Distâncias, superioridades e controlo do espaço: Klopp vs Pep, o duelo dos melhores.

No último fim-de-semana tivemos um eletrizante Liverpool – Manchester City que terminou 2-2 com duas partes bem distintas: uma com superioridade da posse de bola e controlo dos espaços entre linhas do City, e outra onde a pressão e ritmo do Liverpool dominaram largos períodos da segunda parte. Com dois treinadores geniais nos bancos de suplentes, o jogo ficou marcado, mais uma vez, por detalhes e reações às estratégias do adversário. Pep Guaridola preparou um onze sem avançado, onde Grealish ocupou muitas vezes esses espaços mas a cair muito entre linhas nas costas de Fabinho, tendo sempre Phil Foden e Gabriel Jesus bem abertos para condicionar os laterais do Liverpool. Foi assim que, com Rodri e Bernardo mais centrais, o City foi ganhando algumas vantagens com bola. Do lado do Liverpool, a pressão habitual de fora para dentro e com os médios a defender a largura não correu bem de início: os laterais eram fixados por Foden e Gabriel Jesus, enquanto Curtis Jones e Henderson tinham Rodri e Bernardo Silva à sua frente, mas De Bruyne e Grealish nas suas costas.

Construindo com 3 defesas, o City teve muito sucesso a encontrar jogadores entre linhas, quase sempre através de passes pelo ar por cima da pressão do Liverpool, onde o City estava constantemente com vantagens numéricas (3v2) contra o lateral do Liverpool e um dos médios ou defesas centrais (como na imagem em cima). O posicionamento de Diogo Jota na frente de ataque nem sempre era o ideal para cortar a linha de passe para Rodri, e a falta de pressão na bola junto com as largas distancias entre setores dos homens de Klopp facilitou bastante o trabalho do City, que acabou a primeira parte com quatro claras situações de golo, mas sem conseguir marcar. “Estávamos a pressionar mal e sem confiança para saltar na bola porque estávamos muito longe uns dos outros, contra uma equipa muito forte e com muita qualidade como o City torna-se difícil controlar o jogo e pressionar assim” disse Klopp no final do jogo. Vários exemplos do que se passou na primeira parte:

Como referi no início, neste jogo estávamos perante os dois treinadores que considero os melhores do Mundo já há alguns anos, e por isso o intervalo e a comunicação com os jogadores ganha um papel ainda mais importante em jogos deste nível. Apercebendo-se do que estava a correr menos bem e do controlo do City na primeira parte, Klopp e a sua equipa técnica ajustaram a pressão do Liverpool, deram confiança aos jogadores para saltarem linhas de pressão e uma melhor “distribuição” das peças no campo fez com que os Reds entrassem bem melhor no jogo. Mais juntos, a ocupar melhor os espaços que o City estava a atacar e sabendo que não existia grande ameaça vertical por parte de Grealish (falso avançado), os centrais do Liverpool começaram a acompanhar De Bruyne e Grealish entre linhas, os laterais subiam também em caso de bolas longas, e o City teve muito menos espaço e superioridades do que na primeira parte.

O posicionamento de Jota foi ligeiramente mais recuado, Curtis Jones e Henderson estavam um pouco mais abertos do que na primeira parte para igualar os números do City na largura, e Milner e Robertson sentiam-se mais confortáveis para pressionar mais avançados no terreno. Ajustes, sucesso, confiança e controlo do jogo, foi assim que o Liverpool chegou ao primeiro golo através da sua pressão e, claro, pela qualidade das suas individualidades com bola. A segunda parte foi menos pensada por parte do City, mais dominada numa vertente física e pressionante do Liverpool, tornando o jogo mais confortável para os homens de Klopp:

Qualidade individual, qualidade tática, qualidade dos treinadores, ritmo, intensidade, excelentes protagonistas e a prova de que o Liverpool-City continua a ser o melhor jogo do Mundo atualmente. No final do jogo, tivemos direito a um abraço sentido entre Klopp e Guardiola, quase a reconhecerem o espetáculo incrível que as suas equipas deram durante os 90 minutos. Deixo também uma flash interview de Klopp que mostra que a comunicação para o exterior também pode ter conteúdo técnico e sobre o que realmente aconteceu durante o jogo, ao contrário dos discursos censurados e previsíveis que vemos tantas vezes no final dos jogos. Um espetáculo antes, durante, e depois do jogo, dentro e fora do campo. O duelo dos melhores:

Sobre RobertPires 78 artigos
Rodrigo Carvalho. 23 anos, experiência como treinador adjunto e analista em equipas séniores em Portugal e nos Estados Unidos. Passou pela Federação de Futebol dos Estados Unidos no departamento de Formação de Treinadores. Em colaboração com a Proscout, trabalhou diretamente com equipas técnicas profissionais e produziu relatórios de jogadores. Podem seguir muito do seu trabalho em @rodrigoccc97 no Twitter.

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