Curtas Benfica vs PSV

 O futebol é por definição um jogo imprevisível mas de vez em quando há encaixes tácticos que parecem mesmo “feitinhos para dar” como na canção.

Para quem já tinha visto o PSV  que defende numa espécie de 442 quando o seu bloco está médio era observável o espaço entre os médios centro e alas. Com a apetência dos centrais e Weigl para a realização de passes verticais a probabilidade dos médios ofensivos receberem entre linhas com espaço anormal para rodar e conduzir a este nível era grande. O Benfica nos primeiros minutos somou ligações deste tipo e com a ajuda de Yaremchuck chegou ao golo de forma “natural”.

A partir daqui o jogo muda de figura. O Benfica baixa declaradamente para bloco médio em 541. Duas linhas muito juntas e alas por dentro com especiais preocupações em fechar espaço interior e não deixar a bola entrar nas suas costas com distâncias reduzidas para os médios. 

Tudo isto é consequência da forma como  o PSV ataca. Os holandeses colocam os alas muito por dentro e fazem bastante apelo ao passe vertical para a zona entre linhas do adversário, deixando normalmente a largura para somente um jogador (eventualmente 2×1 se colega aparecer de trás). 

Ainda que com maior posse de bola o PSV não chegava ao último terço adversário. Situação que mudou sensivelmente a partir dos 30 minutos. As duas linhas compactas do Benfica são óptimas para prevenir o jogo entre linhas mas não permitem uma constante pressão ao portador da bola, aproveitada pelos jogadores de trás para lançar bolas para as costas da defesa encarnada. Avançaram no campo, nomeadamente através de 1×1 à direita no duelo Madueke vs Grimaldo mas, seja no controlo do cruzamento seja a forçar o extremo a utilizar o pé direito (é esquerdino) os encarnados controlaram  e acabaram até por chegar ao 2-0 de bola parada.

Na 1ª parte os extremos do PSV saiam na pressão aos centrais na fase inicial da construção, o lateral encarava com o ala e era um dos centrais que saia na marcação ao médio ofensivo. Estratégia de risco mas bem sucedida. Na 2ª parte o Benfica respondeu bem, colocou mais vezes Rafa e Pizzi à largura criando indefinição na marcação, porque os centrais ficavam na dúvida se iam à linha lateral, e a melhor oportunidade no segundo tempo surgiu no inicio desta forma.

Logo a seguir o golo do PSV. Um passe para a “zona de ouro” da primeira parte mas desta vez o lateral Max estava por dentro, encurtou distâncias e lançou o contra-ataque que acabou na baliza de Vlachodimos. 

No binómio pressionar a bola-proteger o corredor central, o Benfica nunca se conseguiu definir. O PSV também apareceu com mais variabilidade, posses mais longas, não tão dependentes do passe vertical, Gakpo à esquerda variava entre aparecer fora ou dentro. Quando pressionava a linha média do Benfica era atraída, a defensiva sempre muito conservadora até porque o adversário força muito as rupturas, e passou a existir espaço nas suas costas.

Na 2ª parte valeu ao Benfica  Vlachodimos que fez um grande jogo e a habitual competência das equipas de JJ no que à protecção da baliza diz respeito pela linha defensiva. Veremos como o PSV irá tentar alterar esta situação. Hoje foi o que faltou, e um pouco mais de eficácia, para levar um resultado positivo da Luz.

Eliminatória equilibrada como o previsto com o PSV a exibir-se muito bem. O Benfica terá de estar no seu melhor para garantir a Champions na Holanda

Sobre Lahm 33 artigos
De sua graça Diogo Laranjeira é treinador desde 2010 tendo passado por quase todos os escalões e níveis competitivos. Paralelamente realiza análise de jogo tentado observar tendências e novas ideias que surgem no futebol. Escreve para o Lateral Esquerdo desde 2019. Para contacto segundabola2012@gmail.com

4 Comentários

  1. Boa análise, quer dizer, também vi as coisas desta forma.

    Na segunda parte o PSV esteve muito bem, grande atitude, têm jogadores de muita qualidade nas alas, sobretudo Gakpo e Madueke (seriam titulares de caras no Benfica), com o plus “Jonas” Zahavi 😀 e Gotze. As bolas longas/variações que referiste permitiram que eles jogassem por dentro e por fora e contornassem a protecção do Benfica ao duelo Grimaldo-Madueke – que foi bué inteligente durante 45 minutos, sempre a empurrá-lo para o pé direito – com o lateral a apoiar para fazer o 2×1. Também me parece excelente a forma como puseram em causa o hxh do Benfica na pressão defensiva, levaram constantemente os dois médios para fora do corredor central e o terceiro homem aparecia nessa zona livre e perigosa para receber e enquadrar facilmente.

    Nesta fase, o Benfica foi péssimo com bola. Vai ter de melhorar, se não vão ser 90 minutos de puro masoquismo. Precipitados, com ânsia de acelerar a todo o momento (típico das equipas do JJ), sem encontrar as melhores rotas seja para controlar ou ferir, e havia algumas disponíveis! Porque o adversário arrisca, mete muitos na frente, pressiona lá em cima dia sim, dia não e isto abre sempre algumas possibilidades.

    Ainda por cima, o PSV não tem uma grande organização defensiva – pressionam bem mas saltando-a… – e os jogadores com menos qualidade estão naquele sector.

    Parece-me uma segunda-mão totalmente imprevisível. Tanto pode dar para o PSV engatar, com o Benfica num dia mau a garantir uma viagem, de regresso a Lisboa, com o saco cheio. Como pode acontecer um Benfica com a lição bem estudada, a fechar bem a baliza e a desmoralizá-los com bola. Vai ser um jogo giro.

  2. Viva, Diogo.

    Na sua opinião, há uma grande diferença de qualidade técnica e/ou táctica entre as equipas? Na primeira parte, pareceu-me que o Benfica tinha tudo controlado, mas, na segunda, sobretudo a partir do golo, os jogadores do PSV pareciam ser muito superiores (sobretudo o Gatko, que entrava por ali dentro como faca por manteiga). A sensação com que fiquei foi que isto não augura nada de bom para uma fase de grupos da Champions, sobretudo se o grupo for complicado. O que ainda não consegui perceber é a que é que se deve esta incapacidade do Benfica de fazer bons resultados europeus, ou, pelo menos, de conseguir acabar um jogo sem o credo na boca (convenhamos: o que você diz na crónica é também a opinião de muitos adeptos, que é a de que será muito difícil passar na Holanda).

    Obrigado e cumprimentos,
    JAs

    • Olá e obrigado pelo comentário.

      São duas equipas diferentes mas próximas em termos de qualidade técnica. Creio que, na 2ª parte o Benfica foi um pouco surpreendido: as equipas de Schmidt não costumam fazer posses tão longas nem explorar determinados espaços. Referiste, e bem, o Gatko. Aí na minha opinião, faltou a JM e Weigl juntar mais cedo à linha defensiva. Diria que dificilmente serão os dois titulares na Holanda.

      Apesar de ter uma pressão na 1ª fase de construção bem estruturada o PSV a defender no seu meio-campo tem dificuldades e arrisca muito. Dificilmente a linha defensiva não ficará exposta…é preciso é lá chegar e o Benfica tem naturalmente qualidade para isso.

      Sem surpresa a eliminatória é equilibrada. Não vejo nenhum favorito e o mesmo seria se o PSV tivesse ganho 2-1 na Holanda e a 2ª mão fosse na Luz

      Um abraço

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