O JOGO TODO, O TEMPO TODO

O jogo caminha para a perfeição e o que era pedido ou exigido há dez ou vinte anos atrás não é o mesmo, no aqui e agora. A evolução é inerente à vida e à sua forma e quando nos deparamos com algo que tem sucesso e é inovador, há sempre quem encontre antídotos e se descubram novos caminhos, numa progressão complexa, não linear. É epistemológico, pois procuramos a “fórmula” ideal, mas nunca a alcançamos. O melhor conhecimento que podemos atingir é este, “saber que nada sabemos” para melhor controlar o que é “controlável” e saber estar (agir!) com o incontrolável.

O Manchester City e Guardiola (inevitável a associação, pela ligação temporal e ideológica) são, sem dúvida, das melhores equipas do mundo em ataque posicional. O gerir das velocidade(s) e sentido(s) aquando da posse e o jogo posicional e funcional(!) que tem, permitem-lhes vencer e convencer em muitos dos jogos, ao longo da época. Mesmo enfrentando adversários próximos da sua valia (individual e coletiva), como o Leicester City, que apresenta uma Forma bem patente, muito organizada, articulada e sintonizada.

Nenhuma equipa consegue guardar a bola durante 90 minutos, por isso, torna-se imperativo saber o que se fazer quando a perdemos ou quando não a temos. Reconhecendo que há varias formas de agir (todas elas legítimas, desde que coerentes…), há duas situações que, para mim, são claras: ou reagimos após a perda e ganhamos bola no imediato…

ou, pressionando e não ganhando, há que recuperar posicionamentos para impedir caminhos para a nossa baliza. E aqui é onde o Man City sente mais dificuldades (alguns jogadores pelas suas capacidades condicionais são capazes de ajudar, mas é muito mais um problema coletivo – não me parece que seja Rúben Dias a solução)…não se sente, de todo, confortável a recuperar posicionamentos e entrar em organização (defensiva), para voltar a ter condições de pressionar. Apenas está pronta para pressionar…o problema é que nenhuma equipa pode pressionar, no campo todo, o tempo todo. No que diz respeito ao corpo humano, a sua funcionalidade requer esforços máximos, intermitentes, para que sejamos capazes de executar a um nível de máxima exigência…ele próprio faz a gestão dos seus tempos e espaços de ação (temos que o respeitar)!

Concomitantemente, a funcionalidade do próprio jogo (de hoje!) exige que, coletivamente, saibamos gerir o(s) tempo(s) e o(s) espaço(s), procurando “sobredeterminá-los”, sem cairmos no erro utópico de que somos capazes de jogar apenas aquilo que queremos. O gerir, sabendo estar sem bola, o acelerar pressão, o controlar espaços e adversários mais longe da bola, o retirar profundidade perante ameaças ou encurtar quando possível…tudo isto tem que estar presente no treino e é “treinável”. Não podemos só treinar o que queremos e depois avisar os jogadores que poderá acontecer “isto ou aquilo” e não os fizemos vivenciar e corporizar o jogo todo (por exemplo, o ter que correr para trás ou para a frente, o andar juntos, o predispor o corpo para o corte com a bola no ar, sendo pressionados, o retirar profundidade e controlar adversários, entre muitas outras coisas!).
Vítor Pereira (treinador do Shanghai SIPG FC) afirmou numa entrevista, que uma equipa (em organização defensiva) não pode ser como um limpa para-brisas (ter sempre a mesma velocidade e sentido). Por outro lado, uma equipa também não pode querer sempre acelerar pressão…o gerir o(s) tempo(s) é fundamental.

As previsões na vida são inférteis e não é de todo esse o objetivo do artigo. Neste momento, o Liverpool (e o Leicester City…) é “mais” equipa, na ligação do seu todo com as suas partes e das partes com o todo e na interatividade no jogo e com o jogo. Sendo uma equipa conhecida pelo seu conforto em ataque rápido ou transição, é também bastante capaz de jogar em organização para criar oportunidades (pese embora, neste jogo, tenha jogado na segunda parte contra 10, demonstra esse à vontade, esse saber estar comum – treino!).

O treino é capaz de criar o “à vontade” necessário à equipa e aos jogadores para lidar com o esperado e o inesperado, com o ressalto e sobressalto que pode sempre acontecer…nele modelamos os jogadores a uma Ideia e a um Jogo, que queremos que seja comum a todos e, por isso mesmo, apenas a podemos traçar por princípios gerais (tal como uma cultura onde crescemos) e, a partir daí, os jogadores expressarem o que é seu – torna-se, portanto, numa correspondência dinâmica, na construção de um modelo, criando uma adaptabilidade.

Uma equipa tem quer ser (agir) como um fluído. Tem, necessariamente, que existir o jogo todo, no treino, fazendo emergir uma articulação de sentido da equipa com as suas partes e com o jogo. Muitas vezes olhamos para os posicionamentos das equipas e afirmamos que está mal…contudo, tão importante como o posicionamento (por exemplo, o alinhamento da linha defensiva, que é muito importante…) é a funcionalidade da equipa e agilidade (Corpórea) para antecipar o que poderá acontecer e impedir que sejamos agredidos (o objetivo principal é não sofrer e procurar marcar).

Atualmente, as melhores equipas são as que jogam o jogo todo o tempo todo e exigem aos seus jogadores que também o façam…cada vez mais, o jogador tem que saber (com eficácia) defender, atacar e transitar.
Veremos quem será o campeão…sabendo que ainda há muito espaço para as equipas evoluírem e “involuírem”.

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Sobre RicardoCarvalho 3 artigos
Treinador de Futebol. Refletir sobre futebol...é modelador, é corpóreo. O Corpo que o joga e o Cérebro que o sente.

1 Comentário

  1. Será este problema defensivo um problema do Guardiola, que não sabe colocar/treinar a equipa para a organização defensiva, ou é um problema das características dos jogadores que compõem o plantel?

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