Na qualidade individual Barcelona é monstruoso

Foi um jogo de futebol como deveria ser sempre, jogadores contra jogadores. Aquilo que os treinadores permitem às equipas do ponto de vista ofensivo eleva o espectáculo, e entrega a notoriedade a quem a deve ter sempre. Por isso, como nunca, fomos capazes de perceber a diferença que faz ter ou não ter criatividade no último terço.
Semelhanças. Jogo dividido em posse. Duas equipas a tentar conseguir chegadas com a bola controlada ao último terço.

Diferenças. Onde uns precisavam de um toque outros precisavam de dois ou três, onde uns tinham capacidade para segurar outros falhavam recepções, onde uns tinham capacidade para sair e ir embora outros perdiam constantemente a bola. Barcelona tem Piqué, tem Alba, tem Alves,  Iniesta,  Busquets, Neymar, e Messi. Todos eles criativos. O Bayern tem Thiago e Alonso.

Primeira parte 
O primeiro lance de algum potencial surge ao minuto 6, onde um mau controlo do espaço (distância entre a última linha e as restantes), permite a Messi ganhar uma bola na profundidade entre Boateng e Bernat e soltar para Suarez, que de frente para os últimos três do Bayern em posição frontal (2×3) atira para Neuer defender. No minuto seguinte, surge o primeiro lance em que uma equipa consegue sair da pressão, de forma segura. O Bayern com uma combinação na saída de bola, sempre em passe curto, consegue libertar Bernat. Inicialmente aproveita muito bem o espaço conduzindo a bola para dentro, mas depois em situação de 4×3 (com perseguição) não conseguiu aproveitar o que os colegas lhe estavam a oferecer. Tivesse libertado em Thiago, e seguido em desmarcação pela esquerda, e estava quase que garantida a criação de uma situação de finalização. Mas contra a última linha, e muitos colegas, Bernat não foi competente. No minuto seguinte, Alonso erra o passe e Piqué de primeira enquadra Rakitic que, depois de uma tabela com Messi, fica numa situação de 3×2 (com perseguição) e não define da melhor forma. No seguimento deste lance, o Bayern recupera, e Alonso enquadra Lewa que acelera em condução para uma situação de 3×3 (com perseguição) mas não opta por trazer o lance para dentro, acabando assim por prejudicar as suas próprias hipóteses de sucesso com o lance.
A primeira grande ocasião de golo, numa altura em que o Bayern ainda jogava com três na última linha, resulta de um mau domínio do espaço desses três elementos. Mais preocupados em gerir individualmente os 3 da frente do Barcelona, a última linha permite que uma bola de Ter Stegen para Messi (que ganha a primeira bola) isole Suarez. 1×0 que não aproveita.
Ao minuto 11 o Barcelona, novamente em transição ofensiva. aproveita o mau posicionamento de Benatia (percebeu que devia ter adoptado um posicionamento mais conservador, junto dos seus colegas de sector, fechando o espaço interior).. Neymar limitou-se a aproveitar o espaço, soltou para Alba que de imediato enquadra Suarez no corredor central para uma situação de 4x3 que o uruguaio desaproveita. De seguida o Bayern acalma o jogo. O Barcelona coloca todos atrás da linha da bola, e novamente em construção a equipa de Guardiola consegue encontrar uma situação que procurar muito no seu modelo de jogo (igualdade numérica na grande área). Com passe curto, a bola entra no corredor lateral e Bastian percebendo do posicionamento de Lewa e Muller (2×2) cruza e o avançado polaco não consegue finalizar.
A segunda grande ocasião de golo surge numa altura em a equipa de Guardiola ajustava o sistema, mudando de três para quatro na última linha. E por uma série de ressaltos e ajustes no posicionamento Suarez ganha a bola dentro da área e coloca em Neymar, que dentro da pequena área chuta contra Rafinha. Ao minuto 17 o Bayern cria a sua melhor ocasião do jogo. em construção, desta vez adopta o jogo directo da linha defensiva para Muller, que ganha muito bem a primeira bola para Lewa. O polaco, no meio de 4 jogadores do Barcelona, descobre muito bem o movimento de Muller e inicia ele a marcha para atacar a finalização. Muller entrega, e Lewa só com Stegen pela frente não consegue desviar, nem deixa passar para Thiago que entrava ao segundo poste.
No minuto 23, depois de uma recuperação de bola na zona do meio campo, Muller encontra Lewa que perde no 1×1 com Pique no corredor central. No minuto 25 o Barcelona consegue finalmente em construção criar um lance com potencial. Busquets tratou de aproveitar o posicionamento adiantado da defesa do Bayern, que sem contenção não se preparou para controlar a profundidade. Alba, com a linha defensiva batida, faz o passe para dentro da área, onde apareciam Messi e Neymar, mas Boateng que vinha a recuperar ainda consegue o corte na pequena área.
Decorria o minuto 38 quando Guardiola sofreu pela primeira vez por uma dinâmica que ele muito trabalhou enquanto esteve no Barcelona: o aproveitar do movimento contrário da defesa. Bola vem da linda de fundo para a entrada da área, obrigando por isso a defesa a subir. Iniesta, de primeira, aproveita para colocar Alves em boa situação para finalizar apesar da dificuldade da recepção.
A terminar a primeira parte Alonso consegue depois de uma recuperação a meio campo enquadrar Bastian. 3×3 novamente mal aproveitado. Bastian não conduz para obrigar alguém a sair e entrega de imediato a bola, e depois de a entregar não foi capaz de oferecer a linha de passe que o seu colega precisava.

Segunda parte

A segunda parte começa com Boateng a explorar bem o espaço atrás da pressão do Barcelona, colocando em Muller que recebe mal, mas ganha o ressalto, A bola acaba por sobrar para Lewa que não tendo o melhor enquadramento com a baliza preparava-se para rematar já dentro da área, tendo sido parado em falta. Ao minuto 56 novo erro em posse que acaba depois de uma série de ressaltos nos pés de Messi que inicia a progressão interior, tabela com Neymar e remata em posição frontal na zona da meia lua. Dois minutos depois, Neymar recebe no corredor lateral e chama a si cinco jogadores do Bayern em condução/drible, depois não consegue soltar em Suarez que ficaria em excelente situação para finalizar, dentro da área. 
Passados mais dois minutos, nova perda do Bayern, que não foi agressivo a recuperar defensivamente, e a bola cai nos pés de Messi que trabalha com Alves. Messi transforma um 3×4 num 1×0 que Neuer corta por uma má recepção de Neymar.
No minuto 63 o Barcelona tentava sair em organização, mas o Bayern recupera. A forte reacção à perda do Barça, depois de um série de disputas, permite recuperar à entrada da área, onde Messi enquadra Rakitic (4×3) que deveria ter conduzido para provocar o 2×1 com Neymar. Solta logo o passe, permite que Rafinha se coloque entra a bola e a baliza, mas ainda assim Neymar consegue enquadrar e rematar dentro da área. Ao minuto 70 num lance bem construído Bernat enquadra Thiago à entrada da área, que podia ter aproveitado o mau posicionamento da última linha do Barcelona para colocar Lewa em excelente situação para finalizar (1×0), ou Lahm com a bola controlada atrás da linha defensiva. Opta pelo remate, em posição frontal, que acaba nas mãos de Stegen. Quatro minutos depois, Thiago coloca na profundidade em Lewa que passa de cabeça para Lahm. Este de primeira coloca em Muller (4×3) que com tempo e espaço não ataca Pique, optando por tocar de primeira em Bastian, que também não esboça a mínima intenção de atacar a última linha passando novamente para Lahm. Quando a bola lhe chega, apenas existe a opção do cruzamento ao segundo poste, onde Muller estava só. Mas aí já os jogadores do Barcelona estavam o suficientemente perto para apertar e condicionar o cruzamento, e já a situação tinha deixado de ser tão vantajosa em termos de número e espaço, apesar da bola estar dentro da área.
O primeiro golo de Messi surge de novo erro individual na primeira fase de construção. Alves recupera e enquadra Messi que à entrada da área, desta vez, não perdoa. O segundo golo de Messi dois minutos depois é inarrável. Três minutos depois surge uma transição ofensiva de mais um passe falhado de Boateng. Neymar em boas condições para colocar Suarez num 1×0 erra o passe e obriga o colega a travar a corrida, que ainda assim, com a dificuldade da recepção consegue rematar mas não nas melhores condições. No último minuto de jogo, quando o Bayern voltou a estar perto da área do Bayern, o Barcelona recupera e coloca em Suarez que é travado em falta. Mas caprichosamente a bola vai parar aos pés de Messi, o arbitro deixa seguir, e se há alguém que sabe como criar 1×0 é Messi. A bola entra perfeita em Neymar, que frente a Neuer não perdoa.
Mais uma vez, como no Dragão, a equipa de Guardiola evidenciou dificuldade naquilo que normalmente costuma ser forte – aproveitar as costas da pressão. Espaço que o Barcelona deixa na tentativa de gerir os homens mais adiantados do Bayern. Construiu melhor em organização, mas sofreu imenso com as transições pelos erros que cometeu em posse. Na segunda parte melhorou o controlo do jogo mas teve menos chegada. Cometeu menos erros, talvez, por ter tentado menos acções de risco Foi uma fase onde o Bayern até teve mais bola, mas nunca a conseguiu manter no meio campo do Barcelona durante muito tempo, obrigando-os a defender. Por outro lado, o Barcelona não mostrou excelência na construção, nem no futebol apoiado. Apesar de não ter sido excepcional a defender teve uma boa capacidade de concentração. Aproveitou os erros individuais, saiu bem em transição ofensiva, e tem um fenómeno em campo. Se a eliminatória ficou quase fechada é por ter individualidades tão fortes, e enquanto as tiver será sempre candidato a ganhar tudo. 
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3047 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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