Nani, Salvio e Gaitán explicado para miúdos

– Maldini, porque é que o Nani esteve oito anos num clube a lutar por Ligas dos Campeões e o Salvio no final de cada uma das épocas na Liga Espanhola, numa equipa que na altura era de Liga Europa, foi despachado, se cá em Portugal eu nem consigo ver muitas diferenças entre eles?
– Porque o Nani é top mundial e o Salvio é apenas top de Liga Portuguesa. Tu não consegues ver diferenças entre eles porque isto nota-se naquilo que tu não dominas. Por isso não percebes. O Nani joga com o cérebro. Analisa o contexto, e decide em função dele. Tem mil soluções diferentes. Sabe quando segurar, ir para cima, soltar ou prender. O Sálvio vai sempre para cima mesmo que esteja em 1×3. Quando me falas do impacto que o Salvio não teve numa Liga mais forte, a razão é precisamente essa. Ele não usa a massa cinzenta e só tem uma solução. Ir para cima. É top na nossa liga porque enfrenta jogadores fracos e a sua percentagem de sucesso talvez acabe por ser compensadora. Mas se reparares sempre que no Benfica joga contra melhores equipas, melhores adversários ele é sempre péssimo. Recordas-te de algum bom jogo contra o FC Porto enfrentando um jogador fisicamente do seu nível como Alex Sandro? ou nas competições europeias? Claro que não. Porque ele só tem aquilo para dar. É forçar a jogada individual. Quando apanha adversários fisicamente ao seu nível o número de perdas é ainda maior! Sendo que já nem o coelhinho tira da cartola para as compensar. Agora imagina-o a jogar numa Liga onde todos os fins de semana os adversários são muito fortes. Pois, é uma fonte de problemas as transições defensivas a que força a equipa, para além de não criar nada, porque o insucesso no lance individual é gritante. O Nani não. O Nani é top. Joga o que o jogo lhe dá. E quando parece apagado é porque os adversários lhe sabem fechar o espaço e ele faz a bola rodar por espaços mais livres. Não força o que lhe dará insucesso. Mesmo sendo em criatividade e níveis técnicos bem superior ao argentino. Para ti está apagado individualmente porque não partiu os adversários, mas colectivamente se calhar deu coisas boas à equipa fazendo a bola entrar noutros espaços. Revê o jogo na Luz, por exemplo. Não perdeu uma bola e quando surgiu o momento, colocou o Slimani na cara do Artur. Foi uma em um. É por isso que provavelmente no final da época estará de regresso ao United para o seu 9º ano e o Salvio nem dois consecutivos conseguiu fazer na Liga Espanhola.
– Maldini, mas eu lembro-me que consideraste o Nani o melhor extremo em Portugal. Estás a ignorar o Gaitán. Deliras com as cuecas do Nani, mas viste ontem o Gaitán?
– O Gaitán é top. E recordo que já fiz muitos posts com ele e com o Enzo. Não podemos de forma alguma colocar o Gaitán no lote do Salvio. Tu avalias os jogadores pelo jogo de cabeça, drible, pé direito, pé esquerdo, velocidade e força. Eu não. Eu pego nos momentos e nas fases do jogo e vejo o que rende cada um deles. Portanto independentemente das capacidades individuais de cada um deles, eu olho para o Gaitán e vejo uma classe incrível. Um jogador fabuloso na criação. Na construção cada vez mais criterioso e com maior qualidade, mas não deixo de sentir que volta e meia pode haver ali uma perda por irresponsabilidade ou excesso de confiança, e na finalização muito banal para o poder incluir no top mundial. Sai com uma qualidade tremenda nas transições, mas sinto-o a desperdiçar ainda muito lance que o top dos tops não desperdiça. Adoro vê-lo em organização. Tem uma relação com bola e criatividade fantástica. E aqui Nani não o consegue acompanhar. Sobretudo na criatividade. Mas o português é mais forte na construção. Cria com a mesma facilidade. Menos forte em organização, mas mais forte na transição. E sobretudo é muito mais apto na finalização que o argentino. Portanto, sim, eu considero o Nani o melhor em Portugal. Mas devo confessar que de uma forma bastante simplista o Gaitán está muito próximo do seu nível, mas perde na finalização. E também me parece que ainda que seja hoje um jogador totalmente diferente do que quando chegou, continua mais susceptível às perdas que o Nani.

– Eu confesso, que me fez confusão os teus prontos elogios ao Nani ainda antes dele chegar. Mas, a verdade é que parece que o impacto dele ainda é maior do que o que tu previste. Porque achas que percebeste logo isso, ao contrário de quase toda a gente?

– Isso tem sobretudo a ver com o nível da nossa Liga. E com a percepção que as pessoas têm do nível da nossa Liga. É por isso que depois exigem às nossas equipas na Europa coisas que elas não estão preparadas para fazer. Por falta de qualidade e de intensidade (no estímulo). O Nani é extremamente talentoso, isso creio que nunca ninguém o negou. Passa oito anos a treinar diariamente contra os melhores do mundo. Passa oito anos a competir com um estimulo competitivo incrivelmente alto. Se eu passasse oito anos a treinar naquele contexto e depois viesse fazer uns jogos a um campeonato como o português, até eu era jogador de futebol. As pessoas não têm qualquer noção. Eu não sei, mas desconfio que se tirássemos os três grandes, nenhuma equipa portuguesa conseguiria a manutenção numa liga inglesa, alemã ou espanhola. Nós tendemos a crer que os nossos é que são os grandes craques, porque nos habituamos a vê-los jogar com adversários muito fracos. Depois aparece um Leverkusen com um naipe de jogadores que tu desconheces mas onde do teu lote de craques se calhar não metias um no onze inicial deles. As pessoas não têm noção do quão fraca é a nossa liga. Há não muito tempo uma pessoa com um cargo importante num dos grandes do futebol português disse-me que lá fora os próprios jogadores dizem que o futebol na Europa acaba em Badajoz.

– Mas, Maldini, o Nani foi ultrapassado pelo Valência e pelo Young.
– Eu não sei porque isso aconteceu. Se calhar depois de oito anos o Nani não tinha um estimulo motivacional suficientemente forte para se apresentar ao seu nível. Mas, é óbvio que o Nani é muito superior a eles. E se calhar não podemos dar como garantidas as boas opções do United desde que perdeu Ferguson, não é? Mas, ainda bem que falas no Valência e no Young. São muito inferiores ao Nani e quando os vemos na Liga Inglesa chega a ser confrangedor. Mas, dúvidas de que na Liga Portuguesa teriam sempre um impacto do nível do do Salvio? É o mesmo perfil de jogador. Um Young ou um Valência teriam sempre um impacto forte numa liga onde a qualidade individual dos intervenientes é baixa. É a mesma história do Salvio, percebes?
– Ou seja, Maldini. Tu afirmas que o Salvio é pouco inteligente e portanto só tem impacto numa Liga onde os adversários são muito fracos. E mesmo assim tens dúvidas de que tanta perda, tanto condicionamento do ataque seja realmente compensador para o número de golos ou assistências que produz. E que o Nani é muito melhor que o argentino porque joga o que o jogo pede, e não se limita a um único perfil de decisão. Dizes-me ainda que o Nani está um nível acima do Gaitán porque como este também tem qualidades óbvias a construir e a criar, mas finaliza bastante melhor. É isto?

– Sim, de uma forma rápida e sucinta, creio que é isso mesmo que tentei explicar.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3407 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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