O “Caminho” do Desenvolvimento

Melhorarmo-nos e (no caso de gente cuja paixão é formar) melhorar os outros deve ser uma preocupação diária. Importa perceber as devidas diferenças entre o ensinar e o criar condições para que se aprenda e ainda que não fale disto ao longo das seguintes linhas importa ter isso presente, para se perceber que o ideal é que a vontade de melhorar parta de cada um ainda que hajam variadíssimas formas de “espicaçar” essa vontade.

Ora, para que se dê este “melhorar” constante, há algumas condições fundamentais:

1. “Amar o que fazemos!” (que não é o mesmo que “fazer (só) aquilo que gostamos”). Entender o conceito de “amar o que fazemos” como catalisador da aprendizagem é fácil. O que acontece é que, erradamente, damos por muita gente que quer retirar do processo tudo aquilo que a criança não gosta ou a faz sentir-se frustrada – “Medalhas para todos!”, “Não gostas de defender? Ok, tu só atacas!”, “Não se fala em perder ou ganhar no treino, porque isso faz ‘sofrer’ quem perde!”… é nefasto retirar do caminho da criança tudo aquilo que a incomoda, mas que faz parte da vida, eu diria até que algumas coisas (na devida proporção) devem ser promovidas para que o desconforto surja e assim haja a possibilidade de ser superado. Como uma vacina, que com a dose certa de corpos estranhos nos obriga a criar defesas para combater a “doença”. Isto vai até de encontro ao conceito de protecção que tem pouco que ver com o “limpar o caminho da criança/jovem de tudo aquilo que ele não gosta e que a faz aborrecer-se.”

2. “Ter a noção de que não somos bons o suficiente!” – somos sempre um processo inacabado, por isso “aprender” é algo que nos deve acompanhar toda a vida. Esta noção temos que a ter dentro de nós, mas o contexto (quem nos rodeia e contra quem “competimos”) tem que nos fazer sentir isso mesmo. Se o contexto for demasiado fácil e não nos causar qualquer desconforto, então a necessidade de melhorar nunca será tão grande. Não devemos depender exclusivamente da nossa consciência de que temos muito que melhorar, é necessário que o dia-a-dia nos faça sentir isso, precisamos de nos colocar em situações que provoquem em nós o aparecimento da mentalidade certa e que mantenham em nós os hábitos que nos aproximam da evolução.

3. “Saber que melhorar é algo difícil!” O desafio, o desconforto e o obstáculo como parte importante da aprendizagem. Isto está em tudo relacionado com o ponto anterior. Não se dar às facilidades. Ver na dificuldade um desafio e não um impedimento para alcançar o que queremos. Perceber que a dificuldade me dá um “empurrãozinho” até encontrar as melhores soluções, enquanto que a facilidade me permite resolver o problema de qualquer maneira – bem ou mal o resultado será sempre positivo, no imediato. Ter este gosto pela dificuldade é algo essencial para melhorar. Ter gosto por aquilo que nos custa alcançar, retirar prazer desse processo sentindo que por esse caminho há mais hipóteses de nos tornarmos melhores. Formar neste ambiente é sempre mais saudável do que mascarar tudo com injecções de confiança sem sentido do que é a realidade.

4. “Máxima <<ilusión>>!” Esta palavra que no vídeo aparece traduzida como “paixão” é mais do que isso, é um misto de muita coisa. É um conceito que envolve paixão, entusiasmo, esperança, sonho, vontade, crença… é tudo aquilo que nos leva à transcendência, é aquilo que perante todas as adversidades faz com que nos superemos, é o que, perante um problema difícil e que nos demonstra mais uma vez que “não somos bons o suficiente”, nos faz procurar as soluções para a sua resolução. É isto e mais, é até aquilo que nos faz (com o tempo) gostar daquilo que nos cria um certo desconforto momentâneo, porque impera a “Máxima <<ilusión>> no que fazemos!”.

Mas deixo-vos o vídeo onde fala quem sabe melhor.

a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso “Lo Que De Verdad Importa” organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;

b) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016;

c) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”.

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João Baptista
Sobre João Baptista 19 artigos
A paixão por Futebol conduziu-o até à FCDEF (Universidade do Porto), onde o Professor Vítor Frade viria a ser uma grande influência na busca constante da essência do jogo e do treino. Com passagens por FC Porto B, FC Porto (Dragon Force), Valadares Gaia FC (feminino), AD Sanjoanense e EF Hernâni Gonçalves, desde 2016 que se encontra na China, de momento num projecto de formação ao serviço do Zhichun FC. A página/o blog "Bola na Árvore" são reflexões de quem vai à procura da essência do jogo, da formação, do treino e da vida que se manifesta no futebol... na busca incessante vai-se aprendendo.

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