Sporting CP, o campeão nacional – As ideias, o modelo, os princípios e o título

Passados 19 anos é oficial: o Sporting CP é o novo campeão nacional! Depois de um período conturbado após a invasão de Alcochete, com troca de presidente e sucessivas de treinador, Frederico Varandas fez em 2020 as melhores apostas que poderia fazer: investiu fortemente na competência de Rúben Amorim e na sua equipa técnica (ignorando todas as possíveis polémicas sobre as habilitações do mesmo), reforçou a estrutura do futebol com os elementos certos (Vasco Fernandes ao lado de Hugo Viana) e a constituição do plantel sofreu uma metamorfose com uma enorme aposta nos jovens vindos da formação (gerações 2001/2002) complementados por um leque de jogadores mais experientes, compondo assim a receita ideal para o título. Muito mais se poderia analisar aqui (a recuperação recente do clube é um case study mesmo) mas vamos então debruçar-nos sobre os aspetos táticos da época 2020/2021, com um modelo que marcou claramente uma tendência no futebol português e onde cada vez mais equipas procuram inspiração.

Vamos então iniciar com um pequeno momento “cápsula do tempo” até 2018. Todos os modelos têm origem na conceptualização de uma ideia por parte do treinador e se o modelo de jogo deve ser aberto o suficiente para se adaptar aos diferentes contextos, as ideias são perenizadas pelas vivências de quem imagina o jogar ideal que quer operacionalizar. Recuperamos então alguns momentos do Casa Pia, referentes à primeira metade da época 2018/2019, quando Rúben Amorim, Carlos Fernandes e Adélio Cândido se reuniram pela primeira vez numa equipa técnica de seniores em contexto de CNS e o desafio que deixamos é o seguinte: faça-se o exercício mental de substituir o equipamento casapiano por um em tons de verde e branco e vejamos se algo não se nos vislumbra familiar (fizemos as marcações posicionais mas sem nenhuma nota explicativa para não influenciar). As ideias são perenes, o modelo é aberto, o contexto apenas muda.

Fase Ofensiva

Os mapas de posicionamento médio e de matriz de passes (dados Goalpoint, ver abaixo) geralmente colocam o Sporting num posicionamento base de sistema em organização ofensiva de 1-3-4-3, com a largura máxima a ser dada singularmente pelos alas, com os dois jogadores de apoio ao avançado-centro (neste artigo para efeitos de taxonomia vamos denominá-los de médios ofensivos) a jogarem em corredor central e a grande variação a ocorrer com esse mesmo avançado, ora mais em profundidade ou em apoio consoante as características do jogador em questão (exemplo mais flagrante a dicotomia Paulinho [apoio] vs. Tiago Tomás [profundidade]). Algumas notas sobre aquele que se tornou o sistema da moda em Portugal e as vantagens que oferece: a ocupação racional do espaço permite abrir o jogo em largura máxima apenas com 2 jogadores e sobrepovoando o corredor central com 8 jogadores; colocação de 3 jogadores sobre a linha defensiva em corredor central, pressionando-a pelo aproveitamento dos espaços em contramovimentos; a construção larga com 3 centrais que, pela angulação, abre logo a primeira pressão contrária; a linha de 5 que mesmo em modelos mais agressivos com encurtamentos para fora da linha pode manter a integridade facilmente com 4.

Em relação ao modelo propriamente dito, o Sporting CP apresenta um jogo variado: seja com construção curta para chegada em bloco, seja com a procura de ataque direto à profundidade pelos contramovimentos do trio da frente, seja por transições rápidas em superioridade numérica. Assim sendo, os princípios macro do modelo exigem aos jogadores a capacidade de jogarem o que o jogo lhes está a exigir em cada momento, seja a pausa, a aceleração, a profundidade ou a associação. No que toca aos subprincípios:

  • Fase I (construção) – a saída curta a partir do GR dá-se geralmente em regime de 3+1 ou 3+2 consoante os movimentos diagonais dos médios nas costas da primeira pressão para receberem. A construção dos centrais é de tal forma larga que os alas, para além de estarem em largura máxima, atingem níveis de profundidade que acabam por fixar os marcadores diretos (laterais ou extremos) em posições mais baixas no terreno, retirando números à pressão contrária. As características dos centrais condicionam a forma de criação, com a maioria dos centrais exteriores a serem geralmente muito provocadores com bola (Feddal, Inácio, Reis), atraindo a si a pressão para o espaço aparecer nas zonas dos médios e com um deles (Inácio) a ser particularmente capaz na função de lançador a buscar a profundidade com a qualidade do seu pé esquerdo na execução do passe longo; por outro lado, apesar de Coates em algumas situações acelerar algumas conduções, tanto ele como Neto resguardam-se mais nessa fase. A ligação longa com a referência (Tiago Tomás ou Paulinho) é acompanhada pela subida dos médios lado a lado para segunda bola e simultaneamente dá-se o ataque à profundidade dos médios ofensivos.
  • Fase II (criação) – os desequilíbrios ao bloco contrário dão-se pelo jogo posicional interior e exterior: por fora, os alas dão a largura numa profundidade tal que acabam por igualmente alargar ao bloco adversário, chegando muitas vezes os dois em simultâneo à profundidade; por dentro, dinâmicas do trio da frente sobre a linha defensiva com contramovimentos variados (se um ativa apoio, normalmente os dois restantes ativam rutura) em 1+2, particularmente quando o trio incluía três elementos mais móveis (Nuno Santos, Tiago Tomás, Pote), sendo que a inclusão de Paulinho, mais confortável a baixar em apoio, fazia com que os jogadores que o acompanhavam tivessem que ativar os movimentos de rutura com mais frequência e andassem menos tempo entrelinhas. A identificação destes padrões de jogar em certo momento da época por parte dos adversários fizeram com que surgissem algumas adaptações por necessidade, com a existência de movimentos de apoio mais exagerados dos médios ofensivos até ao espaço dos médios, gerando superioridades de 3v2 aquando das marcações individuais e tendo mesmo surgido em alguns jogos uma variante de 1-3-5-2, com princípios semelhantes mas com um meio-campo reforçado. O equilíbrio defensivo é geralmente dado em regime de 3+1, com os três centrais mais o médio-defensivo, com o central do lado da bola em cobertura ofensiva bem próxima para a eventualidade de ter de encurtar para trancar uma possível transição ofensiva, obrigando o portador a jogar de costas.
  • Fase III (finalização) – a chegada em finalização envolve geralmente o trio da frente e o ala contrário com ocupação racional do espaço da área (1º poste, 2º poste, marca de penalti), ficando geralmente o médio mais criativo da dupla à entrada da área para possível segunda bola. A chegada do ala contrário torna-se ainda mais importante quando um dos médios ofensivos apresenta mais características de busca da profundidade pelo corredor (Nuno Santos, Jovane Cabral) e aparece mais em zona de cruzamento do que de finalização, permitindo assim manter uma presença numérica relevante na área.

Fase Defensiva

Uma das joias do modelo (não fosse a defesa menos batida do campeonato), a estrutura base de organização defensiva implica a inclusão dos alas na linha de 5 e um posicionamento em sistema de 1-5-2-3. Apesar do modelo contemplar essencialmente princípios de uma zona muito pressionante (os subprincípios refletem isso mesmo, lá chegaremos), o facto da variante de 1-3-4-3 ser um sistema posicionalmente simétrico e algumas equipas terem começado a adotar esse mesmo sistema em resposta, em alguns jogos muito específicos foi possível identificar alguns princípios de marcação individual com encaixe quase total. Em relação aos subprincípios:

  • Fase de pressão – a pressão do trio da frente dá-se geralmente ou a 3 de frente ou em 2+1 com inversão consoante se defronta uma saída a 3 ou a 2 com um trinco à frente, obrigando a jogar invariavelmente na largura onde os alas são responsáveis por encurtar agressivamente nos laterais/alas contrários. Os médios geralmente posicionam-se numa primeira fase encostados na referência individual para impedir o jogo de frente dos médios contrários mas com o desenrolar da construção, principalmente com a bola no corredor, assumem os princípios da zona pressionante com movimentos diagonais de pressão (médio próximo) + cobertura à frente da linha defensiva, protegendo assim o corredor central e sufocando o corredor da bola. Existiram algumas variantes ao longo da época, principalmente na pressão do corredor: a adoção da estrutura em 5-3-2 fez com que a pressão na largura fosse realizada pelos interiores e não pelos alas; no jogo do Dragão, numa postura mais conservadora, foram os médios ofensivos a encurtar na largura sobre os laterais, com os alas a ficarem mais resguardados na linha de 5 devido aos possíveis movimentos de ataque à profundidade nas suas costas em espaço ala-central.
  • Linha defensiva – a linha de 5 com princípios bem definidos no que toca ao controlo da profundidade, respondendo aos indicadores da bola e do portador para realizar a basculação vertical com deslocamento lateral do tipo deslizante agressivo (Coates é exímio na execução deste padrão motor e lidera a linha pelo exemplo). Uma vez que a linha responde de forma muito agressiva a determinados indicadores de pressão (encurtamentos nos corredores por parte dos alas, dos centrais a movimentos de apoio à frente da defesa ou disputa de bola área), a linha muitas vezes encontra-se em regime de 1+4, realizando basculação horizontal do quarteto no caso de pressão ao corredor ou baixando e orientando os apoios para a profundidade em caso de encurtamento de um central à frente da linha. O próximo controlo de cruzamento é feito nesse regime, com 4 a reduzirem distâncias para a disputa e 1 a encurtar no cruzamento, com o médio próximo a vigiar o espaço ala-central que abriu e o outro médio à entrada.

A figura do ano – Pedro Gonçalves

Se a época do Sporting fica marcada por um coletivo que se soube superar em diversos momentos, não podemos deixar de dar destaque às individualidades que levaram a equipa ao título. Numa equipa que ainda teve em Coates o grande líder da linha defensiva e Palhinha como patrão do meio-campo, o destaque do ano vai para Pedro Gonçalves. O jovem internacional sub-21 chegou a Alvalade vindo de Famalicão com a sombra de Bruno Fernandes ainda algo presente e não desiludiu: (muitos) golos decisivos, várias assistências e assumindo-se como o criativo de maior regularidade (seja em assiduidade ou exibicional) no onze de Rúben Amorim.

Olhando para a individualidade de Pote, para tal sucesso individual contribuíram:

  • O superior conhecimento do jogo – atuando normalmente como médio-ofensivo de suporte ao avançado (ver mapa de valor acima), as vivências que já teve permitem-lhe reconhecer no jogo os padrões de espaço que solicitam um movimento de apoio para gerar superioridades no miolo ou de rutura para procurar nas costas em resposta a contramovimentos dos colegas – e estamos apenas a falar sem bola! Com bola a execução acompanha a tomada de decisão sobre acelerar ou pausar o jogo, resolver as superioridades e inferioridades do jogo da melhor forma.
  • A capacidade de finalização implacável – algumas questões referidas acima (a inteligência de movimentação no último terço) fazem com que invariavelmente apareça em zonas favoráveis para finalizar, onde é mortífero – o padrão motor no gesto técnico do remate dá-lhe possibilidades para finalizar de todas as formas e feitios (seja 1v0+GR no espaço ou perto da baliza, remate exterior, chegada para cruzamento atrasado, execuções pouco ortodoxas em ângulos desfavoráveis, viu-se golos de todos os feitios).
  • A relação com bola que cria e recria – apesar de tudo a sua casa tática continua a ser a zona cinzenta à frente da linha defensiva contrária onde procura jogo para se enquadrar e definir virado para a mesma e só com a relação particular que tem com bola pode executar situações curtas de drible/finta/simulação, definir com tabelas e associações próximas e quebrar linhas em progressão em espaços curtos com mudanças de velocidade repentinas.

Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 59 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

5 Comentários

  1. Este ano o Sporting foi campeão porque só teve competição interna e porque o Benfica com 100 milhões gastos conseguiu a proeza de não ganhar um campeonato mais do que fácil dada a diferentes de investimento, isto sim é um case study

  2. UAU Temos aqui o supra-sumo do futebol! Caraças! É a equipa perfeita! Uaué! Jesus Cristo voltou na era da estratégia! BAHAHA

    (Sem pontos fracos, é tudo superlativo, maravilhoso, fantástico, imperdível, adjectivamente carregado, que dá origem a um cagalhão total em forma de texto.)

    Parabéns ao Sporting, merecido campeão na base de uma defesa quase inviolável e num jogar banal ou próximo disso em quase tudo o resto. Se isto é a moda então estamos fodidos.

    Vómitos para o autor desta fantochada e para quem lhe dá rédea solta. Texto panfletário e de baixo nível, na linha de outras bostas que agora – quer dizer, há uns anos – surgem aqui amiúde.

    • O Edson e um daqueles que comenta aqui com muita frequencia quando ha posts a elogiar o benfica e nos outros so escreve porcaria 🙂
      Obvio que quando se ganha, tudo e perfeito, e quando se perde tudo e uma porcaria. O Sporting foi claramente a melhor equipa do campeonato e a mais regular a todos os niveis. Um campeao justo, com um treinador que trouxe uma ideia diferente para o campeonato.

      A unica bosta que identifiquei aqui foi mesmo os 2 comentarios presentes.

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