A era em que a estratégia vence jogos. O Modelo, o emocional. Lições de um futebol cada vez mais completo

Miguel Cardoso que está à beira de sair da Liga NOS sem ter tido ainda a possibilidade de se experimentar a um nível superior (lá chegará) deu uma série de boas entrevistas, ao Jornal Record e ao Expresso, das quais trago alguns excertos.

Vivemos a era do modelo de forma apaixonada. Quem lá chegou primeiro teve imenso sucesso. Tacticamente, o jogo estava muito atrasado em todo o mundo, e muito do que nasceu em Portugal foi inovador e permitiu a afirmação do treinador português em todo o Mundo.

Os mais inteligentes continuam a percorrer o modelo, mas numa era diferente. O que faz a diferença tacticamente e permite maximizar possibilidades (e maximizar possibilidades não é tornar a equipa favorita, mas passar de ter 10 por cento de hipóteses de vencer, para ter 15, já é algo que poderá fazer a diferença) é mais vezes a estratégia própria para cada partida.

Sobre a vertente estratégica, Miguel Cardoso referenciou o jogo que já havia trazido ao Lateral Esquerdo:

Então é assim: vamos preparar este jogo de forma diferente. Há um processo claro de construção do Braga, em que a dinâmica ofensiva passa muito pelo jogo nos corredores, é uma equipa que não tem um jogo interior tão forte, com todo o respeito. Nós por dentro somos fortes e vamos condicionar a possbilidade deles construírem por fora, vamos obrigá-los a vir para dentro. Vamos estar curtos, vamos estar subidos, vamos estar altamente pressionantes, não vamos deixá-los jogar e vamos obrigá-los a jogar para dentro”. Já o tínhamos treinado uma ou outra vez, embora nunca o tivéssemos levado à prática num jogo.

Aquilo que fizemos foi orientar a pressão dos nossos alas no sentido de trazê-los para dentro. O Braga construía a três, portanto o Guedes orientava para o Raúl ou para o Goiano e depois os nossos alas, ou o Diego ou o João, faziam movimentos circulares, de fora para dentro, para não deixar ligar ou ao Esgaio ou ao Jefferson, e obrigá-los a trazer para dentro, onde nós tínhamos Geraldes, Tarantini, Pelé muito subidos e pressionantes. Provocámos um mini caos na equipa do Braga, claramente, com muitas perdas de bola, com muita instabilidade, com a equipa a cair depois num esticar de jogo longo que nós controlámos com muita facilidade, porque estávamos preparados para isso. Fomos altamente competentes. Aos 15 minutos, há um jogador que vem ao banco e diz assim, a expressão foi esta: “Mister, mister, esta merda está a funcionar! Eles estão todos confusos”. [risos] Eh pá, isso é brutal. Até porque nós ouvíamos as indicações, que eram “liga fora, liga fora”, mas eles não conseguiam porque as ligações estavam, por regularidade, fechadas. Foi um gozo brutal porque foi um desafio que nos permitiu testar uma coisa que já tínhamos treinado e porque conseguiu focar os jogadores, que só treinaram dois dias mas com grande rigor relativamente a isto e num contexto emocional muito positivo, porque a equipa já estava liberta de pressão e aceitou o desafio. Fizemos um jogo brutal, muito bem conseguido. Ganhar naquele momento a uma equipa que estava a discutir o 3º lugar foi espantoso. Deu-nos o direito a pertencer, até um dia destes, à história do clube.

Miguel Cardoso ao Expresso

No Lateral Esquerdo já havíamos trazido não somente a intenção e o produto final, mas também o processo. (aqui)

Para quem não teve oportunidade de ver, eis como Miguel Cardoso preparou no treino a estratégia para defrontar o Braga:

Notas para ver o video:
– Coletes brancos simulam construção para criação do Sporting de Braga;

– Comportamentos dos laranja em função do plano estratégico, que viria a resultar na partida;

  • Em traços gerais, uma das estratégias definidas (bem descrita anteriormente) passava por tapar linhas de passe para os corredores laterais, convidar a jogar por dentro, onde o Rio Ave aguardava chegada bracarense em superioridade numérica

– Coordenação incrível de movimentos do colectivo, no exercício. Só assim resulta na competição!

…estrategicamente, a uns e outros, pressionávamos de forma distinta: a uns pressionávamos o guarda-redes, a outros não, a outros deixávamos entrar dentro, etc. Agora, questões de grande profundidade do nosso ser, isso não alteramos. Mas estrategicamente fomos mudando algumas coisas. Em Braga, por exemplo, jogámos sem ponta de lança. Acabámos por perder, mas foi dos jogos mais bonitos que fizemos. Sem o Geraldes e sem o Tarantini, inclusivamente, com uma estratégia ajustada ao momento, porque não os pusemos por opção, tal como o Guedes, que estava tocado, porque depois íamos ter jogo da Taça. Também é fundamental percebermos quando precisamos de estratégia para ganhar e quando aquilo que somos é suficiente.

 

O crescimento táctico a um nível global fez emergir aquilo que era acessório. E que será acessório, se houver uma involução táctica! O lado emocional!

Tempos houve em que a más equipas tacticamente era apontada a falta de vontade, quando não era absolutamente nada disso que se tratava. Hoje, com o lado táctico a ser cada vez mais falado e abordado, tantos são os que querem fazer o contrário.

Numa era de organização, estratégia táctica e emocional, é a cereja no topo do bolo

Por exemplo, houve algumas coisas no Rio Ave em que procurei, não é manipular, porque essa não é bem a palavra certa, mas induzir para que acontecessem determinado tipo de coisas, porque acredito que tudo o que tem a ver com emoções é fundamental ser criado e gerido e estimulado

 

Porque o jogo é tático, mas por trás do tático há muitas outras coisas. A tática, por si só, não faz ganhar. O lado emocional é brutalmente importante.

 

vivo e instalo em mim as emoções que acho que são fundamentais para eu ter rendimento e para que a minha equipa potencie o o seu rendimento.

Miguel Cardoso

Enquanto não se percebia e falava da vertente táctica, esta foi trazida cá de forma sistemática. Hoje, que todos ou quase todos são competentes, uns com ideias mais aprazíveis outros ideias menos aprazíveis (e aqui o critério de escolha terá de ser em função dos ideais e do que é possível a cada clube determinar para si, e não em função do gosto pessoal de cada um de nós), importa trazer de novo a emoção para o jogo.

Mas ainda sobre a organização, independentemente do estilo, refere Miguel Cardoso:

não gosto mas admiro, que é uma coisa diferente. Mas não quero para mim. Acima de tudo gosto de ver equipas que se nota que têm uma ideia, um modelo, que são fiéis a alguma coisa. Porque isso é o primeiro caminho para se ganhar. É muito difícil ganhar a equipas que têm um propósito coletivo muito forte.

Em 2016 partilhava o “...that inch“, onde trouxe a minha própria palestra no jogo que determinou o campeão nacional de futebol feminino. Centrada 5 por cento na vertente táctica e 95 na emocional.

E se a prática me fez perceber algumas coisas, a importância de mexer com emoções e com a adrenalina antes de cada partida foi uma delas. Em cima da competência que nunca se poderá deixar de ter, e a que é a que permite chegar às decisões. A do modelo de jogo. A das ideias. A táctica e a de decisão. Todavia, colocar a emoção em forma de determinação e perseverança no relvado faz demasiadas vezes a diferença. Sempre em cima da competência do mais importante, naturalmente.

Porque quem joga este jogo, por mais distantes que nos pareçam, continuam a ser pessoas.

Ser treinador é nos dias de hoje, tantas vezes ser actor. Criar os contextos que Miguel Cardoso referiu, sem poder abrir em demasia o jogo. Fazer X para acontecer Y, para que a partir daí se intervenha com sentido e assertividade. Sobre esses contextos criados, quem sabe não foi a própria presença de Francisco Geraldes no banco do Rio Ave uma forma de potenciar o próprio Francisco e a equipa vila condense? Foi o próprio Miguel Cardoso que referiu numa entrevista:

E houve momentos em que ele nem sequer jogou, quando eu entendi que não jogar era melhor para ele percorrer esse caminho.

Miguel Cardoso

 

Sobre o modelo também foram tecidas considerações

Por exemplo, a propósito da construção curta… Ao contrário do que passou, a minha equipa não tinha que sair sempre curto. Aquilo que nós fazíamos era encontrar um dispositivo inicial, com determinadas dinâmicas, que permitisse ao guarda-redes escolher. Ou seja, para mim, quando se joga, o que é fundamental no futebol é dar ao portador da bola várias escolhas. escolhas não são umas escolhas quaisquer, são aquelas que nós queremos que sejam as escolhas, obviamente…a possibilidade de nós termos escolhas é a melhor coisa do mundo. Quer dizer, eu se só tiver a possibilidade de ir para casa por um único caminho, vou toda a vida por aquele caminho. Mas se tiver vários caminhos, posso escolher.

Sobre a adaptabilidade do modelo e a importância de soluções para diferentes problemas:

montámos cenários distintos de construção para que ele tivesse escolhas em função das formas como os adversários nos poderiam pressionar. Nem sempre ele, ou eu, ou os colegas disponibilizámos os melhores recursos para os momentos, mas, como regularidade, disponibilizámos recursos que permitiram ver coisas inacreditáveis, inacreditáveis, em termos de futebol.

 

O treinador pode ver o que está a acontecer, mas o jogador sente-o! Porque não ouvi-los mais?

Podemos definir um futebol top e escolher os jogadores para a nossa maneira de jogar, mas quando temos à nossa frente uma equipa em concreto, temos de acomodar a ideia aos jogadores, ao contexto…

O modelo de jogo é um mapa. Não é um território! Há que negociá-lo com os jogadores.

Júlio Garganta na “The Tactical Room”

Sobre a humanização do treino e do jogo, referenciada por Júlio Garganta, importante perceber que cada vez mais a informação e a definição do que se pretende e do que se fará vem dos dois lados. Do jogador e do treinador. Embora, ao treinador caiba promover e proporcionar episódios que levem os jogadores a escolherem aquilo que ele pretende que escolham… É um caminho que se faz com decisões de ambos os lados, mas os melhores treinadores são capazes de criar os cenários que levem a que os jogadores escolham o caminho do treinador, tendo-o como seu!

E chegas aos jogadores e perguntas assim: “Como é que vocês querem jogar com o Benfica? Nós vamos jogar como vocês quiserem jogar. Há duas maneiras: ou montamos um ferrolho e ficamos cá atrás e se calhar vamos chegar lá à baliza, ou então vamos jogar igual, como temos jogado, e vamos testar-nos. O que é que nós perdemos, se perdermos? E o que é que nós ganhamos, se ganharmos? Que caminho é que vocês querem percorrer?” E os jogadores não tiveram dúvidas: “Vamos jogar igual, caralho.” Então vamos. E vamos ver se conseguimos competir. E competimos.

Sobre a era da estratégia, que altera os comportamentos do modelo em função da análise SWOT:

obviamente sabemos que não podemos ter a bola descoberta e manter a linha alta e dar 40 metros nas costas, principalmente quando o adversário tem jogadores que vão à profundidade. Porque, por exemplo, se é o Luiz Phellype, do Paços de Ferreira, que está a ponta de lança, a gente não tem problema nenhum em manter a linha alta, porque ele vai é fazer um movimento de aproximação. Agora, se estiver lá o Marega, que alarga ao corredor e pira-se para ir buscar às costas, com o Aboubakar a vir buscar entre linhas para receber e meter logo lá, então aí já tens problemas. Ou seja, também tem a ver com questões estratégicas, porque há momentos em que podes manter a linha alta.

Há mais de um ano referia o excelente Bruno Fidalgo (aqui):

A questão da bola coberta e descoberta é importante mas não me parece que seja suficiente. Para evitar baixar sem necessidade, acredito que os jogadores devam estar focados na leitura corporal do adversário. Faz sentido preparar os apoios para correr quando a bola está descoberta mas só fará sentido diminuir o espaço existente em profundidade, quando o portador revelar intenções de colocar a bola nas costas da linha defensiva.

Sobre isso, corrobora-lhe a opinião Miguel Cardoso:

Até porque eu acho que a grande diferença entre as equipas de altíssimo nível e as que podem ter algum nível é essa: não é baixar a linha pelo facto de a bola estar descoberta, é apenas quando se pressente que há intencionalidade em fazer o serviço à profundidade, o que é uma coisa distinta. Esse é o patamar de excelência. Não é apenas pela bola estar descoberta, é por que há de facto uma intencionalidade de agressão à profundidade. E tu dizes assim: isso já é um patamar de risco.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3288 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

5 Comentários

  1. Foda-se, isto é só chocolate? Vou tentar de repensar minha contribuição porque isto tem muita qualidade. Brutal.

  2. Claro que a estrategia contrariou os processos do modelo tipo JJ. Mas se os processos ditaram rotinas faceis de contrariar, a estrategia nao pode tambem ir ao encontro da identidade da equipa.
    Alias, modelos, processos e estrategias so tem interesses nas aberturas e nas finalisaçoes das jogadas, e como no xadrez, a seiva do futebol està no meio da jogada, onde hà poucos espaços e onde sobressai o genio e a tactica dos jogadores mais valiosos sendo que o meio nao pertence somente aos meios-campistas mas a todos: aos pontas como jonas, benzema, isco, hazard, neymar e tambem aos defesas como marcelo, daniel alves, boateng, bonnuci, hummels….

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