O último terço do Barcelona – viajar juntos, passa e vai

O jogo do Barcelona tradicionalmente está associado a vários conceitos que suportam um grande principio: ter a bola muito tempo.

Um dos conceitos mais importantes é conhecido como “viajar juntos”, ou seja, ter a equipa mais próxima tanto a atacar como a defender. Com bola, o essencial será a equipa construir uma rede de apoios que permita a progressão em direcção à baliza. 

Vem esta pequena introdução a propósito do Barcelona vs Espanhol de sábado passado, onde a equipa de Valdeverde enfrentou muitas dificuldades, que se prenderam sobretudo em criar ocasiões de golo nomeadamente na 1ª parte, e que muito se devem à escassez de opções no último terço. Surpreendentemente ou não, em várias situações foi notória a falta de presença nos metros finais. O grande motivo foi mesmo falta de acompanhamento da progressão da bola por parte dos jogadores blaugrana.

A distribuição do Barcelona, estrutura 4x3x3, contou com os médios muito próximos entre si à largura, a servirem como apoios por trás à circulação. Constantemente atrasados em relação à linha da bola, raramente apareceram entre linhas (o que é especialmente estranho tendo em conta que o Espanhol apresentou uma linha de 5 atrás) e portanto, era complicado à equipa jogar no último terço 

Outro aspecto fundamental no jogo do Barcelona é o passa e vai. Se quem tem a bola passar ao colega e se movimentar para a frente, à partida quem tem a bola terá algum espaço para progredir (quando isto acontece no corredor lateral, ir para dentro, por exemplo). Se a isto juntarmos a preocupação do Barça em ter sempre alguém à largura quando constrói, é possível explicar a dinâmica à esquerda entre Alba-Arthur-Coutinho. À entrada do meio-campo do Espanhol, este passa e vai, contribuiu para a pogressão da equipa. Se Coutinho recebia à largura, Alba ia dentro na profundidade, se ia Arthur na profundidade (mais raro), Alba ficava atrás. Ainda que esta dinâmica parasse à entrada do último terço, foi importante para chegar lá. Na imagem abaixo a distribuição do Barça

Nota para Suarez. A sua tendência ao longo do jogo foi a de aproximar da zona e do portador da bola no último terço. Este movimento normalmente é acompanhado de vários arrastamentos à profundidade que permitem ao uruguaio receber com espaço e até ficar de frente para o jogo, no entanto, e como já vimos não existiram. Portanto, a aproximação do uruguaio só contribuiu para facilitar a tarefa à defesa do Espanhol, que se aglomerou perto da bola ainda com maior facilidade, nomeadamente a linha de 5 defesas

Excepção feita à falta de acompanhamento do avanço da bola, que em qualquer circunstância é complicada de entender, a ideia de usar os 3 médios essencialmente para apoio por trás nem é exactamente nova e muito menos errada. No entanto, não pareceu ter a devida articulação com a restante equipa. Os laterais iam aparecendo a dar largura que se impunha, mas Messi na 1ª parte esteve quase sempre em zonas centrais e, não raras vezes, recuado próximo de Rakitic. Esta distribuição inclinou o jogo para a esquerda. 

O problema foi mesmo o último terço. Como é possível verificar nas imagens abaixo, Suarez irá receber passe entre linhas de Alba rodeado de 4 adversários e Coutinho não tenta ser linha de passe avançando no terreno. Por outro lado, no momento do passe de Alba é visível como a falta de opções à frente da linha da bola faz com que a defesa do Espanhol se concentre naturalmente no avançado uruguaio.

No lance abaixo, o problema repete-se apesar de modificar a dinâmica. Bola em Coutinho e é Arthur quem avança, ficando Alba para trás. Suarez aproxima de Coutinho e novamente fica fácil à defesa do Espanhol controlar o ataque, pois a quase exclusiva preocupação é neutralizar a desmarcação de Arthur para depois ganhar bola no 1×2 sobre Coutinho.

No video abaixo a novidade é que à habitual dinâmica na esquerda, o jogo roda para a direita pelos centrais. A bola chega a Nelson Semedo que vai para dentro (fruto do passa e vai de Rakitic), e tem óptimas condições para colocar a bola entre linhas. No entanto, nenhum jogador do Barça está nesse espaço. Messi fica para trás marcado e o português volta para a zona do corredor lateral, e novamente passa a Rakitic e segue na profundidade. Neste momento aparece o génio de Messi, solicita Semedo para uma troca de passes e o lateral cruza num dos lances mais perigosos da 1ª parte. A qualidade individual do Barça, e de Messi em particular, disfarçaram por ocasionalmente, a inferioridade numérica na zona da bola.

Na segunda parte, mesmo não fazendo uma grande exibição, o Barcelona criou mais perigo e alterou alguns posicionamentos em relação à primeira parte. Os médios apareceram mais adiantados, e frente ao 5x3x2 do Espanhol foi possível atrair a sua linha média a um lado para o médio do lado contrário ao da bola receber com espaço. Também os alas sofreram alterações. Pelo menos um, do lado oposto ao da bola, permaneceu um pouco mais aberto e adiantado, criando assim superioridade numérica no corredor lateral e melhores condições para cruzar. Tudo isto fez com que a equipa viajasse mais junta e conseguisse boa presença em zona de finalização.

O Barça ganhou uma nova dinâmica, e passou o seu melhor período no jogo, após a dupla substituição ao minuto 59. Malcom entrou para a esquerda e Coutinho passou para o meio. A distribuição também foi alterada com Messi a jogar mais em zonas centrais (mas desta vez mais adiantado) com Malcom do outro lado mais à largura. Com Rakitic à direita a acompanhar a progressão da bola, o Barcelona foi mais perigoso porque conseguiu atrair o espanhol a um lado para depois ganhar superioridade no outro, tal como mostra o lance abaixo.

Os movimentos sem bola de arrastamento são importantes no Barcelona, conferem dinâmica sem bola à equipa, e têm a vantagem de dar mais espaço aos melhores jogadores para desequilibrarem. Mas só isso no sábado foi curto. Alguns ajustes na 2ª parte foram o suficiente para mudar o jogo, ainda que os dois golos tenham surgido de bola parada e contra-ataque

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