O processo e a liderança. Cristiano Ronaldo e Ancelotti.

O que têm em comum (Carlo Ancelotti, Ferguson e Mourinho) é um conhecimento incrível do jogo. Os três são muito inteligentes e são vencedores. É tão simples como isso, são vencedores. Mesmo com tanto conhecimento sobre o jogo, na verdade o ponto chave são os relacionamentos que criam. Percebem muito bem que somente criando tantos laços conseguem retirar o melhor de cada jogador. Carlo é um dos melhores, tem um sexto sentido que lhe permite perceber quando os jogadores estão cansados ou insatisfeitos, quando querem treinar mais duro ou menos… quando o Zizou chegou depois do Benitez, as coisas tornaram-se muito parecidas ao do tempo com Carlo. As sessões de treino do Carlo eram agradáveis e valiosas, e o Zizou adoptou os mesmos métodos. Zizou é muito inteligente, e retirou uma série de ideias do Carlo, quer como jogador quer pelo tempo em que foi seu assistente. O mais importante foi ter recuperado o espírito que havia com Carlo.

Cristiano Ronaldo.

Por vezes parece querer dividir-se os treinadores em lotes diferentes. Os que primam mais por serem competentes na liderança mas com maiores dificuldades no orientar do processo de treino e do modelo de jogo, e os que pelo contrário, sabem tudo sobre o jogo, mas sentem maiores dificuldades no trato e no convencer um grupo a lutar por objectivos comuns.

Na realidade, a divisão nunca poderá ser feita de forma tão simplista. Cada contexto é um contexto, e o mesmo treinador poderá “vestir” diferentes “peles” em diferentes contextos, tudo relacionado com a avaliação que faz do contexto e com a sua inteligência para perceber o que funcionará melhor naquele determinado momento. Que poderá, naturalmente, ser o oposto do melhor num outro momento ou espaço.

Nenhum treinador no futebol mundial resistiria no topo se o processo não tivesse qualidade. Por mais que o resultado final possa desagradar a qualquer Rui Santos. Se acredita que algum “totó” conseguiria resistir sem ser “morto” por quem mais importa (jogadores), está enganado. Ninguém como os jogadores profissionais tem a capacidade para avaliar e perceber o trabalho de um treinador. Em suma, a teoria de que um treinador é muito amigo e muito bonzinho, e por isso, apesar de não perceber um charuto de bola, resiste, não tem qualquer validade. Os jogadores mais do que tudo, querem competência, querem qualidade no processo. Essa é a que norteia posteriormente a liderança. Nenhum treinador teria trabalho fácil em qualquer grupo de trabalho se desde logo tivesse dificuldades no processo.

Antes de chegar a Madrid pensámos que por ser italiano tudo iria ser muito baseado na táctica, mas os treinos começaram e não foi assim. “Com esta equipa não preciso de tanta ênfase nisso” disse. Quanto tens um treinador com esta mentalidade a ênfase no processo defensivo desvanece. Claro que tínhamos organização, mas a táctica não era pensada na forma habitual… tornar-nos uma equipa defensiva e que jogasse no contra ataque. Outros jogadores disseram-me que noutros clubes ele trabalhava a táctica arduamente. Aqui no Real, não aconteceu…

Cristiano Ronaldo.

 

Rodrigo Castro
Sobre Rodrigo Castro 103 artigos
Rodrigo Castro, um dos fundadores do Lateral Esquerdo. Licenciado em Ed física e desporto, com especialização em treino de desportos colectivos, pôs graduação em reabilitação cardíaca e em marketing do desporto, em Portugal com percurso ligado ao ensino básico e secundario, treino de futsal, futebol e basquetebol, experiência como director técnico de uma Academia. Desde 2013 em Londres onde desempenhou as funções de personal trainer ligado à reabilitação e rendimento de atletas. Treinador UEFA A.

1 Comentário

  1. Epá calma lá, outra vez?, isto já cheira a exagero. O que mais valorizo no Ancelotti é a carreira como jogador – foi um bom médio completo o que lhe ajuda a desenvolver um tacto interessante na relação com os atletas – e o facto de uma certa bonacheirice lhe valer amigos, no bom sentido, em várias instâncias e situações.

    Como treinador, mais concretamente ao nível das ideias que mete em campo, é fraco. Depois se é amigo de todos, um bocado tipo R. Vitória, tanto pode ser um elogio como um problema.

    Ainda na terça feira parece que o Douglas Costa queria lhe partir a cara. Nem tudo o que parece bem estará mesmo bem.

    O mesmo vale para aquilo que se vê em campo de gente como o Hummels, por exemplo. Um jogador extraordinário está reservado a uma função banal e para a qual não demonstra especial competência.

    A forma como a equipa joga, a falta de alegria e a linguagem corporal de alguns jogadores deixa a ideia que nem tudo vai bem com Ancelotti e restante contexto. Ou que esse conhecimento todo não resulta necessariamente num jogar de qualidade, mesmo com excelentes intervenientes.

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