Substituições. Lotaria ou dar condições para…? Mudar num jogo cujo resultado é insatisfatório significa aproximar a equipa do sucesso?


Para a maioria, ir ao banco e lançar gente nova é uma questão de fé. O resultado não está a ser o mais desejado? Vamos lançar alguém a ver se individualmente mexe com o jogo. O resultado está curto? Vamos ao banco buscar alguém para segurar o ímpeto adversário. Substituições a serem feitas porque… sim. Porque o resultado o dita e não… o jogo!
As muitas e acérrimas críticas a demasiados treinadores passam muito pelas substituições. Mexe tarde, dizem. Muitas vezes não as esgota. Curiosamente, hoje o Benfica tem um treinador bem ao gosto do tradicional dos adeptos. Ao intervalo está a perder? Faz-se logo uma substituição, mesmo que os últimos quinze minutos da primeira parte tenham sido os melhores do seu consolado, mesmo que a sua equipa naquele período parecesse pronta para inverter a história. Mesmo que o sacrificado esteja bem no jogo. O resultado está 0 a 1. Muda-se já. 
Se o trabalho semanal / mensal / anual é bem feito. Se há uma ideia colectiva de jogo. Se dentro dessa ideia há um onze mais forte, mais rotinado, mais capaz de interpretar essa ideia. Mais capaz de resolver os problemas que aquele jogo específico irá colocar, porquê desfazer o melhor onze cedo? Se aos sessenta minutos o resultado não é o expectável com os melhores em campo, o que leva alguém a crer que para os trinta minutos que faltam há mais probabilidades de mudar o curso do jogo com um jogador menos capaz, menos rotinado, menos integrado na dinâmica da equipa em detrimento de um melhor? Só porque até aquele minuto ele ainda não resolveu o jogo? 
Mudar por mudar não é aproximar a equipa do sucesso. É jogar no euromilhões. “Esse já teve uma hora, não marcou. Vou meter este lá para dentro meia hora a ver o que dá”.
Mudar cedo e muito, mudando muita coisa é apanágio de décadas passadas. Duma visão do jogo em que valiam as individualidades. Em que o jogo colectivo era inexistente. Em que as ligações no relvado eram inexistentes, excepto por livre e espontânea vontade dos próprios jogadores.
Um exemplo extremo para que se perceba o que se pretende dizer. Se até aos 70 minutos Maradona ainda não apareceu no jogo. O que é mais provável que aconteça nos últimos 20? Maradona aparecer no jogo, ou aparecer Carcela, se substituísse o astro a vinte minutos do fim? 
Outra coisa totalmente diferente é alguém do onze inicial estar a ter um jogo completamente infeliz em termos individuais, ou haver alguém a fisicamente cair mais cedo, ou a mudança para um plano de jogo alternativo, em que outrem demonstre maior capacidade para se integrar na equipa. Plano de jogo alternativo que fará sentido apenas se bem treinado e ensaiado. Mesmo sendo alternativo. Geralmente lançar pontas de lança avulso para a área não é propriamente uma alternativa pensada e treinada. Ainda que faça as delícias dos habituais críticos de quem mexe menos ou mexe tarde.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3012 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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