“O Talisca tem qualidade técnica. O resto sou eu que tenho de lhe ensinar” Jorge Jesus

Faz lembrar alguma coisa a declaração do treinador do SL Benfica?

Ainda o post da passada quinta feira. 

“O controlo do treinador. Jogadores que cresceram na frente a jogar atrás. E porque há pouco do contrário.

Jorge Jesus nunca transformou um jogador defensivo em ofensivo. Fez sempre o contrário […] reparem que quando questionado sobre o sucessor de Enzo, Jesus falou de Pizzi, de Talisca e de João Teixeira mas nunca referiu Samaris” Carlos Daniel.

Quase tudo o que o treinador controla refere-se ao trabalho sem bola dos seus jogadores. E por sem bola, inclui-se naturalmente qualquer momento ofensivo, também. A um nível elevado, os ganhos técnicos são praticamente nulos e não é nada fácil alterar a tomada de decisão dos atletas. Ainda que dentro de um modelo de jogo seja possível condicioná-los a procurar mais vezes umas opções que outras em situações que se repetem. Por exemplo: “nesta situação prefiro que procures tabelar com o avançado e não que esperes a desmarcação das costas do lateral para jogar com eles”).

Ou seja é fácil mexer com os comportamentos sem bola (“movimentas-te assim… estás aqui com bola ali… Baixas quando a bola entra ali… tu dás linha de passe à esquerda aqui, e ele à direita… etc”), e muito difícil mudar tudo o que envolve a parte técnica e decisão com bola.

É por isso que tantas vezes extremos dão melhores laterais que os próprios jogadores que cresceram como laterais. Por norma, desde bem cedo os jogadores mais aptos tecnicamente e até fisicamente (velocidade) são colocados em posições avançadas. Ou seja, naquilo que o treinador não consegue controlar, o jogador é melhor (tecnicamente / fisícamente) que o(s) colega(s) de uma posição recuada. Porque o comportamento táctico é muito mais fácil de alterar. Não é assim tão complicado pegar em quem tem a base que não dá para tocar, e ensinar, rotinar, treinar, alterando a posição do atleta, e naturalmente que aprendendo a parte que dá para tocar (táctica), dará sempre um jogador melhor que outro menos apto tecnicamente e fisicamente. 

Esta é a principal razão pelo qual a afirmação de Carlos Daniel é totalmente verdadeira. Para Jesus e para qualquer outro treinador. Ao contrário, todavia, da imagem que talvez se possa querer passar, não é porque Jesus ou qualquer outro treinador domina melhor a parte defensiva que a ofensiva. É porque os jogadores que adapta a posições mais defensivas têm boas características naquilo que não é possível de alterar (sobretudo a variável técnica). E no que é possível, o treinador tem ferramentas para o fazer evoluir. 

Um exemplo seria imaginar uma adaptação de qualquer defesa do SL Benfica para que pudesse jogar num sector mais avançado. Seria possível? Obviamente que não. E não tem a ver com as capacidades de qualquer treinador. Nenhum tem qualidade técnica / decisão para poder ter qualidade suficiente para jogar onde tem de fazer a diferença nesses campos. E essas são as variáveis que não são possíveis alterar. O treinador até poderá ter o condão de tornar o atleta muito forte ofensivamente sem bola, mas no final do dia, se a relação com esta e a criatividade for diminuta, não será por estar onde deve estar que terá impacto ofensivamente.

E esta é a razão pela qual Jesus e qualquer outro treinador conseguem muito mais facilmente adaptar jogadores que cresceram em posições mais ofensivas em jogadores que ocupem posições mais recuadas no campo de jogo. Tem tudo a ver com o que é possível de alterar nas capacidades dos atletas e não com os conhecimentos que os treinadores têm do jogo. 

P.S. – É claro que se Messi tivesse nascido como defesa seria muito fácil adaptá-lo a uma posição mais ofensiva. Contudo, nenhum, ou pouquíssimos talentos extraordinários (perceptível na decisão com bola, capacidade técnica e capacidades condicionais) cresceram como defesas. Esses são desde bem cedo colocados a jogar do meio campo para a frente.”

Esquecendo a forma, poucos no mundo do futebol têm a vontade e ou capacidade para (tentar) ensinar sobre o seu ofício como Jorge Jesus. As suas conferências acabam por fugir sempre à vulgaridade, no que se refere ao conteúdo. Soubessem aproveitá-lo mais nas questões que colocam e todo o público teria mais a perceber do jogo que ama.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3011 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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