Carlos Carvalhal. O contexto, e a adaptação sem perder o padrão.

Uma coisa é preparar uma equipa na Turquia, onde todas as equipas jogam de forma similar. Não é fácil, mas a construção desta realidade é mais previsível. Em Portugal, Espanha, Itália ou Alemanha sabemos mais ou menos com o que contar. E montamos uma equipa para estas dificuldades. O Championship tem características distintas; temos de nos preparar para jogar sábado com o Newcastle, Norwich ou Derby, ou outras equipas que jogam apoiadas, a partir de trás; temos de ser mais organizados, com um padrão mais europeu, com capacidade para superar as dificuldades, mais competentes tacticamente. Na terça feira podemos defrontar uma equipa mais inglesa, com segundas bolas, jogadores altos, jogo muito parado, e todas as bolas paradas metidas na nossa área; um jogo diferente, com o desafio de dentro do nosso padrão, após vencer o Newcastle, como aconteceu, quando estava em primeiro, ter a capacidade de defrontar o Rotherham, último, e vencer aos 90’+4, num jogo dificílimo. Temos de nos preparar para uma prova heterogénea, jogando de três em três dias.

Carlos Carvalhal

Num jogo em que individualmente as forças não sejam demasiado desequilibradas, é impossível retirar a bola o tempo todo ao adversário, como fazia o Barcelona de Pep Guardiola. Por mais que não se queira, ou se tente negar, o futebol é um jogo em que se enfrenta um adversário que entra com o mesmo número de jogadores que nós próprios. E isso é quase sempre esquecido quando os adeptos falam do jogo. Falam sempre da falta de competência ou qualidade de uns se não têm a bola o jogo todo, ou se não foram capazes de em determinado momento impor o seu jogo, ignorando que há opositores do outro lado, e que duas equipas competentes tacticamente a defrontarem-se não tornam uma delas incompetente.

Construir um modelo não depende somente dos jogadores ao dispor de cada treinador. Obviamente que um modelo para ser bem sucedido terá sempre de resultar da interacção que se estabelece entre aquilo que os jogadores podem, conseguem e pretendem dar, e as ideias do treinador. Que se moldam às individualidades, que naturalmente se vão moldando também às ideias do treinador. É sempre um processo que modifica um pouco de ambos. Mas, o jogar se pretende guiar para o sucesso, não nasce somente da interacção de tais variáveis. A própria ideia tem de ter em conta a especificidade da competição, se pretendes vencer. Precisamente porque é impossível controlar a todo o instante o jogo e o adversário.

Os melhores têm hoje de dominar um sem número de variáveis. Desde a ideia de jogo, à capacidade para a adaptar aos recursos e à especificidade da competição que encontram pela sua frente. Ter um estilo acentuado, mas com capacidade para se adaptar será sempre o caminho dos que pretendem vencer. Poder escolher o perfil de jogador que melhor se integre na ideia de jogo é algo que só está ao alcance de poucas realidades. Para os que estão fora de tal esfera mais importará a capacidade de adaptação aos recursos, sob pena de as derrotas começarem a surgir de forma sucessiva.

A experiência que Carlos Carvalhal vai somando num contexto que lhe proporciona uma variedade de situações inacreditável, a agradável ideia de jogo que preconiza, e a capacidade para entender o que o rodeia, tornam-o hoje um dos treinadores mais interessantes na Europa do futebol. E seguramente, dos mais preparados para qualquer contexto.

 

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2931 artigos
Creator of the "Lateral Esquerdo", is also a teacher at the University Stadium in Lisbon. Soccer coach, having conquered several national titles in Portugal. Experience as soccer coordinator, and lecturer at various Sports Universities. Author of the book "Build a champion team" from the publisher PrimeBooks.

4 Comentários

  1. Viva,

    Este é dos tais que já só volta velhinho e depois de ganhar umas coisas lá fora. Talvez como seleccionador.

    Nunca foi apreciado, infelizmente, até pelos meus compadres sportinguistas (treinar naquele caos ugh).

    Um abraço,

    • Das melhores decisões de sempre de quem administra os teus compadres. Pelo menos da minha óptica de apoiante do vizinho mais a Sul na Segunda Circular.

      Impressionante o que faz por Inglaterra num clube modesto. Uma pena que os meus Hammers tenham decidido continuar a apoiar, lá está, um martelo em vez de lhe calçarem uns patins e darem ao Carvalhal o tempo de jogo na Premiership que tanto merece.

  2. Não vi nada ou quase isso durante a época toda mas depois vi os jogos do playoff. Fiz questão de ver. Sinceramente, o Sheffield fez dois maus jogos dentro daquilo que eu aprecio. Não sei se foi da nervoseira, da pressão, mas foram dois jogos partidos de charuto em charuto até ao charuto final. Os outros tinham piores jogadores e dominaram os dois jogos. Aliás, fiquei com a sensação que do ano passado para este o Carvalhal mudou algumas coisas: o perfil dos jogadores é diferente – esta época tem ainda mais gente forte, alta, robusta, rápida, essas coisas todas; e o modelo de jogo também aposta mais nas características que todos conhecemos em Inglaterra, com bolas rápidas umas atrás das outras (pensar?, o que é isso?), muita individualidade e muita emoção.

    Talvez seja um dilema que se impõe em Inglaterra: adaptar muito ou mudar tudo? Não sei se o Carvalhal vai no caminho certo (adaptar muito). É verdade que apresentou umas coisas giras mas gostei muito mais do que vi o ano passado, mesmo sem ter achado extraordinário ou perto disso.

    • Eu foi ao contrário, o ano passado vi os play-offs este ano ainda vi um par de jogos ao longo do ano. Condicionado por um plantel (ler aquela análise do TSV e do VP) e por lesões, a ideia acabou por estar lá com condicionantes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*