“L” de Lille e de Líder – Modelo de Galtier com sotaque português

No ano em que se completam 10 anos desde o último título de campeão nacional (e depois de alguns anos atribulados pelo meio), o Lille lidera o campeonato francês à entrada para a 29ª jornada e fazendo desta disputa uma das mais animadas desde o título monegasco em 2017. Se a mesma se vai concretizar no 4º título da história dos comandados por Christophe Galtier, ninguém sabe. No entanto, deixamos aqui uma análise profunda ao modelo de uma equipa que conta com uma forte presença portuguesa (tanto no plantel como na equipa técnica).

“We have to put everything into it and give our all. Perhaps we won’t manage to do it, because three others want to be champions too. It’s simply great to be here. A lot of players would love that, it rarely comes round in a career.”

Christophe Galtier

Organização Ofensiva

Apesar de apresentar algumas dinâmicas que podem modificar a estrutura, o posicionamento médio calculado dos jogadores do Lille permite caracterizar a base como um 1-4-4-2. A matriz de passes associada demonstra também a capacidade de associação muito forte entre a dupla de médios (ligação mais forte que existe na equipa), essenciais na construção da equipa como será demonstrado mais à frente. Apesar disto, estes funcionam mais como lançadores de um jogo de corredores (ou zona interior próxima ao corredor, os designados half-spaces), zona de chegada preferencial do Lille (ver imagem abaixo).

Em relação aos detalhes do modelo:

  • Estrutura de base em 1-4-4-2 mas que muitas vezes se comporta como um 1-4-2-2-2 com os extremos a ocuparem um posicionamento mais interior e sendo os laterais a proporcionar a largura máxima no jogo.
  • Saída em construção em 2+2 (centrais e médios) no corredor central com os laterais em posicionamento médio, preparando a projeção assim que a primeira linha de pressão seja ultrapassada. Os dois médios jogam baixos e enquadrados de forma a receberem e darem seguimento, com um entendimento muito forte entre si (coordenados nos movimentos diagonais para fugirem a marcações e para se poderem angular bem entre si de forma a manterem-se associados em passe curto).
  • Os extremos, partindo da largura, entram em jogo interior muitas vezes em simultâneo e deixando a largura da equipa a cargo dos laterais. Esse posicionamento permite repovoar o meio-campo devido ao posicionamento baixo dos dois médios e impedindo que a distância intersectorial de linha média e linha avançada não seja enorme. Para além disso, esse posicionamento entre linha defensiva e linha média adversária (zona cinzenta) cria a dúvida seja no central ou no lateral adversário sobre quem deve ativar o encurtamento caso a bola entre, abrindo o espaço central-lateral ou as costas do lateral para que outro jogador (avançado ou lateral) alterne para ataque à profundidade.
  • Avançados que aproveitam estas dinâmicas, colocando muita pressão na linha ofensiva adversária seja pelo aproveitamento destes espaços abertos pelos posicionamentos interiores dos extremos ou alternando para movimentos de apoio para permitir também a rotura dos extremos nas costas do central que os vai encurtar. Caso o extremo em posicionamento interior consiga receber, enquadrar ou conduzir agressivamente para cima da linha defensiva, ambos voltam a ativar a rotura.

Em resumo, a dinâmica principalmente dos quatro da frente implica estar constantemente (e com uma dada intencionalidade) a “jogar o jogo”, ocupando zonas de dúvida para o adversário e aproveitando os espaços que o mesmo deixa ao tentar adaptar-se a esse posicionamento. As capacidades condicionais e técnicas dos mesmos permitem ainda que em transição possam ser muito incisivos, com ataques e contra-ataques rápidos onde costumam ser letais.

*narração de Jorge Maciel, treinador-adjunto do Lille.

Organização Defensiva

Momento do jogo onde a equipa é mais forte, sendo à data a melhor defesa (partilhada) do campeonato francês. Aqui numa estrutura de 1-4-4-2 ainda mais declarada, o modelo assume o conceito de zona pressionante.

  • Avançados pressionam centrais e jogador de suporte em regime de diagonais em pressão + cobertura, tentando impedir esse enquadramento no corredor central. Os médios, dependendo do adversário, podem assumir uma marcação zonal clássica com algumas referências individuais ou entrarem em zona pressionante, encurtando rapidamente à linha de passe mais próxima aquando de bola no corredor.
  • Linha defensiva, normalmente alta (para não abrir em demasia o espaço para a linha média e dar assim alguma liberdade de pressão aos médios) é responsável não só pelo controlo da profundidade como também muitas vezes pelo controlo da largura, sendo muitas vezes o lateral a saltar na pressão ao jogador do corredor, fazendo com que a linha nesse momento esteja muitas vezes em 1+3.

*narração de Jorge Maciel, treinador-adjunto do Lille.

Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 18 artigos
Fábio Baptista. Experiência como analista em equipas de formação e atualmente em contexto de seniores em Portugal, tanto em análise qualitativa como quantitativa, da própria equipa e do adversário. Vive sob o lema: conhecer o jogo, manipular no treino e assim influenciar o rendimento.

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