Jogar no totobola no final do jogo. E as marionetas em campo.

Há, por mais de noventa porcento do público que assiste a este jogo maravilhoso alguns traços comuns. O jogar ao totobola no fim do jogo, garantindo que X é competente quando ganha e Y incompetente quando perde, e o que crê que os jogadores são marionetas amestradas dentro do campo, são algumas das características mais irritantes de quem vê futebol em Portugal.
A derrota do Braga ontem na Luz, com as declarações de Paulo Fonseca no final “Se eles erraram é porque eu exijo coragem. Comigo quem não tem coragem não tem hipóteses de jogar” soltou a doidice do expectador para níveis épicos. Mauro e Luís Carlos foram obrigados por Paulo Fonseca a arriscar manter a posse perante uma situação de elevado risco! Paulo Fonseca condenou o Braga!
Antes de mais. Perceber o porquê, o como e o quando surgem certas afirmações. Naturalmente que Paulo Fonseca quer uma saída com bola no chão. É assim que a prepara. Mas não sejamos anjinhos ao ponto de crer que ali houve um erro do treinador por ter essa exigência. Paulo Fonseca como milhares de outros treinadores quer sair assim, mas esperando que os seus jogadores saibam avaliar a situação de jogo e que decidam em conformidade com ela. Tuchel também quer sempre sair a jogar e na recepção ao Bayern talvez não o tenha feito uma vez. E tinha essa vontade! E tentou! Na verdade, Paulo Fonseca não vai matar nenhum dos seus jogadores quando estes ao avaliarem a situação de jogo, optem por bater na frente. É isso que ele e qualquer treinador espera. Que o seu atleta saiba discernir até ao limite quando pode ou não “arriscar”.
Talvez lhe pareça estranho, se acha que os atletas são marionetas e que não avaliam eles o jogo, mas antes têm uma cassete e o treinador um comando na mão, que o mesmo Mauro que perdeu a bola no primeiro golo do Benfica tenha feito isto sem ser substituído.
Mais estranho parecerá ver o rosto de Paulo Fonseca após o próximo lance. Como não substituiu de imediato o atleta que bateu na frente sem arriscar?! Incrível a serenidade de Paulo Fonseca após a decisão do seu jogador. Ele que é o Deus maior que controla as marionetas a compactuar com tal decisão?! Qualquer dia ainda dizem que é o treinador quem dá as armas e que depois são os jogadores que têm de avaliar o jogo e decidir em conformidade com o que avaliam… em vez das marionetas controladas ao limite pelo treinador…
Depois há também os maluquinhos que para não entrarem em contradição com o “não se pode bater uma única vez na frente”, querendo sacudir para cima de Paulo Fonseca, procuram no posicionamento da saída bracarense a responsabilidade para a derrota. Curioso, se aquela saída é sempre igual e tão errada porque é que Sporting sofreu seis golos em dois jogos com os bracarenses e caiu na Taça? E porque sofreu o FC Porto três e deixou a Liga em Braga? e o Fenerbahce de Vitor Pereira que sofreu quatro e deixou a Liga Europa na mesma cidade? É a mesma equipa. Os mesmos processos. Ou só está errado o treinador quando um jogador erra?

  

Estes são frames da outras saídas em construção do Braga nos primeiros quinze minutos do jogo. Até ao golo sofrido. 
O erro meus amigos não foi colectivo. Foi individual. Foi um jogador que mais do que até ter avaliado mal a situação de jogo, decidiu de forma lenta e errada. Perdeu a bola quando tinha condições para dar seguimento à jogada! E se não tinha, deveria ter feito como todos (inclusivé o próprio) o fizeram antes. Batia na frente.

É daqui que vai sair o golo do Benfica. Pensar-se que há um erro de posicionamento dos jogadores na construção é de loucos. Muito menos segura é a saída a três de Jesus, por exemplo! Se o portador da bola perde nem sequer haverá alguém próximo para lá chegar!
Não só dava para jogar com uma boa decisão do jogador do Braga, como começaria logo na construção a desequilibrar o jogo. Como o fez aqui, por exemplo:
É caso para se concluír, que está na hora de parar de jogar ao totobola à segunda feira e a curar dores sem sentido. Paulo Fonseca prepara as suas equipas com uma qualidade incrível. Não é porque um erro individual de um jogador aconteceu (dava para jogar diferente, e se não desse, ninguém o mataria por ter feito o que fez antes e bateu na frente!) mesmo que potenciado por um modelo em que o treinador previlegia um jogo apoiado desde trás, que tal deixa de ser assim.

P.S. – Três centímetros ao lado e as cinco bolas nos ferros nos dois jogos com o Benfica poderiam ter dado sensações diferentes aos apostadores de segunda feira. Não quis assim.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3047 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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