Shakhtar Donetsk – Ideias portuguesas pelo mundo

Portugal já é reconhecido internacionalmente pela exportação de talento sob a forma de jogadores e treinadores para o alto rendimento. Na Ucrânia, atual campeã mundial de sub-20, fica bem patente como tal também se estende para o contexto de formação: Edgar Cardoso, com passagens prévias pela formação do SL Benfica, Aspire Academy e Federação do Qatar, comanda agora a formação do Shakhtar Donetsk e conversou um pouco connosco sobre o processo que está a tentar implementar nos escalões mais jovens do campeão ucraniano em título (onde a presença portuguesa se faz sentir também com Luis Castro, José Boto, Fernando Valente e respetivas equipas técnicas).

Projeto de jogador

E.C: Uma das coisas que me pediram quando aceitei trabalhar com o Shakhtar foi: “olha para a primeira equipa, tenta replicar um bocadinho daquilo que é o estilo da primeira equipa, porque aquilo que precisamos é que mais jogadores da formação possam aparecer na primeira equipa”. Queremos assim que os miúdos olhem para a primeira equipa, vejam o Tetê, o Taison, o Marlos, em última instância olhem para outros campeonatos, vejam o Neymar. E tentem trazer um bocadinho destes jogadores para o treino com o sentimento de haver sempre liberdade para criar, para recriar. E não podemos castrar isso.

O Luis Castro se vier ver um treino dos sub-21, sub-19 ou sub-17, que tipo de jogador é que vai escolher para integrar a primeira equipa? Ele se vier aqui não pode estar duas horas, porque a vida de um treinador de equipa A nem dá para respirar. Ele vai procurar é aquele miúdo que pega na bola e de repente fez qualquer coisa diferente dos outros, que vai no 1v1, que faz um cruzamento de letra, finaliza uma situação de pontapé de bicicleta ou de calcanhar, é o jogador que salta à vista.

Vamos olhar para o exemplo de um médio-defensivo, que quando temos bola no guarda-redes ou centrais, na estrutura do jogo está bem posicionado, mas orienta-se exclusivamente para a bola e com as costas voltadas para onde realmente queremos ir. Com ele nós queremos intervir em treino de modo a que ele se oriente e olhe para o sentido da progressão sempre que tal for solicitado. E essa intervenção na dinâmica do exercício não é com “passa para ali, passa para acolá, vai para ali”, mas sobretudo é com “não te esqueças de te enquadrar, não te esqueças de olhar” e com isto vais tocar noutro ponto que para mim é primordial que é o entendimento do jogo.

Formar segundo princípios

E.C.: Derivado do conhecimento e experiência que fui adquirindo eu acredito que não deve haver um modelo de jogo na formação, mas sim princípios muito bem definidos e esses princípios têm de ser conhecidos exaustivamente pelos jogadores. O que é que queremos ver? Queremos ver uma equipa que tenha muita bola. Queremos ver uma equipa que derivado do talento que tenha, saiba resolver situações de 1v1 e por vezes de 1v2, logo não queremos treinadores que insistam na ideia do passe pelo passe. Queremos dar prioridade ao jogo interior, estar confortáveis em jogar em espaços muito curtos e queremos que tenham os olhos sempre na baliza adversária, com ritmos muito altos no último terço de maneira a conseguir quebrar esta estrutura muito fechada do adversário e criar muitas oportunidades de golo. O ganhar é resultado de uma ideia apenas.

Metodologia de treino

E.C.: Em termos gerais o que eu quero é trazer o jogo para o treino. O Carlos Queiroz definia isto como uma “simplificação da estrutura complexa do jogo“. Tu queres replicar em treino situações que te vão acontecer no jogo. E essas situações não são de 11v11, estamos a falar de um 3v1, 3v2, situações em inferioridade de 1v2, 1v3, depois evoluímos para situações mais complexas em termos de número e espaço (5v5, 7v7), utilizar jokers para dar superioridade, mas essencialmente o que tu queres é recriar situações que acontecem no jogo, sejam elas em construção a partir de trás, seja em progressão pelo corredor lateral ou em chegada no último terço.

Quero um jogo e um treino menos dirigido por parte dos treinadores e com muita pergunta (“Onde está o espaço? Estás a olhar? Quando olhas o que é que vês? Se eu te der a bola outra vez vês uma solução melhor do que aquela que tomaste? Sim? Não? Porquê?“). E assim trabalhamos o entendimento do jogo, porque acredito que da próxima vez que o miúdo passe por uma situação muito semelhante ele já vai conseguir dar sequência e consequência ao que o jogo lhe está a pedir, ao que o adversário lhe permite fazer e ao que os colegas lhe estão a oferecer naquele momento.

Outra coisa que eu gostava de ressalvar é a importância do adversário na nossa periodização: é zero. Gosto de chegar ao fim de semana e ter algumas surpresas. Por exemplo, aqui na Ucrânia os adversários marcam muito individual e isso traz-nos muitos problemas no jogo, com jogadores que olham para nós e dizem “eu sinto-me sufocado porque tenho um jogador que anda a correr atrás de mim durante 70 minutos”. E eu digo-lhes: “olha, paciência, vais ter que te desenrascar”. Também criamos cenários em treino que simulam estas situações porque os meus princípios dizem-me que quando eu faço um passe todos os 10 jogadores devem-se mover de acordo com o adversário para fornecer 10 linhas de passe. Logo não aceito isto como uma desculpa, mas sim como um desafio para eles em jogo, de forma a dar-lhes a capacidade de resolverem problemas sem a ajuda do treinador.

Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 8 artigos
Fábio Baptista. Experiência como analista em equipas de formação e atualmente em contexto de seniores em Portugal. Vive sob o lema: conhecer o jogo para influenciar o jogo.

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