A Liberdade Posicional

Uma das coisas que sempre me desagradou no Barcelona de Luís Enrique, e que em larga medida me fez sempre desconfiar do alcance desse modelo de jogo, foi a rigidez posicional a que cada um dos onze jogadores estava votado. Luis Enrique foi sempre fiel ao seu 433, e nunca se predispôs, por exemplo, a explorar um modelo com 3 defesas. A pouca versatilidade táctica podia, no entanto, ter sido combatida, se aos jogadores, sobretudo aos 5 mais ofensivos, tivesse sido dada outra espécie de liberdade posicional. Mas não. A sua equipa foi sempre excessivamente rígida, e os jogadores pareceram sempre autómatos a quem cabia o cumprimento de um determinado conjunto de tarefas. Mesmo os mais talentosos pareciam excessivamente amarrados às suas obrigações posicionais. Luis Enrique acabou por ter sucesso, e talvez seja possível atribuir parte desse sucesso à simplicidade desse modelo. Garantindo rigor posicional, não forçando uma desorganização muito drástica, não arriscava tanto. Não explorava ao máximo o potencial dos seus jogadores, mas também não se expunha tanto a eventuais falhas no processo de criação. A equipa não “inventava” tanto como noutros tempos, não exigia tanto, do ponto de vista intelectual, aos seus jogadores, e, como tal, parecia mais eficiente nas poucas coisas a que se propunha. Menos encorajados a procurar soluções diferentes, a ocupar espaços menos comuns, a fazer uso da sua liberdade criativa, os jogadores estavam mais preparados para cada uma das tarefas que lhes eram incumbidas. Com a qualidade do plantel, tal ideia podia chegar para que Luis Enrique fosse bem sucedido. E, de facto, chegou. Era inevitável, no entanto, que um modelo de jogo tão rígido, tão pouco imprevisível do ponto de vista colectivo, tivesse os dias contados.

Sentindo necessidade de modificar alguma coisa em termos tácticos, depois de dois anos profundamente amorfos, Luis Enrique apostou, este ano, num modelo híbrido: a atacar, a equipa mantinha o mesmo 433, as mesmas ideias, os mesmos posicionamentos e o mesmo estilo; a defender, porém, arrumava-se mais atrás, e em 442 clássico. Tal inovação não belisca em nada a impressão que sempre tive. Aliás, confirma-a. Longe de soltar os jogadores, esta hibridez só os amarra de modo diferente. Em vez de encorajar os seus atletas a inovarem, Luis Enrique limitou-se a modificar os guiões que deviam cumprir. Embora tenham passado a ter tarefas diferentes, os jogadores continuaram presos a um conjunto de tarefas predefinidas. Desconheço as intenções de Luis Enrique, mas é possível que tenham a ver com uma de duas coisas: libertar Messi de tarefas defensivas excessivas e da linha direita a que essas tarefas acabavam por, muitas vezes, o remeter, ou tornar a equipa mais competente a pressionar verticalmente. Há, desde logo, um senão: a disposição em 442 clássico obriga a defender mais baixo. Uma das principais diferenças da equipa de Luis Enrique este ano é justamente a incapacidade para asfixiar os adversários sem bola, e isso deve-se sobretudo à arrumação táctica, no momento defensivo, em 442 clássico. Com quatro médios alinhados, ou se abdica de uma pressão à saída da grande área adversária, de modo a garantir a proximidade da linha média à linha defensiva, ou se abdica dessa proximidade, de modo a pressionar alto. Não é possível ter as duas coisas. O 442 clássico não permite pressionar tão alto quanto, por exemplo, o 433, sem que, em simultâneo, a solidez defensiva fique comprometida. Permite outras coisas, mas não o tipo de pressão a que uma equipa que quer ter a bola a toda a hora tem de se consagrar. E parece-me que o Barça, esta época, se tem ressentido muito disso.

Seja como for, esta hibridez nunca resolveria o verdadeiro problema de Luis Enrique. Mesmo que a posição a defender seja diferente da posição a atacar, e que as tarefas defensivas sejam agora substancialmente diferentes do que eram (o interior direito, por exemplo, passa a defender como médio direito, na mesma linha do médio-defensivo e do interior esquerdo, que passam a defender lado a lado, no meio), os jogadores continuam demasiado confinados às posições que devem ocupar em cada momento e às tarefas que tais posições exigem. Veja-se a diferença, por exemplo, para o Sevilha de Sampaoli. Aquela anarquia táctica, quando a equipa tem a bola, é absolutamente decisiva para o sucesso ofensivo do modelo. É ela que provoca os desequilíbrios nos adversários e é ela, sobretudo, que torna imprevisível a equipa do Sevilha. O Barcelona de Luis Enrique nunca foi, do ponto de vista colectivo, uma equipa imprevisível. E nunca o foi porque nunca se concederam aos jogadores quaisquer liberdades posicionais. O melhor Neymar, por exemplo, apareceu durante os meses em que Lionel Messi esteve lesionado, no início da época passada. Mas não necessariamente porque, sem Messi, o brasileiro tenha passado a ter mais protagonismo. O que aconteceu foi que, sem o argentino no onze, Neymar passou a jogar menos encostado à linha e, em zonas interiores, passou a ter mais colegas próximos dele a quem podia recorrer. Foi esse mesmo Neymar que apareceu no passado fim-de-semana.

Depois da derrota escandalosa em Paris, Luis Enrique fez duas coisas. A primeira consistiu em experimentar, finalmente, o 343. Ainda que, a defender, a equipa mantenha a arrumação em 442 clássico, tem atacado agora em 343 losango, com Sergi Roberto a ocupar o lugar de defesa direito a defender e o lugar médio interior direito a atacar, e com Rafinha a ocupar o lugar de médio direito a defender e o de extremo direito a atacar. A segunda coisa que Luis Enrique fez foi anunciar a sua partida, no final da época. Não sei qual das duas terá tido mais impacto, ou sequer se alguma delas o teve. Mas a liberdade posicional de Neymar, no passado fim-de-semana, frente ao Celta de Vigo, foi evidente. Às custas dela, pôde pisar terrenos mais próximos dos de Messi, e com ele combinou várias vezes. O espectador pôde assistir, sem exageros, a alguns dos melhores momentos do Barcelona de Luis Enrique. E Iniesta nem estava em campo. Neymar e Messi, juntos no meio, com uma liberdade posicional sem precedentes, a recriarem-se, passando a bola um ao outro enquanto ultrapassavam quem quer que lhes saísse ao caminho. Que maravilha! Sem estas pequenas sociedades de dois, três ou quatro jogadores, que se fazem e desfazem por livre e espontânea vontade dos próprios jogadores, e que não há maneira de consolidar em treino, nenhuma equipa é capaz de atingir a excelência colectiva. Mas por que razão não se viu mais disto nestes três anos de Luis Enrique? A minha resposta a esta pergunta é, por esta altura, fácil de adivinhar. O modelo de Luis Enrique aprisiona em demasia os jogadores às posições que lhes competem. E a consequência mais notória desse aprisionamento é a impossibilidade de certos jogadores resolverem os problemas que vão encontrando através da colaboração com colegas dos quais acabam por andar demasiado longe.

Nuno Amado
Sobre Nuno Amado 6 artigos
Doutorado em Teoria da Literatura. Como acredita que se pode gostar em simultâneo de coisas muito diferentes, costuma conciliar o interesse pela literatura com o interesse pelo futebol. É um dos fundadores do blogue Entre Dez, onde escreve, com maior ou menor regularidade, desde 2007.

2 Comentários

  1. Um dos melhores espelhos dessa liberdade posicional é mesmo o Sergi. Já no jogo de Calderon reconheci-lhe alguma ousadia, algum destemor quando pisava zonas mais subidas. No jogo contra o Sporting, o Barça continuou a apostar no mesmo modelo. Contra o Celta viu-se um Barcelona Top. Quase todas unidades do Barcelona estiveram um rendimento acima daquele a que nos habituaram. E não deixa de ser curioso que ,nesse jogo contra o Celta,que quanto a mim,é o melhor da época até então, a pior unidade dos catalães tenha sido…Suarez.

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