Exclusivo Miguel Cardoso – A operacionalização da Ideia – O treino por detrás do jogo

Um dos aspectos muito positivos que Miguel Cardoso trouxe no seu regresso ao futebol português, foi a coragem para impor a sua ideia de jogo fosse qual fosse o contexto. Uma das marcas mais visíveis do jogar do Rio Ave na temporada que terminou, foi a forma como saía para o jogo sempre de forma criteriosa, pensada e ligada. Para muitos um risco, para outros uma forma de ficar com bola e ligar a equipa nas suas diferentes fases. Com critério, de forma pensada e com muita paciência até haver espaço de progressão.

Palavra de destaque para Cássio. Como cresceu o guardião vilacondense nesta temporada, sendo mais um elemento de ligação da equipa no jogo com os pés. Não foi só a sua evolução no jogo de pés que mereceu destaque, foi também a forma como foi capaz de compreender o jogo, sobretudo quando pausava e esperava a melhor linha de passe para posteriormente ligar a equipa. Quer seja a ligar directamente nos centrais e estes a devolverem e Cássio a ter que pausar para esperar pela mobilidade dos colegas sobretudo no corredor central para receber, quer directamente no pontapé de baliza com os centrais já condicionados e o mesmo a ser pressionado e a ter que meter passe no corredor central nas costas da primeira linha de pressão do adversário, Cássio foi um elemento em destaque neste Rio Ave.

À sua frente, os centrais. Porque não é fácil adaptarem-se a um estilo de jogo que requer muita preparação, mas também muito critério, à qualidade técnica nas acções, a personalidade, tranquilidade e serenidade mesmo sob pressão durante essas mesmas acções. No corredor central da zona intermédia, quase sempre ocupada por Pelé e Tarantini numa linha mais baixa e por Francisco Geraldes numa zona mais subida, o trabalho para receber, a mobilidade para serem solução em cobertura aos centrais ou mesmo ao guarda redes Cássio, os arrastamentos que levavam adversários consigo e abriam espaços para outro colega vir buscar no espaço vazio e daí sair de frente para o jogo, houve um trabalho extremamente bem executado e idealizado por Miguel Cardoso e sua equipa técnica.

Para chegar a este nível, dois factores que considero essenciais: o convencimento e o treino. Primeiro, o convencer os jogadores da ideia. Porque hoje em dia não é fácil convencer um jogador dos benefícios de certas e determinadas acções, sobretudo quando são acções com um grau de risco elevado, risco esse, ainda assim, calculado por quem preconizou a ideia. Não basta chegar e dizer, é preciso explicar o porquê de cada acção, porque hoje em dia o jogador é uma máquina cheia de dúvidas e de incertezas, de confiança quando as coisas correm bem, de interrogações quando correm menos bem. Aí, importante o papel da convicção do treinador, da sua equipa técnica e da estrutura. A ideia está escolhida, está traçada e é trabalhada até à exaustão, com repetição atrás de repetição, mas também com espaço para o erro, porque é no erro que se aprende a melhorar. Onde? No treino. É no treino que se desenvolve a ideia, com exercícios específicos para aquilo que se quer trabalhar.

O Rio Ave demonstrou muita qualidade e criatividade na sua primeira fase de construção, mas não o fez por obra do acaso. Obra e graça do trabalho semanal, das repetições e correcções até chegar aonde se pretende. Como? Com jogo. Não se entenda jogo só pelo habitual jogo formal, mas sim com exercícios com condicionantes específicas para aquilo que se quer evoluir. Fique com excertos de alguns exercícios de Miguel Cardoso nesta última temporada e perceba o porquê do Rio Ave sair de forma tão capaz e pensada para o jogo.

Vale a pena ver, em mais um exclusivo Lateral Esquerdo.

 

José Carlos Monteiro
Sobre José Carlos Monteiro 47 artigos
Treinador de Futebol, Uefa B, com percurso e experiência em campeonatos nacionais nos escalões de formação. Colaborador como observador e analista em equipas técnicas na Primeira Liga. Alia a paixão pelo treino e pelo jogo à analise de jogo.

1 Comentário

  1. Sem perder muito tempo há volta do vídeo dá ideia de acontecer o que aocontecia nos jogos. Passa muito tempo até encontrar o momento ideal para sair do seu meio-campo, mas depois o jogo no segundo e último terço é mais apressado e com menos qualidade. Se calhar pelo binómio qualidade individual disponível-espaço para jogar.

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