Aprendizagem táctica – A arte de defender com poucos

Foi Jorge Jesus quem afirmou que defender com poucos é uma arte.

Na era em que os golos surgem maioritariamente no momento de transição ofensiva, defender com qualidade com poucos é cada vez mais decisivo.

Para que tal possa acontecer, há que conhecer o melhor posicionamento a adoptar em função do que a situação de jogo está a pedir. E este posicionamento depende sobretudo do número de jogadores que vão defender o lance, e do posicionamento da bola.

Referia o Ricardo Ferreira que na nossa interpretação do jogo, o primeiro sub momento da Transição Defensiva é:

  1. Reacção à perda da bola: os instantes, ainda no centro de jogo, imediatos à perda da bola. Os comportamentos defensivos a adoptar nessa situação. Para a maioria dos treinadores, o objectivo fundamental será não só tentar de imediato a recuperação da bola, mas não permitir ao adversário a possibilidade de contra-atacar. Portanto, impossibilitá-lo ou atrasá-lo em sair com a bola dessa zona de pressão e procurar espaços para desenvolver o contra-ataque.

Sobre o golo da Bélgica e a forma como o Brasil falhou no primeiro sub momento da sua transição defensiva, o Savicevic já falou aqui.

Porém, errar ou não resolver o lance no primeiro momento não terá de implicar necessariamente sofrer golo. Depois de perdido primeiro momento, há duas etapas decisivas a cumprir para que se evite males maiores.

Na recuperação Defensiva

(na tal lógica sequencial, se o adversário conseguiu sair da zona de pressão, independentemente dos jogadores fora do centro de jogo (primeira zona de pressão) já deverem está a fechar a equipa e a recuperar o seu posicionamento defensivo, neste sub-momento, torna-se ainda mais importante a recuperação do máximo número de jogadores, contemplados pela organização defensiva da equipa, para trás da linha da bola.)

o Brasil colocou empenho bem patente na forma como os seus jogadores aceleraram para trás da linha da bola, procurando aumentar a relação numérica.

O que falhou estrondosamente foi a forma como defendeu o contra ataque. Ou seja, como encarou o terceiro sub momento da Transição Defensiva

Defesa do contra-ataque: se ambos os sub-momentos anteriores da transição defensiva falharam, então, antes das acções de defesa da baliza do Guarda-Redes, a equipa tem ainda a possibilidade de defender o contra-ataque adversário. Perante relações numéricas diferentes, poderão ser adoptados comportamentos que poderão reduzir as possibilidades de sucesso de quem ataca.

Com cinco jogadores atrás da linha da bola, mesmo perante tanto talento na equipa adversária, o Brasil tinha todas as condições para impedir a Bélgica de chegar à finalização. Para isso, havia que defender com qualidade, ou seja conhecer o melhor posicionamento para defender uma situação de jogo em que o portador está enquadrado e nós estamos com cinco jogadores dentro da jogada.

No video trago a forma mais eficaz de defender uma situação tal como o Brasil a enfrentou, e o erro tremendo de Coutinho (?!), que por falta de hábito em enfrentar situações que o obriguem a fazer parte da última linha, não percebeu que o tinha de fazer, e precipitou o golo da Bélgica.

 

Para vocês, pais de jogadores ou projectos de jogador de futebol, nos dias em que no treino os vossos miúdos não estejam na posição que vocês e ele próprio mais gostem, antes de refilarem, lembrem-se: Um dia, um dos melhores do mundo, poderia ter ajudado a evitar a eliminação da sua equipa de um Mundial, se tivesse passado por isso…

 

 

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3406 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

6 Comentários

  1. Bom post, Pedro.

    Há um golo que me intriga bastante, que é o do Kramarić à Rússia (que na altura dava o 1-1), o lance começa meio confuso (por culpa da transmissão), mas creio que é uma perda de bola a meio-campo na faixa esquerda de quem ataca, os jogadores Russos estão a recuar à medida que o lance se desenrola e não de frente para o jogo (o que é logo mau auguro) mas o que me intriga é estarem 4 à volta da zona do cabeceamento e nenhum ter conseguido atacar a bola (ainda que vá tensa), será que se deveu tudo a mau posicionamento? A inércia no ataque à bola? Não consigo mesmo precisar o que falhou.

  2. Percebo e acompanho as críticas ao Coutinho (ficou sempre a meio caminho de qualquer coisa) mas tenho a seguinte dúvida:
    Não devia o Fernandinho, após “falhar” no primeiro momento, ter tentado mais contenção, acompanhando o Lukaku, fechando o centro, obrigando a correr para fora ao invés de, como fez, forçar o drible (para mais sem cobertura do Tiago Silva)?

  3. No meio de tudo o mau que o Fernandinho fez, o erro do Coutinho está longe de ser “tremendo”, mas sim faz todo o sentido o propósito do texto

  4. Excelente o artigo. Fernandinho péssimo na primeira abordagem e no seguimento do lance, tinha que ter percebido o desiquilibrio e ter consicionado o Lukaku. Coutinho não percebe o que tem que fazer e a comunicação com Marcelo foi terrível. Ambos nitidamente hesitam e ficam aos papéis. No limite Coutinho teria que ter adoptado uma referencia individual. Assim bem ocupou a posição/ espaço, nem tapou DeBruyne ou Hazard. Muito mau

  5. Muito difícil ao Coutinho “perceber” e ir fechar à esquerda…também com Marcelo mais ao meio…Muito rápido. Teriam que ter esse conhecimento absorvido para se poderem “lembrar” em jogo.

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