Podem dois treinadores vencer? Benfica em Vila do Conde.

Tendemos sempre a avaliar as opções de um treinador em função do seu resultado. Ignorando modelo ou intenções.

Vocês nunca treinaram, por isso para vocês é fácil

Vitor Pereira

Depois de um início de segunda parte asfixiante do SL Benfica, encostando o Rio Ave ao último terço e aproximando-se com perigo por diversas vezes da baliza de Cássio, havia que estancar o domínio encarnado sob pena do golo chegar a qualquer momento.

Trocar homens da frente por outros igualmente rápidos na expectativa de que apesar do mar vemelho em que o segundo período ia correndo, pudesse cair do céu uma transição?

Colocar mais um defesa, ou um médio com perfíl de corredor e recuperador, para ir estacando investidas?

Luís Castro decidiu fora da caixa habitual da nossa Liga. Empatado perante um grande, num momento de dificuldade, retira alguém com capacidade para dar profundidade (que de pouco serviria quando a equipa estava tão baixa), e coloca não um tanque, mas um pensador. Rúben Ribeiro, mais um elemento onde a bola descansa. Não procurou fechar por mais aglomeração. Não procurou o milagre de mais velocidade na frente, quando o jogo não dava possibilidades para sair, mas antes, deu armas à sua equipa para estancar domínio encarnado. E resultou! Independentemente da transição mortífera que definiria resultado final, não foi no banco do Rio Ave que se perdeu o jogo. Bem pelo contrário.

Em que se fixa primeiro (no jogo)?

Nos sistemas e em como podemos atacar desde a saída, desde a primeira fase, a segunda e a terceira, e como cortar a eles a primeira fase, segunda e terceira…

Xabi Alonso

Pelo perfil e qualidade da equipa vilacondense, que foi capaz de dominar grande parte dos jogos contra os grandes na segunda volta (e fora de casa! No Dragão e Alvalade), tinha Rui Vitória de tomar decisões que pudessem ajudar a sua equipa a passar num dos testes mais difíceis da época.

Como poderia o Benfica controlar e pressionar primeira fase do Rio Ave com Mitroglou e Jonas em simultâneo? Muito pouco expectável que isso pudesse acontecer. Com dois jogadores com menor capacidade para constantes movimentos em diagonal (quando um sai no central, movimento para a sua diagonal / costas, para controlar também médio defensivo (Petrovic) do Rio Ave), era previsível que a primeira linha ofensiva encarnada fosse batida várias vezes. A partir daí, um elemento da linha média teria de sair, já com a equipa a perder qualidade na organização. A ter de recuar e a ficar demasiado tempo sem bola.

Terá sido pensando sobretudo na sua primeira fase defensiva que Rui Vitória trocou Raul com Mitroglou. Uma simples troca de elementos e estrutura defensiva salvaguardada.

A queda do FC Porto na Madeira permitiu ao Benfica uma abordagem mais serena. Partir sobretudo do bom controlo defensivo, sem ter nunca de partir a equipa ou colocar mais risco em cada abordagem, porque o empate não seria uma tragédia.

Poderia e deveria o SL Benfica ser do ponto de vista ofensivo uma equipa com maior capacidade para desequilíbrios colectivos. Na presente época, porém, e porque individualmente tem na frente qualidade que resolve problemas, manter a organização defensiva, controlar e esperar tem sido suficiente para aproximar o Benfica de mais um título de campeão nacional. Partir como líder para jogos de dificuldade maior tem também sido uma vantagem. Naturalmente.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3013 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

2 Comentários

  1. A verdade é que o campeonato precisa de mais jogos como este. São este tipo de jogos que prendem pessoas à cadeira e ensinam a ver futebol…

  2. Cervi. Jonas. Salvio. Raul. Contra-ataque fulminante, como no antigamente, tudo em suspenso, até ser golo, o delírio. Pareceu 94, Schwarz, João Pinto, Paneira, Águas.

1 Trackback / Pingback

  1. Habilidade motora, qualidade técnica e decisão. Jonas, Pizzi e o Benfica. – Lateral Esquerdo

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