Há trapos velhos mas bons – Os 10 dias de sonho de Luis Suárez

“Muitas coisas me passam pela cabeça. Comecei por ser menosprezado no início da temporada. O Atlético abriu-me as portas para que eu pudesse mostrar que ainda sou capaz e por isso estarei sempre grato por confiarem em mim. São muitos anos no futebol e este foi aquele em que mais sofri por tudo, daí a minha entrega em cada jogo.” 

Luis Suárez, após conquistar a La Liga

Num final de temporada que desafiou a reserva cardíaca dos seus adeptos, o Atlético de Madrid sagrou-se campeão nacional depois de 7 anos de interregno. Um final que se calhar alguns até nem esperavam (os colchoneros chegaram a ter uma vantagem até considerável no campeonato e saíram relativamente cedo das outras competições), principalmente depois de saírem do Camp Nou com um empate que permitiu segurar a vantagem para os últimos jogos. No entanto, a sequência final de 3 jogos em 10 dias (R. Sociedad, Osasuna e R. Valladollid) com três vitórias por 2-1 foi crítica e a capacidade de superação do conjunto de Simeone foi encarnada numa individualidade: Luis Suárez. O uruguaio, que foi posto de parte no início da época no Barcelona (a decisão que provavelmente marcou a época em Espanha), surgiu renascido das cinzas em Madrid, realizando uma época bem interessante (21 golos e 3 assistências na La Liga) e sendo absolutamente decisivo nestes últimos 3 jogos com (2 golos e 1 assistência nos 6 golos).

De facto, apesar da questão da idade (que cada vez é mais uma não-questão no futebol), neste final de época vimos um pouco daquilo que o uruguaio tem de melhor: uma expressão pelo jogar das características emotivas/volitivas completamente identificada com o modelo (ou na gíria, a raça, o “nervo”), a capacidade de jogar em apoio frontal e como definidor em passe quando orientado para a progressão (a assistência frente à R. Sociedad) ou a jogar na solicitação da profundidade (golo frente ao R. Valladollid) e a identificação do espaço livre na área aquando da ocupação das zonas de finalização (golo frente ao Osasuna). Fica sempre a questão provocadora para reflexão: todos os aspetos do jogo de Luisito enumerados em cima fazem com que a decisão que o Barcelona tomou seja, à posteriori, um erro tremendo, ou a identificação perfeita com a modelação de jogo dos colchoneros confirmam que Madrid era o local ideal para a sua progressão na carreira?

Sobre Juan Román Riquelme 63 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

1 Comentário

  1. Excelentes questões, que não me parecem mutuamente exclusivas. Isto é, a formação do plantel do Barça foi feita – nesta época, como já vem acontecendo há alguns anos – em navegação à vista. Falta saber o que querem ser e contratar para tal. Por muito bons que seja a maioria dos jogadores que por lá anda, só mesmo predestinados como o Messi conseguem brilhar (quase) independentemente do modelo. Os mortais estão condenados a ser potenciados ou desvalorizados (até determinado ponto) pelas (melhores ou piores) ideias das equipas. Suárez, nesta fase da carreira, continua a ser um óptimo jogador, daqueles que elevaria o nível do Barça. Mas precisa hoje, como nunca, de uma ideia que eleve as suas qualidades e esconda – ou transforme – os seus defeitos. O Atlético (e Simeone) ofereceram-lhe isso. Ou seja, a minha resposta é sim para ambas as perguntas, mas com um peso maior na segunda

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