Os supostos e os pressupostos

Nos últimos tempos surgiu por aí uma nova escola. A que vou chamar a escola dos supostos. E segundo essa mesma escola, a tomada de decisão não é o factor mais importante e diferenciador da qualidade no futebol de hoje. E argumenta dizendo que, também os factores físicos são supra importantes.

Já alguém experimentou mandar alguma trivela foguete? Acham que o golo do Lamela é apenas técnica? Experimentem rematar de letra, num gesto técnico perfeito, e verão que a bola saí a uma velocidade ridícula se não suportada por aspetos físicos fora do normal.”

Essa mesma escola, é a que coloca James, e Ibrahimovic no mesmo perfil de decisão de Diego Costa e Di Maria.


“o que afirmei e reafirmo é que desta lista nem todos são claramente conhecidos por tomarem a maioria das vezes a suposta melhor decisão. Falo por exemplo de James, Robben, Diego Costa, Di María e Ibrahimovic.”

E que já tem alguns seguidores que colocam Messi na mesma categoria de Hulk e Ronaldo, e como se não fosse possível ser mais atrevido, na mesma intervenção compara-os à, admirem-se, Bebé.

No resto tb me parece q o padrão de decisão de jogadores como Messi, Ronaldo ou Hulk seja assim tão diferente dos bebés do mundo… o que existe é uma clara gradação no sucesso (resultado!) das decisões…”
O problema da escola dos supostos é que é fundada por alguns atrevidos. E os atrevidos, normalmente, não têm capacidade para reconhecer pressupostos. Conheço um tipo que diz que saber ler não é saber o significado das palavras juntas numa frase. É saber interpretar o significado das palavras em conjunto. E com isso também, perceber os pressupostos dentro de cada uma delas.

Ora aqui seguem alguns pressupostos para os atrevidos:

– Os jogadores profissionais são todos fisicamente capazes.
– As qualidades e limitações de cada individuo influenciam na sua tomada de decisão (Morfologia, técnica, capacidades físicas).
– As qualidades e limitações dos colegas desse individuo, também influenciam na tomada de decisão.
– Jogadores mais evoluídos do ponto de vista técnico conseguem fazer mais coisas que jogadores mais limitados do mesmo ponto de vista. E o mesmo é válido para o ponto de vista físico, e surpresa das surpresas, assim como para ponto de vista cognitivo.
– O jogo, hoje, é capaz de eliminar as diferenças físicas (entre profissionais) pela mais valia técnica e inteligência. Isto por hoje se jogar com mais organização que ontem, e como tal ser possível nenhum jogador atacar e defender sozinho. Ex para miúdos: O jogador é rápido e explora muito bem o espaço nas costas, mete-se o lento do Luisão a controlar a largura e a profundidade. O jogador é muito rápido na condução e muito forte no um contra um, mete-se o fraquinho do A.Almeida a defender o que é mais importante (a bola, a baliza, a relação com os colegas mais próximos).
– Qualquer jogador profissional é capaz de executar uma… uma… uma trivela foguete. Mas só se, só se, tiver a técnica necessária para isso. E quem achar que a trivela do Lamela se deve a uma “capacidade física fora do normal”, e o pressuposto do fora do normal é ser algo que outros no mesmo meio (profissionais) não consigam, anda a ver demasiados desenhos animados. Quem é que não se lembra disto?
– Isto não é um espaço para crianças, onde se pretende educar, ou ensinar termos e conceitos como se de uma escola se tratasse. É um espaço para adultos minimamente inteligentes.

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Fui ao baú do Posse de Bola e encontrei isto

Há cerca de dois anos, conversava com um jogador sobre o jogo da semana anterior. Conversas para aqui, e para lá, ele diz-me: “Mister, eu driblei fácil aquele lateral. Eu fui para cima dele, simulei que ia para um lado, ele virou, depois foi só correr para o outro lado”. Essa mesma conversa sugere o tipo de informação de suporte que o jogador utilizou para driblar, e mais do que isso, sugere como treinar e melhorar esse tipo de gesto técnico, bem como as qualidades físicas necessárias para o executar. Como se percebe, ao contrário do que Scolari pensa, contornar pinos em nada melhora o drible. Isto porque o pino não se mexe, como é óbvio. Logo, o exercício fica completamente fora da realidade que é o jogo, não melhorando absolutamente nada que ao jogo diga respeito.

Ainda há por aí alguém que continue a achar que treinar por forma a cultivar a tomada de decisão, que jogar por forma a cultivar o que se treina vai robotizar o jogo? Depois desta intervenção do Lucas, fica fácil perceber que mesmo no drible tudo é diferente, e que cada lance é um lance. E se o é no um contra um, imagine-se as milhares de possibilidades que existem num onze contra onze. Robôs são os Quaresmas e Sálvios que independente do contexto fazem sempre o mesmo movimento (ir para cima). O contexto é variável, e isso impõe que analisando o contexto (ou por outras palavras, procurar o melhor caminho, tomar a melhor decisão) se tome uma opção diferente da anterior.
Dá para entender a importância da tomada de decisão, ou se quiserem da análise do contexto?!
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3407 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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