Um por todos e todos pela Bola!

a) foto retirada da página oficial do facebook de Johan Cruyff

A essência do Futebol Total nasce da vontade de determinar os caminhos da bola pelos nossos próprios pés, ou, quando não a temos, determiná-los limitando aqueles que a têm. É total porque enquanto EQUIPA não há “os que servem só para defender” e “os outros que são só para atacar”, e é por isso mesmo que imbuídos desta ideia vamos caminhando juntos no campo, para estarmos sempre disponíveis para interferir nas trajectórias a dar à bola tendo-a ou não a tendo.

Antes do jogo de futebol aquilo que nos é apresentado no seio da família é uma bola. O jogo/a paixão/a brincadeira para nós começa por ser uma bola, e andamos alguns anos em que a nossa relação (remota) com o futebol é essa, exclusivamente. Só mais tarde passamos a incluir, a permitir que algumas pessoas, em quem nós confiamos muito, partilhem o prazer da bola connosco, com a condição de que a devolvam rápido. É um choque o primeiro momento em que nos roubam aquilo que sempre foi nosso, é um choque quando descobrimos que afinal havia mais para além da bola. Não raras vezes a reação “à perda” é chorada, revoltada, amuada, ou uma tentativa, mais proactiva e alegre, de a recuperar – tudo soluções com o mesmo fim ter a bola de novo para “mim”, porque sem ela não há jogo, porque ela é tudo o que concebemos do jogo.

Portanto podemos dizer que é da bola que nasce a ideia, é da bola que nascem todos os princípios. Podemos não ter aquilo a que chamamos recordações, mas a memória do nosso corpo vai entranhando, vai (progressivamente) somatizando uma cultura do que é o jogo para nós, desde que nascemos (através das experiências e com algumas coisinhas que nos são dadas “à nascença”)… inegavelmente a bola está no princípio de tudo!

Não é de admirar que muitos miúdos percam o interesse quando percebem que o jogo que inicialmente lhes apresentaram – a bola, esse objecto que nos fazia sentir os donos do mundo – é afinal bem diferente daquele que mais tarde os vão colocar a jogar – com a ajuda de 10 colegas tentar colocar a bola (partilhando-a muitas vezes) dentro de um retângulo, e de preferência mais vezes do que outros 11 que nos procuram dificultar essa tarefa, porque querem o mesmo. Ou seja há muito mais do que aquilo que nos deram a conhecer, talvez por isso muitos se dedicam ao freestyle tanta é vontade de constantemente terem aquilo que lhes disseram que era deles e que era a única coisa que precisavam para ser felizes. Para os que se apaixonam pelo jogo (e por tudo o que ele é) muitas outras coisas interferem no longo processo até chegarem a uma equipa sénior, mas relembramos: a bola está na origem de tudo.

Para os que não se esquecem do ponto de partida que lhes permitiu mais tarde conhecer o jogo de futebol há muita esperança, é que o jogo também ele pode nascer da bola, valorizando-a numa “obsessão” por tê-la de forma a determinar aquilo que lhe acontece, evitando/ultrapassando os constrangimentos colocados pelo adversário, inventando soluções. E é aqui que nasce uma necessidade vital, para aqueles a quem o futebol só faz sentido com a bola: nasce a EQUIPA. A descoberta de que se não dermos a bola “aos nossos” estaremos mais perto de ficar sem ela para sempre é o que nos abre os horizontes à partilha e ao Futebol Total. É precisamente porque as paixões de todos nasceram do mesmo que todos temos o privilégio de atacar e o privilégio de defender.

É nesta necessidade que a EQUIPA ganha uma enorme importância, mas fiquemos tranquilos, porque a valorização da equipa também valoriza o individual. E também podemos ficar descansados, porque valorizar a bola não significa que vamos ter jogadores que não sabem defender, antes pelo contrário.

Esta valorização quase obsessiva, mas que no fundo é “só” apaixonante, vai trazer para o treino e para o jogo uma necessidade de defender muito bem para recuperarmos aquilo que mais queremos ter para dominar o jogo. Claro que defender para ganhar a bola não é o mesmo que defender só para proteger a baliza e por isso, neste carinho pela bola, surgem jogadores que defendem de formas diferentes (com referências diferentes) – há então uma especificidade que será importante para o futuro. O “habitat natural” no futuro poderá ser diferente em função do jogo que se foi jogando de pequeno. Por isso é também importante jogar (nos treinos com dificuldades – equipas equilibradas, por exemplo) contra equipas que nos façam passar por problemas, e nos obriguem a inventar formas de impôr aquilo que nós queremos e que nos forcem também (por não nos darem outra hipótese) a ter como prioridade a proteção da baliza (como maior preocupação, não única entenda-se, em determinados períodos do jogo).

Tendo isto em conta (a bola como origem do jogo) que melhor forma de jogar que não sendo “todos a atacar e todos a defender”?

Precisamos de todos para, enquanto mantemos a segurança da bola, procurarmos progredir e chegar perto da baliza com gente para recuperar a bola logo que possível e para haver várias soluções para finalizar.

Precisamos de todos para, enquanto protegemos a profundidade nas costas da última linha, mantermos a bola sob pressão para a (re-)conquistar e também necessitamos de quem proteja (numa zona intermédia) aqueles que com agressividade provocam o erro com essa pressão na bola. Assim como com bola precisamos daqueles que jogam por dentro, dos que criam duvida no adversário nas várias dimensões/amplitudes do campo, etc. etc. etc.

Do nascermos sozinhos com a bola à EQUIPA que dá sentido ao jogo com bola, vai um longo caminho que não se quer com grandes pressas… nem o jogo nem o caminho.

João Baptista
Sobre João Baptista 10 artigos
A paixão por Futebol conduziu-o até à FCDEF (Universidade do Porto), onde o Professor Vítor Frade viria a ser uma grande influência na busca constante da essência do jogo e do treino. Com passagens por FC Porto B, FC Porto (Dragon Force), Valadares Gaia FC (feminino), AD Sanjoanense e EF Hernâni Gonçalves, desde 2016 que se encontra na China, de momento num projecto de formação ao serviço do Zhichun FC. A página/o blog "Bola na Árvore" são reflexões de quem vai à procura da essência do jogo, da formação, do treino e da vida que se manifesta no futebol... na busca incessante vai-se aprendendo.

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