O caminho de Miguel Cardoso no Rio Ave – Coragem, ousadia e um final feliz

A época está prestes a terminar e algumas equipas já conseguiram os seus principais objectivos. O Rio Ave é uma delas. Conquistou o quinto lugar, igualando a melhor época de sempre da equipa vilacondense. Porém, não o conquistou de uma forma dita normal, conquistou-o através de um caminho, de uma ideia de jogo construída, desenvolvida e cimentada desde o início da temporada, nunca abdicando de ser quem era, nunca deixando de ser corajoso, ousado e assim obtendo o divertimento de quem estava por dentro do processo e de quem, exteriormente, absorvia e admirava a ideia.

De facto, uma das coisas boas que a nossa Liga nos trouxe, foi a chegada de Miguel Cardoso ao leme do Rio Ave. O que fica na memória de todos aqueles que gostam do bom jogo em relação ao Rio Ave, foram as ideias e foram sobretudo essas ideias que mostraram um Rio Ave muito trabalhado em todos os momentos do jogo e ao mesmo tempo, a crescente valorização de atletas e treinador. Quem não se lembrará das fantásticas exibições entre outras nos dois jogos frente ao Benfica e Sporting em Vila do Conde? O que Miguel Cardoso trouxe ao futebol português, foi a coragem de assumir uma ideia de jogo e nunca fugir da mesma, fosse qual fosse o adversário. Sempre soube qual era o seu caminho, mesmo que pelo meio tenha tido os percalços habituais de quem faz uma longa caminhada, mas nunca deixando de ser quem era, nem deixando de acreditar em quem era. Para além disso, mostrou o caminho da valorização aos seus jogadores. Todos eles saem muito valorizados no fim desta temporada, o Rio Ave com perspectivas de conseguir excelentes negócios e os jogadores com oportunidade de melhorarem as suas vidas quer desportivamente quer financeiramente. Podemos falar de Marcelo, já transferido para o Sporting, mas também de Cássio, que se tornou personagem maior pela evolução e coragem no jogo de pés, do reaparecimento de Nélson Monte, central com muita qualidade em todos os momentos do jogo, da fantástica época de Yuri Ribeiro e Pelé, que os levarão muito possivelmente de volta à casa mãe, da crescente valorização de João Novais, da estabilização do jogar do capitão Tarantini, da melhor época de sempre de Guedes em relação à estatística de golos marcados, etc, etc. Se podia ter escolhido outro caminho? Não sei se podia, mas como dizia o outro, não seria a mesma coisa, nem teria dado tanto prazer.

O que mais marcou no jogar do Rio Ave, foi a proposta para o seu momento de organização ofensiva, sem descurar todos os outros, obviamente. O sair sempre a jogar detrás com critério, nunca batendo na frente só por bater, mesmo com o adversário a condicionar ao máximo e quando a maioria das equipas fecha e se prepara para o pontapé directo do guarda redes, o Rio Ave forçava, criando arrastamentos e consequentes linhas de passe, abrindo a equipa para jogar, criando linhas de passe verticais e horizontais, o jogo interior e exterior, a capacidade de atrair o adversário por fora para depois entrar por dentro do seu bloco ou ligando dentro dos sectores do adversário para os juntar e libertar por fora para situações de superioridade ou igualdade numérica no corredor lateral, etc, etc. Naquilo que é o papel do treinador de criar condições para a equipa chegar junta ao meio campo adversário, para se instalar no mesmo e trabalhar para entrar no último terço, há muito mérito de Miguel Cardoso. Há também um Rio Ave diferente com Rúben Ribeiro e sem o mesmo, é justo dizê-lo. Porque Rúben, quando estava no Rio Ave, tinha a qualidade, a criatividade e a irreverência que mais nenhum jogador tinha. Foram muitos jogos em que Rúben Ribeiro foi o destaque maior da equipa vilacondense e porquê? Porque tinha uma ideia de jogo que também o potenciava e muito, para lá da sua qualidade individual. A sua saída, trouxe maiores dificuldades ao Rio Ave, tendo perdido um pouco a criatividade e a irreverência no último terço tão necessárias num modelo de jogo como este, dominador, com muita posse de bola e com um controlo de jogo assente no ter a bola, mas com falta de jogadores desequilibradores no último terço em zonas de criação, daí por vezes se ter falado em alguma falta de objectividade da equipa vilacondense. Termina a temporada em quinto lugar e esperará por uma possível vitória do Sporting na final da Taça de Portugal para poder festejar o acesso à Liga Europa. Mérito de toda a gente envolvida, mas sobretudo do treinador Miguel Cardoso, principal responsável por tantos e bons momentos de excelente futebol que deixaram marca. O futuro será risonho, sem qualquer sombra de dúvida.

 

 

 

José Carlos Monteiro
Sobre José Carlos Monteiro 47 artigos
Treinador de Futebol, Uefa B, com percurso e experiência em campeonatos nacionais nos escalões de formação. Colaborador como observador e analista em equipas técnicas na Primeira Liga. Alia a paixão pelo treino e pelo jogo à analise de jogo.

1 Comentário

  1. Concordo com tudo aquilo que foi dito. Miguel Cardoso é um treinador muito interessante no aspecto tático. Isso viu-se num rio ave que constrói sempre de trás.

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