Clássico FC Porto vs SL Benfica

Onde poderá, tacticamente, começar a definir-se a toada do encontro?

Quando um treinador começa a preparar o jogo, tudo começa no idealizar os comportamentos para a primeira fase. Seja ofensiva, seja defensiva. É ai que começa a desenhar-se o “encaixe”, e o que trará o jogo.

Acredito que teremos um FC Porto pressionante na sua primeira fase defensiva, criando desconforto nos centrais encarnados, saindo com Aboubakar e Herrera ou quem actuar como segundo avançado, à pressão aos defesas do Benfica, que terão presumivelmente muitas dificuldades para conseguir ligar o jogo com o sector intermédio. Se tal acontecer, nas bolas longas, Felipe, Marcano e Danilo, controlarão duelos e trarão a bola para o FC Porto. Ao contrário, pelas próprias características de Jonas e de Pizzi e Krovinovic, dificilmente o Benfica optará por condicionar alto no campo a defesa portista, até porque tal implicaria que se alongasse mais no campo, sem ter garantias de sucesso sobre as bolas longas. Que perdidas, dariam ao FC Porto a oportunidade atacar contra menos e com mais espaço.

Portanto, acredito que da capacidade e disponibilidade defensiva de Herrera e Aboubakar, ou Soares / Marega, quem acompanhar o camaronês na frente, se começará a desenhar a toada do jogo.

 

A toada do desafio, será determinante para encontrar o vencedor?

Regra geral, sim. Quem tem mais bola, quem passa mais tempo no meio campo ofensivo, quem se aproxima mais vezes da baliza adversária, pelo menos enquanto o resultado está em aberto, tem mais probabilidades de vencer o encontro. Sobretudo quando no outro lado encontras alguns jogadores com erro. Para protegeres esses jogadores, que aqui e ali cometem erros, só dando-lhes um jogo em que tenham de intervir o menos possível. Mas, não podemos ignorar que quando há bons valores nos dois lados da contenda, uma recuperação e saída em contra ataque, uma bola parada, podem ditar um desfecho diferente daquele que todos esperam. Importante para ambas as equipas é conseguirem não estar por baixo demasiado tempo, isto é, não passarem longos períodos em situação defensiva, porque regra geral, isso paga-se. Acredito que o Benfica terá mais dificuldades para o evitar, precisamente porque não tem soluções nas suas individualidades para contornar a pressão do Porto…

 

Quem será determinante no jogo?

No lado do FC Porto, sem dúvida que o Brahimi é quem poderá ser a figura mais. Naturalmente que não é o candidato número um a sair na capa do jornal amanhã, mas é o jogador com mais qualidade para ligar os ataques. Para iniciar os desequilibrios que posteriormente se farão notar mais à frente no relvado. Tem estado a um nível impressionante, embora acabe os jogos com demasiado desgaste porque quase tudo passa por ele. Se tivesse que adivinhar quem poderá ser o melhor em campo, escolheria o argelino.

No Benfica, muito do sucesso dependerá, eventualmente, de conseguir ligar um contra ataque, e ai a agressividade e capacidade a chegar à zona de finalização, e a finalizar do Salvio será determinante. Pese embora, no caso do argentino esteja a falar de coisas diferentes das do Brahimi. Determinante porque é um dos que poderá surgir na capa do jornal pelo golo, ou jogada que o proporcionou. Mas dificilmente terá um jogo sem perdas, de boas decisões, e de aproximação da sua própria equipa ao golo, que não pelos seus impulsos individuais.

 

Não é um jogo para o Jonas? E para o Óliver?

Na minha opinião é um jogo para ambos. Percebo que o Jonas seja mais notado, e tenha maior preponderância, quando la está, se fala de sair na capa do jornal, nos jogos em que passa mais tempo perto da baliza. Afinal, não é um jogador rápido para aparecer para finalizar a maior parte dos ataques do Benfica num jogo desta natureza, em que se prevê que possíveis chegadas sejam em transição ofensiva, mas sem dúvida que pela sua qualidade técnica e inteligência, é um ponto onde o Benfica pode fazer a bola descansar, e na própria elaboração dos ataques rápidos, tem uma qualidade para os iniciar ou desenvolver à procura de ligação com os alas, que mais nenhum outro jogador em Portugal tem.
Com o Óliver, ainda mais. Creio que seria a solução para não se sobrecarregar tanto o Brahimi em zonas mais baixas, e para fazer a bola chegar mais vezes em melhores condições ao último terço. Mesmo defensivamente, não lhe consigo apontar lacunas suficientes para que não seja opção. É rápido a sair, a fechar espaços, e até tem uma boa capacidade para desarmar. Claramente é um jogo para o Óliver. Aliás, recordo o clássico do ano passado, em que encheu o campo de qualidade.

 

Cervi ou Zivkovic? Herrera ou Soares?

Só quem está dentro do processo saberá o ritmo competitivo e condição física dos jogadores. Digo isto porque tenho dúvidas sobre o Zivkovic e o Soares, que vêm de paragens grandes. Ou por lesão ou por opção. Em condições normais, optaria sempre por Zivkovic, o Cervi garante maior qualidade defensiva, e agressividade nas trasições, mas se o Benfica quer vencer, eu acredito que isso passará muito pela forma como conseguirá por alguns períodos esconder a bola do Porto… e ai Zivkovic tem outra qualidade…

Quer o Herrera quer o Soares não são jogadores especialmente dotados do ponto de vista técnico, não trazem desequilíbrio entre linhas. Valem-se muito pela agressividade defensiva, e disponibilidade para o jogo. Creio que Soares com Aboubakar traziam um desconforto muito grande aos centrais do Benfica. Não só pela disponibilidade para os momentos defensivos, mas porque se complementam nos seus movimentos, e são ambos muito poderosos a atacar a finalização. E o FC Porto até poderia guardar o Herrera para jogar na ala contrária ao Brahimi, equilibrando mais o jogo dentro…

 

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3047 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

2 Comentários

  1. Excelente análise.

    Tal como referiste, parece-me que a chave do jogo irá passar pela forma como o Benfica anula Brahimi (A. Almeida sozinho é mais que insuficiente), e pela maneira como consegue criar perigo com arrancadas de Cervi ou Salvio.

    Por outro lado, prevejo que o Jonas passe “ao lado” do jogo, tal será a asfixio do trio Felipe-Marcano-Danilo.

    A minha maior esperança, enquanto benfiquista, será Krovi. As suas receções orientadas podem ser uma mais-valia para ultrapassar a primeira fase de pressão alta do Porto e a partir daí ligar setores, desmarcar Salvio ou mesmo combinar com Jonas.

    Logo veremos! 🙂

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