Meu Brasil brasileiro. Tite, Neymar. Histórias de maturidade.

Pato, tu tem que deixar de ser egoísta

… Então, Pato, o senso de equipe é importante, né? O individual é importante, mas a equipa é mais, certo? E passei para outro. Ele não saia do lugar. A situação se repetiu outras vezes, fazendo com que os companheiros do grupo chegassem à conclusão de que Pato tinha um mundo paralelo onde ele vivia, completamente desligado da realidade.

“É o jeito dele, mesmo. Saiu daqui do Brasil com muita ostentação… E eu tentei mostrar que ele ia ser igual a todo o mundo, que iria para o banco também e que não ia ser o centro. Que ia ralar igual a todo o mundo. Talvez ele tenha sentido esse processo. Eu espero que tenha mudado. Espero que tenha amadurecido.”

Outubro de 2013, segunda e decisiva partida dos quartos de final da Taça do Brasil.

Walter, goleiro reserva do Corinthians, entrou no vestiário chutando a porta, enlouquecido.

O meia Danilo desceu logo em seguida, nervoso como em poucas vezes fora visto, acompanhado do terceiro goleiro da equipa na época, seu xará, Danilo Fernandes, na mesma situação.

Alexandro Pato havia acabado de cavar sua própria cova: tentou de forma vergonhosa dar uma cavadinha na última cobrança da disputa de penaltis contra o Grémio. Não tinha sido o único a errar. Danilo e Edenilson também pararam em Dida, mas de maneira compreensível. Tite entrou no vestiário desvairado. Andava de um lado para o outro inconformado com o que tinha passado naquela noite.

– Professor, eu tô construindo a minha vida, eu quero crescer e… – Danilo se aproximou do técnico e desabafou.

– Ele não tem esse direito, não tem!

– Deixa comigo, deixa comigo – interrompeu Tite, pegando na mão do goleiro.

– Calma professor, calma. Não é hora de falar nada agora – tentou intervir o lateral Fábio Santos, um dos mais calmos naquele momento, ao lado de Ralf.

– Calma o caralho. É um egoísta… só pensa nele! Tem de aprender a amadurecer, ter senso de equipe. Não existe isso – gritou Tite.

Pato demorou a chegar do gramado. Dava algumas entrevistas ainda no campo, tentando explicar o inexplicável. A falta de respeito com seus colegas, com Dida, com ele mesmo.

No caminho para o vestiário, foi pego por Bruno Mazziotti, fisioterapeuta da equipa, para não se encontrar directo com os outros jogadores. Era certo que se chegasse ali naquele momento haveria um confronto físico, tamanha era a fúria de seus companheiros.

O camisa 7 ficou durante um tempo deitado na maca, em uma salinha separada, onde é feito o aquecimento, em um gramado sintético, sendo filmado por Tite.

– Eu andava de um lado para o outro e não tirava os olhos dele. Até para cuidar, ver se alguém ia chegar perto. Tudo poderia acontecer naquele momento – lembra-se Tite.

– Danilo, errar é do jogo… Edenilson, é do jogo, É da vida. Faz parte. Olha para mim, Pato, olha para mim: tu não é da vida. O jeito que tu perdeu, não é. Tu tem que aprender a trabalhar em equipa, tu tem que deixar de ser egoísta. Tu tem que amadurecer e virar um homem.

Até o próprio Dida entrou no vestiário corintiano depois do jogo.

– Pô, você jogou comigo no Milan, você sabe que eu espero o atacante bater para ir na bola. Você quer fazer uma cavadinha comigo?

– O Dida estava meio emocionado. Disse que também seria depreciativo para ele, se fosse gol. Não foi respeitoso. Foi perguntar porque tinha feito isso. Jogaram juntos. Não tinha motivo. Foi próprio de um garoto, imaturo, e que precisava ouvir aquilo que o Dida falou e e que eu falei para amadurecer – acrescenta Tite.

O talento de Neymar saltou à vista desde bastante cedo, e as dúvidas sobre como poderia o brasileiro adaptar-se e continuar a sua evolução num jogo com menos espaço e que obrigasse a decisões mais rápidas já foram desfeitas há imenso. Hoje o camisa dez da selecção do Brasil não joga apenas. Faz jogar! Pega no controlo do jogo e como que chama a si todas as decisões de uma equipa, desde a forma como define o método de atacar da sua selecção, à forma como os seus passes, os seus timings para soltar ou prender, ou para onde o fazer, definem também as decisões seguintes. Decide e na suas decisões já condiciona positivamente a decisão dos colegas.

Nas arrancadas de Neymar, a procura pela decisão que aproxima toda a equipa do golo. No fantástico golo de Paulinho, foi Neymar quem condicionou a decisão do colega de equipa!

Talento e responsabilidade numa nova era na selecção do Brasil.

Tite tem o estilo Europeu mas com a manha brasileira

Afirmou Marcelo.

Já lá iam muitos anos desde que uma selecção brasileira combinava modernidade com talento. Que a Argentina lhe siga o exemplo.

Rodrigo Castro
Sobre Rodrigo Castro 217 artigos
Rodrigo Castro, um dos fundadores do Lateral Esquerdo. Licenciado em Ed física e desporto, com especialização em treino de desportos colectivos, pôs graduação em reabilitação cardíaca e em marketing do desporto, em Portugal com percurso ligado ao ensino básico e secundario, treino de futsal, futebol e basquetebol, experiência como director técnico de uma Academia. Desde 2013 em Londres onde desempenhou as funções de personal trainer ligado à reabilitação e rendimento de atletas. Treinador UEFA A.

4 Comentários

  1. Finalmente!!! O Mundo pedia há varios anos que a Tite fosse dada a oportunidade de por o seu talento ao servico do escrete. Perdeu-se demasiados anos com Dungas e Xungas… Pelo menos agora vai dar gosto acompanhar a canarinha.

  2. É o melhor treinador brasileiro by very far. O único com uma concepção moderna e atualizada do futebol. O último trabalho que realizou no Corinthians e foi de grande qualidade. Com o talento à disposição, vai ser candidato em 2018

  3. brasil finalmente a mostrar “futebol” e, tal como venho a afirmar há muito tempo, o futuro melhor jogador do mundo quando os 2 monstros decidirem “abrandar”. Aliás, eu sou da opinião que será o nº2 precisamente pela tomada de decisão e o seu contributo para o coletivo, mas os números do Ronaldo…os números….

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