Guardiola e o princípio da mobilidade – mover a bola, o jogador e o jogo do futuro

Apesar dos modelos de jogo apresentarem em si princípios orientadores nos diferentes momentos do jogo (que derivam diretamente daquilo que é a ideia e visão do treinador para o posicionamento da equipa nesses mesmos momentos), o próprio jogo (como modalidade) encerra em si princípios especificadores, das ações defensivas e ofensivas, como padrão de inter-relação entre os elementos de uma mesma equipa na gestão das adversidades do jogo. Um desses mesmos princípios específicos, na vertente ofensiva, é o princípio da mobilidade.

Este princípio determina que uma vez que o jogador com bola tenha apoio para a procura de soluções para o jogo da equipa, os jogadores não diretamente implicados nessa ação poderão assumir comportamentos de mobilidade a fim de criar condições para a obtenção dos objetivos momentâneos com vista aos objetivos colectivos (Queiroz, 1983, Garganta 1998, Castelo, 1996), podendo isso significar novas linhas de passe e/ou criação de novos espaços, com repercussões tanto em largura como em profundidade. A mobilidade consubstancia um conjunto de comportamentos individuais e colectivos que visam a superiorização sobre o adversário, procurando tirar partido disso para concretizar em golos a instabilidade do rival, muitas vezes momentânea (Castelo, 1994).

Com o aprimorar em pormenor das estratégias defensivas (potenciado ainda pelo advento da análise de adversário com um encaixe individual crescente) e pela dificuldade que, já por si, o ataque encerra perante uma maior simplicidade das tarefas defensivas, fundamentalmente a nível técnico, alguns treinadores já olham para o princípio supracitado como a principal solução para contrariar a oposição. Jorge Jesus, por exemplo, já por diversas vezes referiu que as equipas no futuro vão adotar múltiplos posicionamentos durante o jogo e que o próprio jogador do futuro será aquele que, dentro do mesmo jogo, consegue ocupar diferentes posições e desempenhar diferentes tarefas. No rescaldo do último jogo em Old Trafford, Pep Guardiola teceu um comentário que teve tanto de simples como de revelador sobre como o catalão integra este princípio na sua modelação:

“The move is the ball, everyone has to be in their position. When you move much, not good. The ball comes where we are.”

Pep Guardiola

A verdade é que a estrutura dos citizens nas diferentes fases da sua organização ofensiva já é relativamente conhecida: saída curta em 2+1 com os dois centrais e o médio defensivo numa linha mais à frente, laterais a assumirem um posicionamento mais interior, largura do jogo dada pelos extremos que se colocam em largura e profundidade máxima, médios interiores num posicionamento alto nas costas dos médios adversários e dinâmica de “falso 9” com o ponta. Agora, será que a partir daqui a dinâmicas do modelo exigem uma movimentação assim tão divergente da estrutura base? Para além do movimento do lateral para construir ao lado do 6 e dos movimentos do ponta entrelinhas para criar superioridades locais no corredor central, os restantes posicionamentos não se alteram significativamente à escala macro da estrutura (não incluímos assim, por exemplo, os movimentos de rutura dos interiores entre central-lateral e o ataque às zonas de finalização – que jogadores chegam e que zonas ocupam). Isto fica sumariamente exemplificado em vídeo nalgumas das posses mais longas que o City foi tendo durante o jogo:

A reflexão que se coloca é: está (ou deve) o jogo caminhar no sentido deste princípio específico do jogo se tornar cada vez mais um supra-princípio dos modelos com equipas a tentar desmontar as estruturas defensivas essencialmente através de uma mobilidade permanente e divergente ao ponto da estrutura base se encerrar em si mesmo apenas como uma base ou a mobilidade em excesso tenderá sempre para um certo caos (perda de referências posicionais e da tarefa) no jogo ofensivo, devendo a estrutura base permanecer como o principal condutor na progressão pelas diferentes fases (construção, criação, finalização)?

Se considerarmos o modelo como um sistema, a entropia do sistema pressupõe a desordem máxima a caminho de um estado estável estacionário, ou seja, da desordem nasce a ordem e assim consequentemente a organização, que fará aumentar a ordem à medida que a organização se impõe; contudo, a organização tem princípios de ordem que só ocorrem por interações que, probabilisticamente, trazem desordem. Assim, o caos acaba por se definir como o meio essencial a que a um nível de organização se conduza em direção à grande finalidade da equipa, como seja a superioridade da sua forma de jogar e se essa finalidade é um jogar o mais adaptado possível às contingências impostas pela realidade de confronto, então a desordem torna-se ainda mais essencial a fim de trazer adaptabilidade do sistema ao envolvimento. O que é necessário então é um equilíbrio entre estas duas visões: uma base de organização bem definida capaz de, retroativamente, responder em mobilidade racional às características do confronto.

Castelo (1996) documenta este equilíbrio, aos enunciar estes 2 princípios gerais:

  • Rotura da organização da equipa adversária: procurar desequilibrar ou manter o desequilíbrio do adversário, através da variabilidade do jogo, “arrastamento” de jogadores de zonas fulcrais do terreno de jogo para o sucesso da finalização, mantendo a posse da bola.
  • Estabilidade da organização da própria equipa: ocupação racional e equilibrada do terreno de jogo a fim de permitir a manutenção de referências para a continuidade do momento ofensivo.

Tudo isto só é possível através de metodologias de treino que condicionem os jogadores em torno do colega em posse a moverem-se de forma racional (e em estrutura) de acordo com binómio espaço/oposição. Tal pode ser atingido através de exercícios que promovam a manutenção da posse de bola em desigualdade numérica (para conduzir o exercício para a procura do jogador livre e uma atitude móvel dinâmica dos jogadores) mas com a inclusão de uma das linhas de força do jogo de futebol e que confere ao próprio jogo um sentido direcional: a baliza, que faz com que os jogadores se movem em função de si para o objetivo basilar do jogo.

Sobre Juan Román Riquelme 75 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*