Ligar os ataques. Podence e a dupla Jonas Mitroglou.

O rendimento do Benfica caiu abruptamente pós saída de Gonçalo Guedes da equipa. Colectivamente o melhor Benfica de Rui Vitória apareceu na primeira metade da presente época. Bem diferente de outros períodos em que a individualidade Jonas resolvia o que a equipa não conseguia.

Passou a ser uma equipa com muito menos capacidade para criar. Desceu de forma abrupta o número de ocasiões que os encarnados criam jogo após jogo. Perdeu muita da qualidade que tinha nas zonas de criação e que lhe haviam valido vários jogos de grande nível na primeira metade da época. Jonas regressou com pouca mobilidade e a equipa deixou de conseguir dar tantas opções ao portador da bola como antes, obrigando a que os lances se tenham de resolver vezes demasiadas no individual. Mitroglou praticamente nem conta, e o brasileiro era opção quando estava na zona da bola, não tendo capacidade por falta de capacidade física para se mover ao longo de todos os corredores para ligar todos os ataques encarnados. Perderam-se apoios nos corredores laterais, perdeu-se vantagens numéricas. Daí que num exercício de grande futurologia pareça que poderia ter muito mais rendimento uma equipa preparada com Jonas e Zivkovic na frente, do que a insistência num Mitroglou completamente incapaz de ligar os ataques do Benfica. Sim, porque Jonas mesmo debilitado (e muito cresceu desde Janeiro até hoje!) é sempre solução.

Muitas são as vezes em que este problema vem sendo mencionado. Não sendo, no entanto, algo exclusivamente afecto à equipa encarnada. Também o Sporting com a presença em simultâneo da dupla do corredor central Alan Ruiz e Bas Dost experimenta sensações próximas. A dupla ideal seria sempre a que juntasse dois jogadores tão completos que não fosse necessário ter um mais fixo e outro a correr por todos os corredores, mas antes ter cada um a ligar a equipa na sua metade do campo. Não há em Portugal duplas perfeitas, obviamente.

Mas, afinal como é que na prática jogadores diferentes podem trazer uma dinâmica diferente, e sobretudo diferente para melhor?

A lesão de Alan Ruiz na partida de Braga foi o ponto de partida para um incremento incrível na qualidade de jogo da equipa leonina.

O que mostrou e o que trouxe Podence, é tudo o que tem faltado ofensivamente no jogar dos grandes lisboetas. Porque por mais organização que se possa tentar ofertar a uma equipa, são sempre as grandes individualidades que trazem o sucesso.

Podence sem bola trouxe ligações à organização ofensiva leonina, tornando o jogo mais fluído, e com bola uma qualidade imensa na sua relação com esta e com o jogo. Desequilíbrio no individual e na forma como se associa aos colegas para invadir os espaços mais perigosos.

Não foi preciso rever mais do que cinco minutos da segunda parte, para construir um video que demonstre tudo o que por cá se vem afirmando. E para perceber-se o quanto Jorge Jesus “facilitou” a vida ao SL Benfica durante 80 minutos no derby da semana passada…

P.S.  – Agradecimento muito grande a todos os que já se juntaram a nós no Patreon. Para terem acesso a todos os conteúdos que por cá se produzem e à bibliografia partilhada pelo “Lateral Esquerdo”, é passar por lá. Recordamos que 1 euro mês será desde logo uma grande ajuda! Alternativa no lateralesquerdo.com@gmail.com.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3013 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

8 Comentários

  1. Já dei por mim a pensar numa solução que passasse por Jonas na frente com alguém como zivkovic atrás, mas a minha duvida é se isso encaixa no que RV pretende desse elemento mais avançado, isto é, se Jonas conseguiria sobressair nos momentos em que a equipa procura ligar directo para saltar a pressão… achas que daria certo? Abraço

    • Nao tens de ganhar a bola… basta atrapalhares… para ela continuar ali… ou procurar CL para disputar com laterais… sai fora ficas em cima, se queres isso…

      De qualquer das formas o Mitro também mt raramente a ganha…

  2. Nem mais! O rapaz deu linhas de passes umas a seguir as outras!! Colectivamente tudo funcionou melhor e quando assim é a vitória fica mais perto. Cumprs

  3. Quando o Alan Ruiz se lesionou, e vi o DP pronto a entrar, pensei “Foi o melhor que poderia ter acontecido”, embora claro não o desejasse à custa duma lesão dum jogador.

  4. O rapaz deu mais que linhas de passes, isso é o trabalho de Jesus. O que eu vi foi: o rapaz a recepcionar a bola de maneira perfeita, apos um toque dar o passe interior de rompente em vez da facilidade e graças a uma visao periferica exceptional; fintar par dar espaços, atacar espaços com combinaçoes de passe, à procura de passe interior a quebrar linhas ( o mais dificel) , nao passar, e outra finta exceptional a abrir tudo de novo; e para acabar, dois passes de primeira para acelerar o jogo e entao o segundo é outra vez passe interior de frente à baliza.

    O trabalho de treino é ligar os ataques, saber dar as linhas de passe, reaççao à perda de bola. O resto é da autoria de Podence porque ele fez o que o jogo precisou nesses secundos graças ao seu talento em escasso tempo e espaço tao curto; ele é o eleito com essa capacidade com bola. O Jesus deu 80 minutos no derby mas deu o campeonato todo tambem. Outro eleito com capacidade tremenda que nao tem sortes de lesoes é o Francisco Geraldes. Sempre os jogadores a ser os mais importantes, sempre os melhores artistas no centro do jogo

  5. Este Podence é fabuloso e mesmo o Geraldes dá muito mais que o Adrien, que é burro que nem uma porta. Obrigado, JJ, sempre a ajudar o Benfica!

    Na próxima época, o Benfica tem um grande desafio na construção do plantel.

  6. Geraldes, podence e gelson atras do super bas dost…construção,lnhas de passe, um para um, imprevisibilidade.. qq reforço para a frente tem de ser melhor q estes…

  7. Sim, mas não te esqueças que vais ter de lutar com todos aqueles – e são o mundo, geralmente – que riam desalmadamente do “horrível” Guedes e que dizem que o Alan Ruiz é um granda jogador (eu sei que também o consideraste muito bom, em tempos, mas ele é um jogador mediano e, pior do que isso, acha-se o seguidor do Messi e do Maradona juntos…).

    O Podence vai sempre precisar de alguma sorte enquanto o Jesus for treinador do Sporting. Por enquanto, está a tê-la, felizmente!, porque tudo o que Jesus idealizou em termos de plantel revelou-se uma valente merda.

    (Agora imagina que mesmo assim o homem tinha sido campeão. Era tchau Podence, tchau Geraldes.)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*