Preparar a minha equipa frente a um 3-4-3, by Pepa

Pepa tem sido um dos treinadores em afirmação na Liga NOS deste ano. O seu Paços de Ferreira tem estado no top-6 desde o início do campeonato e apresenta ser uma equipa muito bem organizada, muito consistente e que sabe exatamente aquilo que o seu treinador pretende em cada momento do jogo (podem recordar aqui a explicação do Pedro Bouças no canal 11 sobre este Paços) . Esta semana, Pepa deu uma excelente entrevista ao MaisFutebol, onde abordou diferentes temas da sua carreira, vida e como aborda e monta as suas equipas. Falando de um dos temas do momento, o 3-4-3 que está tão na moda em Portugal, e dos jogos menos bons do Paços este ano (ambos contra o Sporting), Pepa referiu que existem três formas diferentes de preparar a sua equipa sem bola para jogar contra uma equipa que utilize este sistema (em Portugal, Sporting, B-SAD e Sporting de Braga são os que utilizam mais frequentemente). Decidi então aprofundar este tema, pegando nas palavras de Pepa e em alguns exemplos de análise com vídeo e imagem que descrevam e simplifiquem aquilo que o treinador pacense referiu na entrevista. Escolhi como exemplo a maneira como diferentes equipas abordaram os seus jogos frente ao Sporting, líder da Liga NOS e recente “campeão de inverno”. Basta ligarem o som de cada vídeo, onde abordarei de forma rápida as diferentes formas que Pepa referiu para defender o 3-4-3.

O 3-4-3 descrito em 30 segundos

A grande vantagem do 3-4-3 em organização ofensiva passa pela facilidade na ocupação e exploração de diferentes espaços no campo (largura, profundidade e presença no corredor central). 3 defesas centrais garantem segurança com bola e, teoricamente, superioridade ou igualdade frente aos avançados; dois alas dão largura constante independentemente onde a bola se encontra, e os 3 jogadores da frente ocupam quase sempre o espaço atrás dos médios adversários, variando movimentos de aproximação e de ataque à profundidade.

Como defender frente a um 3-4-3, by Pepa

Primeira forma: “encaixar diretamente neles, como fez o Lask e o Sérgio Conceição agora na Taça da Liga. O Sporting teve dificuldades em ambos os jogos. Não digo que nunca o farei, nunca cuspirei para o ar, mas até agora nunca alterei o sistema das minhas equipas. Atenção, estou a dizer sistema, não é a estratégia. Nunca alterei um sistema tático por causa do adversário.”

Esta é a forma mais recente, e que vimos Porto e Benfica adotarem na final four da Taça da Liga. O objetivo é não estar em desvantagem em nenhuma zona do campo, encaixando na perfeição em cada momento do jogo, tornando a tarefa de quem tem bola mais difícil, obrigando a recuar jogadores para criar superioridade (estando mais longe de baliza) ou a explorar mais vezes as costas da defesa (sendo uma ação bem mais improvável de sucesso que outras).

Segunda forma: “subir muito o bloco, disparar os alas de fora para dentro e condicionar a entrada da bola no Porro e no Nuno Mendes, para que ela não entre tão ‘limpa’. Mas isso também nos obriga a condicionar os médios. De outra forma a bola deles vai dentro para depois ir para fora. Palhinha-Porro, Palhinha-Mendes. Ao fazer isso temos de ter a nossa linha defensiva muito subida, para que o nosso lateral possa cair no lateral deles e a distância não seja muito grande. Tudo isto tem um senão: a profundidade que fica à mercê de uma bola descoberta e de uma bola nas nossas costas. Temos de jogar com o guarda-redes subido e precisamos de laterais muito rápidos. Temos de pesar bem tudo, os prós e os contras”

Nem todas as equipas estão preparadas, nem treinadas, para assumir esta abordagem, mas a pressão de fora para dentro tem ganho destaque nos últimos anos, com exemplo maior do Liverpool de Klopp. Cortar linhas de passe diretas para os alas (os homens livres na pressão), ter os médios e o avançado bem coordenados no espaço central, e a linha defensiva juntamente com o guarda-redes preparados para recuar/avançar na possibilidade de uma bola longa:

Terceira forma: “abdicamos de pressionar os centrais deles, esperamos por eles até uma determinada zona de pressão, baixamos um bocadinho as linhas – não por receio, mas por estratégia – para retirar a profundidade de que gostam e procuram, controlamos a largura porque temos as linhas muito juntas. Ou seja, somos menos pressionantes na primeira fase de construção do Sporting, mas mais pressionantes a partir de uma zona definida anteriormente”

A forma mais comum que vemos no nosso campeonato. Blocos baixos, mais difíceis de desmontar, mas que tornam a tarefa de aproximar a equipa da área contrária também mais complicada pela distância a que se está do meio-campo ofensivo no momento da recuperação de bola. Retiram o espaço entre linhas e nas costas, “oferecem” a bola aos centrais e a partir de uma certa zona, a equipa tem estímulos e comportamentos preparados para tentar ganhar a bola e pressionar o portador.

Como é óbvio, nenhuma destas abordagens é infalível, ou mesmo melhor ou pior que as outras. Tudo depende da equipa que a usa, do contexto do jogo em si e do rigor com que são implementadas durante os 90 minutos. Neste momento ainda existem poucas equipas com rotinas a jogar contra um 3-4-3, mas com o passar do tempo iremos ver cada vez mais e melhores soluções para as parar (com e sem bola, diga-se). O sistema “da moda” veio para ficar?

Os nossos Videos são criados com

Avatar
Sobre RobertPires 55 artigos
Rodrigo Carvalho. 23 anos, experiência como treinador adjunto e analista em equipas séniores em Portugal e nos Estados Unidos. Passou pela Federação de Futebol dos Estados Unidos no departamento de Formação de Treinadores. Em colaboração com a Proscout, trabalhou diretamente com equipas técnicas profissionais e produziu relatórios de jogadores. Podem seguir muito do seu trabalho em @rodrigoccc97 no Twitter.

4 Comentários

  1. Olá!
    Bom post! Bem apanhada a excelente entrevista do Pepa e bem aproveitada para este post e estes exemplos!
    Duas questões:
    1) Na “segunda forma”, e olhando para o exemplo do Paços, não fica a faltar a equipa estar mais subida (tal como Pepa descreve na entrevista)? Por ex. o avançado não limpa o central do meio para orientar jogo para um lado, permitindo o SCP circular por fora, os médios estão muito atrás, os laterais também (permitindo que a bola entre nos alas se linha da frente foi ultrapassada…). Ou seja, neste vídeo vejo relativamente “menos risco” vs o que o Pepa descreveu… é pelo medo do 2×3 lá atrás? E qual o papel do trinco quando se defende 343 com 433?
    2) Um bocado “ao lado”, mas sobre o 343… quais as principais diferenças nas dinâmicas mais normais de um 343 vs 352 (com centro do meio campo em 2-1)? Há (bons) exemplos a jogar 352? Qual a tua opinião?
    Um abraço e obrigado!

    • 1) Acredito que neste caso, o objetivo era mesmo esse: deixar o central do meio sem opções, ir fechando até forçar a uma perda de bola (mesmo sem pressão super ativa do avançado). Acho também que o objetivo passa por ter a bola no corredor central a maior parte do tempo, porque é aí onde o Sporting acaba por se sentir mais desconfortável. Relembrar também que este é apenas um exemplo de uma jogada num jogo, mas sem dúvida que o ideal era haver um pouco mais de pressão e talvez mais risco, dependendo do momento do jogo.

      2) Eu pessoalmente gosto do 3-5-2, e há várias equipas a jogar desta forma ou numa variante destas, se considerarmos o 3-4-1-2 (Inter tem a dupla Lukaku-Lautaro muito bem afinada, por exemplo). As diferenças passam um pouco pelos espaços a explorar, e por uma maior ocupação e preocupação de jogar pelo corredor central. Com 3 médios + 2 avançados no corredor central, acaba por haver mais opções para se jogar de forma apoiada nestas zonas, algo que nem sempre acontece num 3-4-3 puro (não é o caso do Sporting)

      Excelente pergunta! Abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*