O ESPAÇO DESCONHECIDO QUE TODOS TEMEMOS

Correspondência dinâmica processual como engendração de uma intencionalidade individual/coletiva/individual

Entendamos Forma como manifestação, de (…)Algo(…), em ato de uma intenciona(corpora)lidade coletiva.

Quando partimos para o início de um novo processo/equipa temos que ter como preocupação e ponto de partida fundamental como queremos que esse processo se manifeste e emerja, respeitando sempre(!) o binómio coletivo/individual.

Cada treinador tem, necessariamente, uma Ideia, uma Intenção (Prévia) como quer que a sua equipa e os seus jogadores se expressem em jogo. A nossa Forma de estar irá ser o elemento causal entre o “onde/como estamos” e o “para onde/como podemos ou devemos ir”. Aquilo que algoritma a nossa vida quotidiana são as nossas crenças e princípios permitindo-nos ter um critério circunstancial para diferentes situações com que nos deparamos. (re)Contruímo-nos e (re)engendramo-nos como homeostasia partilhada no nosso corpo e do nosso corpo com o que nos rodeia (AutoEcoHetero) “garantindo” (sabendo que nunca garantimos nada) um equilíbrio facilitador (dentro da complexidade viva e vivida) de eficiência e eficácia na interação necessária com o mundo.

A Célula é um organismo vivo autossuficiente e auto organizador, alimentando-se e rejeitando o que considera necessário para a sua sobrevivência, mantendo o seu equilíbrio (processo conhecido como autopoiese).  As bactérias foram as primeiras formas de vida, inicialmente unicelulares e consequentemente multicelulares, responsáveis pela criação de todas as condições básicas (e não só…) de vida no mundo. As células e as bactérias ensinaram-nos a viver. A simbiose foi o processo mais significativo na complexificação da forma e nas formas de vida existentes e por existir. No fundo, as interações do “eu” (bactéria unicelular) com o ambiente e com outros “eu” criaram espaço para a simbiogénese, ou seja, células acopolaram-se como forma de sobrevivência instintiva (cognitiva) perante circunstâncias adversas (caóticas, aleatórias), criando assim os primeiros seres vivos multicelulares. Um exemplo de complexificação e novas formas de ordem não linear, pelo processo de fagocitose, seres pluricelulares “alimentaram-se” de um novo orgão (Organelo) responsável pela metabolização de energia, fundamental para a sua sobrevivência.

A estrutura de cada célula altera-se, molda-se para ser capaz de interagir e se sintonizar com outras células, mas o seu PADRÃO de organização mantém-se, garantindo que a identidade de cada uma e do (novo) todo se mantenha. A emergência de uma nova forma de ordem acontece, não linearmente, espontaneamente fruto das novas conexões, sempre respeitando a inteireza inquebrantável de cada “membro”. Somos constituídos por uma teia celular, portanto, somos estruturas dissipativas. Ou seja, vivemos no paradoxo, longe do equilíbrio, mas sempre em busca dele, estabelecendo tacitamente novas formas de organização corpo/corpo e corpo/ambiente. Precisamos do caos para sobreviver, mas procuramos a organização para viver.

Desde o nascimento ensinam-nos e aprendemos determinada linguagem, gestualidade, forma de agir, pensar, emocionar, interacionar, conectar…crescemos e desenvolvemo-nos como espécie numa determinada cultura, todos “sofrendo” de um processo de habituação, de uma determinada Aculturação. A história mostra que a nossa espécie aprendeu com as bactérias e com outras espécies a viver e a sobreviver. Esse caminho da (in)evolução foi sendo marcado pela cooperação dentro da mesma espécie, com outras espécies e com o meio (simbiose). Sempre as conexões, interações e cooperação como o caminho à complexificação e formas mais capazes de viver.

Numa fase de extrema globalização e competição é ainda mais um imperativo não perdermos aquilo que nos diferencia. Sempre com (sub)consciência que vivemos numa sociedade, onde a liberdade é imprescindível para a criatividade e inovação, mas reconhecendo sempre sermos livres de agir, sem agir livremente. Concretamente, o futebol é reflexo do mundo e sociedade (AntropoSocial).

Respeitando a génese e ontogénese de todos os seres vivos percebemos que as interações criadas e emergentes são cruciais para a construção de um (novo) todo, que é precisamente o que queremos enquanto treinadores.  As partes são o fundamental para que exista e se conceba um todo, mas sem este todo, os jogadores não são capazes de se manifestarem e exponenciarem, na sua plenitude. Como uma planta, para que as flores e folhas aflorem, há que existir um tronco principal responsável pela orientação de todos os ramos, manifestando-se cada um à sua maneira (as plantas também se organizam…vemos que cada ramo, folha, flor tem o seu espaço e tempo para se expressar). Ao longo da semana de treinos temos como missão tornar os nossos jogadores e equipa o mais preparados possível para o jogo, com a correta contemplação, conceção e operacionalização do binómio coletivo/individual. Temos que saber viver neste aparente paradoxo que é cuidar do todo, a nossa forma/intenção prévia, sem nunca(!) hipotecarmos o que a parte poderá aportar para o todo. Sabemos que destino queremos tomar, mas o caminho não o conhecemos. Tal como a planta…ela sabe o que quer no futuro (dar flores ou folhas), mas o caminho até lá está (inter)dependente do que a rodeia e de como é tratada. O treino tem como potencialidade a modelação e aquisição a uma determinada forma de jogar, uma tecnicidade e gestualidade, como DOMINÂNCIA E PADRÃO, mas há que ter muito cuidado para não cairmos no erro de apenas e só propensiarmos uma única forma, tecnicidade e gestualidade. Temos que modelar e deixarmos ser modelados pelo processo (o jogo pré existe à ideia que dele ou para ele se tem)!

O espaço desconhecido que todos tememos é parte essencial da vida. Todas as relações humanas têm um espaço invisível que nos leva a todos a pensar e refletir sobre ele. E é isso que o torna fundamental…a subjetividade é parte crucial para a reflexão e criação, para a transcendência. E é esse o primeiro passo ou caminho para compreendermos um pouco melhor o paradigma da complexidade e, consequentemente, do treinar. Existe de facto, um espaço que podemos e devemos controlar e cuidar, para que o outro “lado” intangível, aporte ao nosso jogar um número infiníto de soluções (variabilidade), sem nunca se distanciar do propósito coletivo e comum a todos.

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Sobre RicardoCarvalho 3 artigos
Treinador de Futebol. Refletir sobre futebol...é modelador, é corpóreo. O Corpo que o joga e o Cérebro que o sente.

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