Da análise ao treino, rumo ao título – Como foi preparada a final de Gdánsk

Trabalho, não há outra explicação. Procuro dar todas as condições aos jogadores para que conheçam o adversários e para executarem a nossa ideia.

Unai Emery, pós-jogo frente ao Man. United

Na final desta quinta-feira que opôs o favorito Manchester United ao Villarreal, o submarino amarelo saiu vencedor desta edição da Liga Europa após uma maratona de grandes penalidades e erguendo assim o maior título da sua história já quase centenária. E se para uns foi uma estreia, para outros nem por isso: Unai Emery conquistou o troféu pela 4ª vez (2014, 2015, 2016, 2021), registo impressionante que lhe garante o título de “senhor Liga Europa” (e apenas Trapattoni conquistou mais competições europeias que o basco). Portanto, se a formação espanhola tinha poucas vivências nestas fases decisivas até à data, o seu treinador tinha de sobra e certamente soube preparar esta final da melhor forma, otimizando os recursos à disposição frente a um adversário com um orçamento abismalmente superior. Nesse sentido, fomos tentar perceber um pouco como o pode ter feito: desde a análise ao padrão de jogo do United, à forma como recriou esse jogar em treino e a posterior aplicação dos conceitos adquiridos no jogo de Gdánsk.

Analisar o adversário

A título de exemplo para este artigo (e de forma a não tornar o mesmo demasiado extenso), a análise de adversário ao modelo do Manchester United incidirá essencialmente sobre o seu momento de organização ofensiva (até porque, sendo favorito no jogo, provavelmente será aquele em que passará mais tempo), com principal foco na caracterização da fase I (construção). Observando os últimos jogos dos comandados por Solskjær, os red devils adotam, em organização ofensiva, uma estrutura base em 1-4-2-3-1 apostando invariavelmente numa construção apoiada curta a partir do GR com alguns subprincípios bem evidentes:

  • Saída com duplo-pivot no corredor central – após a saída a partir do GR, a construção inicia-se num posicionamento de 2+2 em corredor central com duplo-pivot assumido (podendo passar por lá Pogba, McTominay, Fred, Matic) com largura dos laterais em posicionamento baixo. Os dois médios colocam-se muitas vezes nas costas da primeira pressão contrária e a partir daí os centrais podem solicitar o jogo interior dos médios, que por sua vez têm praticamente todos capacidade para posteriormente acelerar o jogo em progressão ou em passe, ou no jogo exterior dos laterais que se mostram muito para jogar.
  • Permutas ala/extremo em corredor lateral – se a opção for o jogo de corredores, o jogo em largura normalmente envolve 2 jogadores (lateral + extremo), com os laterais a procurarem muito a profundidade com e sem bola (principalmente o lateral-esquerdo, Shaw, com muita chegada tanto por dentro como por fora) por forma a gerarem situações de 2v1 e exploração das costas dos laterais/alas adversários.
  • Mobilidade entrelinhas do médio ofensivo – normalmente o papel desempenhado por Bruno Fernandes, com o criativo português a movimentar-se no espaço à frente da linha defensiva e nas costas dos médios (ou lateralmente a um 6 único), tendencialmente para o lado esquerdo do sentido do ataque por forma a receber e enquadrar-se confortavelmente para definir (em passe ou remate exterior) com o pé dominante.

Contextualizar em treino

Na sequência do acompanhamento à final que foi feito pelos media nos últimos dias, a UEFA disponibilizou a sessão de treino completa do Villarreal no relvado da Arena Gdańsk na véspera da final. Numa unidade de treino típica de véspera de jogo (pouca duração, pouca carga, pausas mais frequentes e longas entre repetições nos exercícios, algum trabalho de ativação até em regime quase lúdico e situações de finalização no fim), foi curioso observar que Unai Emery utilizou uma grande porção da parte fundamental do treino para fazer algum trabalho aquisitivo simulando alguns aspetos da construção do United e reavivando aos seus jogadores o plano de jogo no que toca à sua organização defensiva. Assim sendo, essa contextualização em treino foi realizada num exercício de GR+4T+6 v 10+GR com redução da profundidade (uma baliza no limite da área), repetições a iniciarem na construção da estrutura adversária (de colete roxo/rosa) e em caso de recuperação há transição ofensiva com contra-ataque sem oposição. Os 4 treinadores integram a estrutura adversária de forma a simularem (uma vez que têm um conhecimento mais profundo dos jogadores em questão) os dois centrais, o lateral-esquerdo e o médio-ofensivo: os dois primeiros para poderem controlar o sentido da posse no exercício e os dois últimos pelas suas particularidades posicionais (muita profundidade do lateral e mobilidade do médio-ofensivo nas costas dos médios). Do outro lado, duas equipas de 10 elementos (+GR), uma sem colete e outra de colete azul que vão alternando (ficando uma em descanso enquanto a outra faz a série de repetições no exercício), que vão aplicar os conceitos do plano de jogo com uma estrutura em 1-4-4-2 em zona pressionante com algumas referências individuais e com os seguintes subprincípios:

  • Primeira fase de pressão – em treino foram experimentados dois cenários: uma pressão em bloco médio com manutenção global da estrutura, com os avançados a escusarem-se de pressionar os dois centrais e a realizarem uma pressão do tipo “sombra” escondendo as linhas de passe para o duplo-pivot, com os médios movimentarem-se na diagonal em pressão + cobertura (médio próximo encurta sobre o médio do duplo-pivot mais próximo, médio longe retorna à zona de 6 em cobertura defensiva e vigilância dos movimentos do 10) e extremo e lateral a encurtarem sobre lateral e extremo contrário respetivamente; e uma pressão em bloco alto com subida de um dos médios e desdobramento da estrutura num 1-4-4-2 do tipo losango, com subprincípios semelhantes mas com possibilidade dos avançados saltarem nos centrais e no GR.
  • Disputa em jogo direto – ao obrigar o adversário a jogar longo, ocorre compactação com redução de largura (entrada dos extremos em jogo interior) e a disputa em corredor central é feita pelo central próximo, com a linha defensiva a ajustar para um posicionamento de 1+3 para controlo de uma possível continuação da jogada para a profundidade e um dos médios baixa à zona de 6 para preparar a disputa de 2ª bola (juntamente com os extremos, agora posicionados como interiores).
  • Controlo do jogo de corredor – por forma a impedir situações de 2v1 de extremo + lateral contrário contra o laterai e dada a procura da profundidade recorrente por parte dos laterais do United, foram estabelecidas algumas referências individuais na defesa do corredor, forçando as situações de 2v2 com extremo a encurtar e a acompanhar o lateral contrário e o mesmo comportamento a acontecer com o lateral sobre o extremo contrário, não havendo permuta de marcação mesmo em situações de overlap/inlap do lateral (que era constantemente perseguido pelo extremo).

Reproduzir em jogo

Aquilo que se previa para o jogo confirmou-se, com o Manchester United a ter a iniciativa do jogo e com largos períodos de posse (mesmo em meio-campo contrário). No entanto, a estratégia para o jogo descrita em cima condicionou os ingleses de tal forma (ver vídeo abaixo) que as oportunidades flagrantes de golo eram escassas, os espaços difíceis de encontrar pela compactação do bloco amarelo e os dois médios do duplo-pivot sentiram um tal desconforto com a pressão do Villarreal que por vezes ou saía um das costas da pressão para alargar a saída a 3 ou baixavam mesmo os dois para a frente dos avançados adversários para conseguirem pegar no jogo. A verdade é que a solidez defensiva dos espanhóis foi perdurando, as individualidades dos red devils não conseguiram fazer a diferença e o jogo arrastou-se até às grandes penalidades onde o submarino amarelo foi mais eficaz.

Sobre Juan Román Riquelme 67 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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