Bem-vindos ao Jardim da Criatividade

Ronaldinho Gaúcho a driblar

Ele é pergunta e resposta. Enigma e solução. O caos e a desordem, que tentamos determinar. Bem-vindos ao… Jogo: o jardim da criatividade.

Tão exaltada, quanto esquecida – é este o posicionamento da criatividade na grande maioria das sessões de treino por esse mundo fora. Todos assumem, sem hesitações, a sua importância na resolução dos problemas que o jogo de futebol propõe a todo e qualquer instante. Todavia, é um paradoxo caricato o facto de, num relvado de 90 por 120, haver tão pouco espaço para que a mesma possa florir.

O jogo de futebol nada mais é que um sistema aberto, no qual as partes (individualidades) se inter-relacionam e se relacionam com o meio ambiente, fazendo emergir uma dinâmica num todo funcional (Gomes, 2008). Ora, se derrubarmos a primeira peça de dominó de uma fila, sabemos que a 20ª acabará por cair; ao invés, a partir do momento em que se dá o pontapé de saída num jogo de futebol, o caos instala-se e torna-se impossível prever o que acontecerá daí em diante – precisamente porque as propriedades emergentes do sistema surgem duma causalidade não linear, tornando o jogo de futebol um meio complexo, aleatório e imprevisível (Oliveira, 2004).

Maciel (2011) afirma que “os treinadores querem sempre tudo muito direitinho, têm a vertigem pelo controlo pleno das situações de treino, querem ser deuses de Laplace quando na verdade a essência do Jogo não é essa. O Jogo tem erro, tem ruído, tem inopinado e se treinarmos tentando diminuir isto ao máximo estamos a esterilizar uma realidade que não pode ser colocada num tubo de ensaio. Se vivido in vitro os jogadores errarão menos certamente, mas tornar-se-ão muito menos criativos e sucumbirão perante as novidades e imponderáveis que emergem da estrutura acontecimental do jogo”. Oliveira (2004) acrescenta ainda que, ao tentar reduzir a complexidade do jogo de futebol, a variedade de interações tende a desaparecer.

Posto isto, parece-me que nós, treinadores, devemos não só conviver com essa complexidade e aleatoriedade do jogo de futebol, mas também aprender a extrair da mesma a capacidade que esta confere aos nossos jogadores de criar soluções para todos os problemas do caos. Evitámos morrer da doença (desordem), mas não podemos correr o risco de morrer da cura (necessidade exagerada de controlo – ordem).

Os professores vão acabar por desaparecer. Se é para debitar matéria, empresas, universidades, despedem professores e contratam robôs. Qualquer pessoa substitui o professor “auleiro”.

José Pacheco, em entrevista ao Jornal i

Dum jogar sem qualquer orientação, emergirá o caos; dum jogar demasiado controlado, resultará a robotização. Tão paradoxal quanto esta afirmação, é a célebre máxima “ser livre para agir, sem agir livremente”, no qual o jogar que se pretende apresenta-se como um “pano de fundo” (Oliveira et al., 2006).

Ao abrir as portas do nosso jogar para a complexidade e aleatoriedade do jogo, estamos também a permitir a evolução contínua da “equipa, dos jogadores, do treinador e do [modelo de] jogo” (Oliveira, 2006). Seria, portanto, um desperdício inibir esse “potencial criativo”, já que também enriquece o desenvolvimento do jogo (Frade, 2003). O modelo deverá, portanto, nascer duma “criação dialética entre treinador e jogadores” (Oliveira, 2006).

Quando nos envolvemos em algo que é nossa vocação natural, o nosso trabalho assume a qualidade de um jogo e é o jogo que estimula a criatividade.

Linda Naiman

Como já foi possível aferir, o caos do jogo traz-nos uma infinidade de problemas. O que significa que, para tal, terá forçosamente de haver uma infinidade de soluções. Posto isto, Oliveira et al. (2006) corroboram com esta visão, afirmando que os exercícios deverão conter, com maior ou menor complexidade, o plano do aleatório, do contingente, do imprevisível”. Logo, o exercício de treino que poderá dotar os jogadores de maior conhecimento (tático) do jogo, neste processo ensino-aprendizagem-treino, é nada mais, nada menos, que… o próprio Jogo (Greco, 1998) – é esse o mais fértil jardim que a criatividade pode encontrar, de forma a crescer e a ser estimulada em harmonia! De ressalvar, apenas, que cabe ao treinador criar um contexto para que este exercício propensie o surgimento de ações congruentes, não com o jogo de futebol no geral, mas com a sua ideia de jogo (!), havendo espaço para um… caos determinístico.

Conversa com Prof. Humberto Costa

Romper com a lógica meramente funcionalista, binária e determinista com que se encara o conteúdo desportivo permite, então, enriquecê-lo com elementos e significados mais profundos, como a diversidade de formas que o gesto desportivo pode assumir, a criatividade, a singularidade, o prazer, a fruição, o desafio, a descoberta.

Luísa Gagliardini Costa

O treino através de situações jogadas dá origem a uma modelação sistémica, que abrange aspetos de ordem tática, técnica, física e psicológica, sendo estes indissociáveis ou passíveis de serem reduzidos (isolados) (Faria, 1999, p. 36). Uma dos exemplos mais flagrantes do “desabrochar” da criatividade, concretizado em gesto técnico, é a trivela: fosse Ricardo Quaresma alvo duma “padronização” e, hoje em dia, não teríamos o privilégio de assistir aos seus famosos cruzamentos (e belos, diga-se de passagem… mas deixemos o conceito de estética aplicada ao desporto para outro artigo!).

Segundo Schöller (2021), a repetição de gestos técnicos “é um dos maiores erros dos treinadores”. O mentor de Klopp e Tuchel diz-nos que a diferença entre cada repetição é mínima, pelo que não prepara os jogadores para todos os “dilemas novos […], variedade de situações, de contactos, de forças, energias, momentos, pressões”, no fundo, para o “irrepetível”. Em entrevista, o professor alemão dá a conhecer a conclusão dum estudo que realizou:

Verificámos que, se propusermos a um grupo de 30 pessoas um conjunto de 4 a 6 exercícios repetidos muitas vezes, apenas de 4 a 5 atletas evoluirão num determinado gesto, enquanto os restantes irão tornar-se mais iguais, sem evolução no desempenho. Se, no entanto, oferecermos ao mesmo grupo 60 exercícios diferentes, todos os elementos vão evoluir, porque a probabilidade de aplicar um exercício que seja vantajoso para todos é maior.

Wolfgang Schöller, em entrevista a A Bola

Além de prazeroso e puro, o melhor caminho para a exercitação do Jogo de Futebol está… no Jogo de Futebol! Os ideais cartesianos e a necessidade de controlo da desordem por parte do ser humano, bem como o sentimento “industrial” que hoje impera, assente na seriação e robotização, inibem, cada vez mais, as manifestações de criatividade que nos distinguem! No futebol, urge cultivar essa tão bonita flor, que acha na liberdade do Jogo o seu perfeito jardim.

Imaginação é mais importante que conhecimento.

Albert Einstein

Bibliografia

Costa, L. G. (2015). Physical Education and Aesthetic-Ethical Education, Comprehensive analysis based on the contribution of teachers and researchers in the fields of aesthetics, ethics, sport sciences and physical education. Porto: Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.

Costa, H. (13 de Maio de 2020). Conversa com Prof. Humberto Costa. (F. Albuquerque, & Á. Alves, Entrevistadores)

Faria, R. (1999). “Periodização Táctica”. Um Imperativo Conceptometodológico do Rendimento Superior em Futebol. Dissertação de Licenciatura. Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto. Porto.

Gomes, M. (3 de Dezembro de 2011). Entrevista a Marisa Silva Gomes. (J. B. Tobar, Entrevistador)

Greco, J. P. (1998). Revisão da metodologia aplicada ao ensino-aprendizagem dos jogos esportivos coletivos. In J. P. Greco (Ed.), Iniciação Esportiva Universal. Metodologia de iniciação desportiva na escola e no clube – 2 (pp. 39-56). Belo Horizonte: Editora UFMG

Maciel, J. (15 de Setembro de 2011). Entrevista de Luís Esteves a Jorge Maciel. (L. Esteves, Entrevistador)

Martins, F. (2003). A “Periodização Táctica” segundo Vítor Frade: Mais do que um conceito, uma forma de estar e de reflectir o futebol. Dissertação de Licenciatura. Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto. Porto.

Pacheco, J. (10 de Setembro de 2021). “Se a escola não mudar os professores vão ser substituídos por robôs”. (M. F. Reis, Entrevistador)

Oliveira, B. A. (2006). Mourinho: Porquê Tantas Vitórias? Lisboa: Gradiva.

Oliveira, J. G. (2004). Dissertação de José Guilherme Oliveira – Conhecimento Específico em Futebol – Contributos para a definição de uma matriz dinâmica do processo ensino-aprendizagem/treino do Jogo. Porto: Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.

Oliveira, J. G. (27 de Janeiro de 2006). Entrevista realizada ao Prof. José Guilherme Oliveira. (M. G. Silva, Entrevistador)

Schöller, W. (3 de Dezembro de 2016). Wolfgang Schoeller, o professor do caos. 24-25. (M. C. Pereira, Entrevistador)

Sobre Yaya Touré 30 artigos
Amante do treino. Pensador do jogo. 💡

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*