Visão portuguesa sobre o treino – Lage que é do Wolves e a periodização que é tática

Se o termo “tático” é muitas vezes empregue de forma redutora quando se fala em sistema tático, por consequência, o treino tático é geralmente entendido como a castração do pensamento, a robotização dos jogadores e a formatação das equipas. É importante perceber que o “tático” não é apenas nas basculações e pressão, é muito mais que isso. O “tático” é pensar. O “tático” é tomar decisões. O “tático” é jogar.

Bruno Lage, entrevista em 2014

Depois de um período sabático, Bruno Lage está de volta ao ativo e será o treinador do Wolverhampton para a próxima época. Um regresso às terras de sua majestade onde já tinha trabalhado com Carlos Carvalhal, treinador que igualmente exerceu alguma influência sobre as ideias do ex-treinador do Benfica e que em conjunto desenvolveram mesmo uma obra com alguma descodificação metodológica e conceptual da Periodização Tática de Vítor Frade, que ambos aplicam na operacionalização do seu processo de treino e que é já um dos estandartes que caracteriza internacionalmente a metodologia de treino do treinador português. O presente artigo pretende então aprofundar então alguns conceitos relativos a esta forma de pensar o treino (que certamente acompanhará Bruno Lage neste novo projeto), começando então pela questão basilar: o que é a Periodização Tática?

Segundo Carvalhal (2014), Periodização Tática é uma conceção de treino que tem uma matriz conceptual – o jogar, a Intencionalidade coletiva, o tático, sustentada pelos grandes princípios de jogo, sendo que através do supraprincípio da Especificidade permite que os Jogadores vivenciem nos treinos, situações próximas das que procurarão encontrar na Competição, motivo pelo qual se revela profícua na criação de marcadores – somáticos, e consequentemente, na melhoria da capacidade de antecipação e do desempenhos dos jogadores (Maciel, J., 2008). É ainda operacionalizada com base numa outra matriz, a matriz metodológica que é suportada por princípios metodológicos próprios, no respeito por um morfociclo padrão em construir um jogar específico. Os princípios próprios da matriz metodológica são os seguintes (Carvalhal, C., 2014):

  • Princípio de Progressão Complexa – está relacionado com a distribuição dos conteúdos de treino e do modelo (princípios e subprincípios) durante o morfociclo (entendido como o espaço temporal entre 2 jogos) e ao longo dos morfociclos, consoante os problemas que a equipa levanta no seu funcionamento e respetiva evolução da menor para a maior complexidade de comportamentos.
  • Princípio da Alternância Horizontal em Especificidade – objectivo de induzir adaptações ao longo de um morfociclo nas diferentes escalas (individual, sectorial, intersectorial e colectiva). Um exercício de treino relacionado com a ideia faz emergir a velocidade, tensão e duração da contração muscular de uma forma particular. Podemos direcionar os exercícios (e os conteúdos) para que façam incidir a dominância do tipo de contrações mais numa característica ou mais noutra.
  • Princípio das Propensões – criar contextos em que a densidade do ou dos princípios que se pretendem treinar apareçam como regularidades, de forma a fazer emergir o jogo que desejamos para a equipa.

Procura-se então que os jogadores adquiram um conjunto de intenções prévias, isto é, representações mentais, relativas à especificidade de um determinado jogar, promovendo-se no treino o aparecimento de intenções em acto, em conformidade com as intenções prévias relativas àquele jogar. É tarefa do treinador reduzir as discrepâncias entre intenções prévias e intenções em acto, o que se torna possível como esclarece, treinando em Especificidade, através da repetição sistemática, para que os hábitos relativos a determinado jogar se instalem nos jogadores (Mourinho, J., 2006). Tal só é possível através de um fino planeamento daquilo que é o exercício de treino.

Um exercício é específico se estiver em relação com a ideia de jogo. Por exemplo, se se pretende que em posse de bola, na primeira fase de construção, a bola circule rapidamente pela nossa linha defensiva e definimos isto como princípio. Para que isso aconteça definimos subprincípios em que se quer que a bola passe entre os defesas centrais, que se posicionam à largura da área, para os defesas laterais, que se posicionam “abertos” e numa linha mais subida, e que estes recebam em progressão orientada para a frente. Esta é a intencionalidade e ao inventarmos exercícios deve-se contemplar a propensão destas interações intencionais (que o contexto do exercício permita que ocorram várias vezes). Pode-se reduzir, por exemplo, realizando jogos reduzidos, mas é um reduzir sem empobrecer porque, à escala, o jogo está presente, mesmo com menos espaço e um menor número de jogadores (Carvalhal, C., 2014).

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Sobre Juan Román Riquelme 67 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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