito difícil que venha a acontecer cá em Portugal. Dificilmente a vida de treinador em Portugal me realizará a todos os níveis como o que tenho hoje… Curiosamente “hoje” que já não o procuro é que tenho tido oportunidades para ir para o terreno em equipas técnicas de 1a e 2a liga.. Tenho indicado algumas pessoas, que depois chegam e mostram competência, e isso faz-me muito feliz. O máximo que tenho feito é trabalho de analista, sem estar no campo, porque não consigo conciliar com o resto.
Como treinador/Analista qual considera ser a melhor filosofia de jogo para que um clube esteja mais perto do sucesso? 
Nos dias de hoje, em que é tão difícil pagar contas, é ainda mais importante valorizar o produto. Por exemplo, entre o 7º e o 14º lugar, ninguém desce nem participa nas provas europeias. Então eu preferiria um 14º com 3 jogadores potenciados e prontos a ser transferidos, do que o um 7º conseguido na retranca, à base de uma excelente organização defensiva, e com pouca bola para os jogadores se mostrarem. Agora isso é o que eu penso… se o dirigente do clube pensa de forma diferente… o treinador tem de se adaptar, se quer continuar a ter emprego. É importante que as pessoas não se esqueçam que ser treinador é uma profissão… e que os treinadores também têm contas para pagar.
As redes sociais têm ultimamente sido mais um meio de propagação de informação com especial destaque para o futebol. O que pensa desta disseminação futebolística? 
Acho óptimo, desde que se consiga ter sempre espírito crítico. O que se nota muitas vezes é que se formam seitas de muita gente que é incapaz de usar o próprio cérebro e se deixam ir atrás de um grupo… O Lateral Esquerdo cresceu sempre à margem disso, sempre contra a corrente, sem se importar, nem tecer opiniões em função do que o “povo”, “amigos” ou o que for defendem. E sem capacidade crítica, és apenas mais um na manada, no meio de uma masturbação de egos que te impede de sair do lugar e triunfar na vida… ou no futebol…
Quando criou o lateral esquerdo acreditava que ia ter tanto sucesso? Até onde pensa chegar?
Não, não imaginei. Eu nem sabia o que era um blog… Foram uns miúdos que eu treinava que me mostraram o blog deles, e eu achei giro e numa tarde sem nada para fazer, comecei a escrever… Na altura só queria partilhar a minha visão do jogo com eles… Ou seja… foi uma coisa pensada para 20 gajos, que de repente é conhecida por gajos que venceram Ligas dos Campeões. É irreal. Pessoalmente, não tenho qualquer meta para o Lateral Esquerdo… é neste momento algo que vai para lá do Pedro Bouças… que continuará facilmente sem o Pedro (Vou-te contar uma história… há um mês atrás, estava a almoçar com dois jogadores internacionais portugueses, e um deles começa a falar de um texto meu no Lateral Esquerdo, quando o outro o interrompe para me perguntar se era eu que escrevia no Lateral Esquerdo, e que estava de parabéns porque é um site que não perde um artigo)… Ou seja… ele estava a almoçar comigo, lê o site, e nem sabia que eu o tinha criado e que lá escrevia! Mas, é óbvio que há um carinho muito grande…  o facto de ter as portas abertas e uma credibilidade gigantesca junto das pessoas do jogo (eu vou a todo o lado, e sou reconhecido por isso… outra história, no último Lopes da Silva, sentei-me na bancada, junto de um seleccionador nacional, com o qual nunca tinha trocado palavras, e ele olha para mim e pergunta-me “Então, vem fazer um artigo para o site?”), e que isso seja um facilitador para se continuar a partilhar o que é realmente o futebol, bem como a comunidade de patronos que contribui de forma decisiva para que o projecto continue (são eles que, mesmo sem saber, pagam o nosso acesso aos jogos todos! sem eles creio que já não fazia sentido sequer existir Lateral Esquerdo… ), são os grandes obreiros de o projecto não ter parado ainda. Parado para mim, lá está. Porque o Lateral Esquerdo já vai muito para lá do Pedro Bouças.

1 Comentário

  1. ‘Por exemplo, entre o 7º e o 14º lugar, ninguém desce nem participa nas provas europeias. Então eu preferiria um 14º com 3 jogadores potenciados e prontos a ser transferidos, do que o um 7º conseguido na retranca, à base de uma excelente organização defensiva, e com pouca bola para os jogadores se mostrarem.’

    10 anos depois o PB continua de forma natural a produzir pensamentos que dos mais pequenos aos maiores só os conhecemos se ele os escrever e partilhar connosco, mesmo que depois de lidos pareçam óbvios. Esse tipo de simplicidade é precisamente uma marca dos génios …

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